Folha desceu 'às profundezas do esgoto', diz Bolsonaro sobre suspeita de caixa dois em campanha

Presidente afirma que jornal avançou todos os limites com relato sobre planilha e depoimento à PF

Bernardo Caram
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste domingo (6) que a Folha "avançou todos os limites" e desceu "às profundezas do esgoto" ao publicar reportagem sobre possível uso de caixa dois na campanha dele à Presidência e do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, ambos do PSL.

"A Folha de S.Paulo avançou a todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas", afirmou Bolsonaro em suas redes sociais. "Com mentiras, já habituais, conseguiram descer às profundezas do esgoto", disse. Na mensagem, o presidente reproduz parte da primeira página do jornal.

Segundo reportagem publicada pela Folha, um depoimento dado à Polícia Federal e uma planilha apreendida em uma gráfica sugerem que dinheiro do esquema de candidatas laranjas do PSL em Minas Gerais foi desviado para abastecer, por meio de caixa dois, as duas campanhas.

O depoimento foi dado por Haissander Souza de Paula, assessor parlamentar de Álvaro Antônio à época e coordenador de sua campanha a deputado federal no Vale do Rio Doce (MG). Ele disse à PF que "acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro".

Em uma planilha, nomeada como "MarceloAlvaro.xlsx", há referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão "out", o que significa, na compreensão de investigadores, pagamento "por fora".

Na mensagem publicada nas redes sociais, Bolsonaro ignora a descoberta da planilha e chama Haissander, homem de confiança de Marcelo Álvaro Antonio, de "tal assessor". Além de não citar a planilha, o presidente não contesta a existência do depoimento à PF.

De acordo com o presidente, sua campanha arrecadou R$ 4 milhões pela internet e usou metade do valor. Segundo ele, foi feita uma tentativa de doação da sobra de R$ 2 milhões, o que não era permitido pela legislação.

Bolsonaro disse que não usou dinheiro do fundo partidário na corrida eleitoral do ano passado. Na verdade, ele fazia referência, não ao fundo partidário, mas ao fundo eleitoral, que distribuiu R$ 1,7 bilhão às campanhas dos partidos.

O presidente ainda fez referência às empresas que são anunciantes na Folha. "O que mais me surpreende são os patrocinadores que anunciam nesse nesse jornaleco chamado de Folha de S.Paulo", disse.

Mais cedo, o chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) da Presidência, Fabio Wajngarten, usou suas redes sociais para criticar a reportagem e sugerir um boicote publicitário a órgãos que, no seu entender, veiculam "manchetes escandalosas".

Em uma nota conjunta divulgada neste domingo, a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) disseram condenar a manifestação de Wajngarten com críticas à mídia. As entidades disseram também repudiar “a conclamação” feita pelo secretário aos anunciantes.

“A ANJ e a Aner lamentam ainda a visão distorcida do secretário sobre mídia técnica, o que é preocupante vindo de quem tem a responsabilidade de gerir recursos públicos de publicidade”, afirma a nota.

Em nota, o presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Daniel Bramatti, disse que "a gravíssima manifestação do funcionário do governo Bolsonaro se insere em um contexto de sistemáticos ataques ao jornalismo vindos do presidente e de seus aliados". 

Segundo o presidente da entidade, eles "procuram suprimir ou desacreditar qualquer voz que se contraponha ou concorra com as narrativas oficialistas".

"Em uma democracia, é inaceitável que um representante do governo convoque anunciantes a boicotar veículos por insatisfação com o que publicam. Essa demonstração de descaso em relação aos princípios da impessoalidade e da liberdade de expressão (consagrados em nossa Constituição, por sinal) é típica de quem opta por seguir o roteiro da promoção do autoritarismo em vez do respeito à democracia", acrescentou Bramatti.

Folha revelou, em reportagens publicadas desde o início de fevereiro, a existência de um esquema de desvio de verbas públicas de campanha do PSL em 2018, que destinou para fins diversos recursos que, por lei, deveriam ser aplicados em candidaturas femininas do partido.

Álvaro Antônio, deputado federal mais votado em Minas Gerais, foi coordenador no estado da campanha presidencial de Bolsonaro. 

O ministro foi indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público de Minas Gerais na última sexta (4) sob acusação dos crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa —com pena de cinco, seis e três anos de cadeia, respectivamente. Ele nega irregularidades.

Haissander foi preso por cinco dias no final de junho, ao lado de outros dois investigados —entre eles um atual assessor de Álvaro Antônio no Turismo.

Neste domingo, o ministro Sergio Moro (Justiça) afirmou que o presidente fez a campanha "mais barata da história" e que a manchete da Folha não reflete a realidade.

Na mensagem publicada neste domingo no Twitter, Moro indica ter informações da investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de maneira sigilosa em Minas. 

"Nem o delegado, nem o Ministério Público, que atuam com independência, viram algo contra o PR [presidente da República] neste inquérito de Minas. Estes são os fatos", disse. A publicação de Moro foi ‘curtida’ por Bolsonaro e, depois, compartilhada pelo presidente em sua conta no Facebook.

A reportagem da Folha, no entanto, é baseada em depoimento de um ex-assessor do ministro do Turismo à PF e em uma planilha apreendida nas investigações. Em nenhum momento o jornal atribui conclusões sobre o assunto aos investigadores.

Não é a primeira vez que Moro sugere ter tido informações sobre o inquérito sigiloso do caso dos laranjas. Em junho, Bolsonaro afirmou ter recebido informações do ministro da Justiça sobre a investigação em curso. 

Na ocasião, o ministério chegou a admitir que Moro repassou dados ao presidente, mas depois mudou a versão, dizendo que só trataram do que havia sido divulgado pela imprensa.

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