Hoje pastor, ex-delegado do Dops vira réu acusado de queimar corpos na ditadura

Cláudio Antonio Guerra diz que 'não agia por conta própria' e era 'soldado cumprindo ordens superiores'

Rio de Janeiro

Cláudio Antonio Guerra, 79, ex-delegado a serviço da ditadura militar brasileira e hoje pastor evangélico, virou réu na Justiça Federal. Ele é acusado de destruir 12 cadáveres entre 1974 e 1975, incinerando-os em fornos de uma usina de açúcar desativada em Campos dos Goytacazes (RJ).

Guerra integrava à época o Dops (Departamento de Ordem Político Social). Em março, resumiu assim à Folha o período em que, segundo o próprio, matou ou ajudou a sumir com corpos de militantes de esquerda: "Fiz algumas coisas que não foram boas".

Pastor Cláudio Guerra, que foi delegado do Dops (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo
Pastor Cláudio Guerra, que foi delegado do Dops (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo - Gabriel Lordello - 15.mar.2019/Folhapress

O pastor foi enquadrado por crime de ocultação de cadáver. O Ministério Público Federal foi notificado na terça (22) sobre a decisão da juíza Flávia Rocha Garcia, da 2ª Vara Federal de Campos, de acatar a denúncia feita pelo procurador Guilherme Virgílio.

À reportagem o réu disse que a Justiça tem todo o seu respeito e que acata "sua soberania", mas que "gostaria de registrar que não agia por conta própria, era um soldado cumprindo ordens superiores".

Guerra confessou os crimes em várias ocasiões. Em "Pastor Cláudio", documentário lançado neste ano, ele comenta ao ser questionado sobre nomes de desaparecidos durante o regime militar: "Esse aí eu matei", "esse eu incinerei".

Já havia feito o mesmo relato cinco anos atrás, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, e dois anos antes, em "Memórias de uma Guerra Suja", livro com recordações sobre o que definiu como sua "época de bobo".

Pastor da Assembleia de Deus, Guerra contou como ele e colegas eram encarregados de queimar mortos despachados por militares. Às vezes, disse, abriam os sacos plásticos pretos para dar "uma espiadinha, por curiosidade".

Diz que chegou a ver uma mulher com "sinais físicos" de estupro e um homem sem braço, que desconfiava ser José Roman, um corretor de imóveis do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o Partidão.

 

Por WhatsApp, o ex-delegado afirma: é preciso considerar que "se tem uma anistia que descriminaliza os atos para os dois lados". 

Em sua decisão, a juíza federal também resgata a Lei da Anistia promulgada em 1979 pelo último presidente da ditadura militar (1964-1985), o general João Figueiredo.

Ela aponta que a legislatura que anistiava "crimes políticos ou conexos com estes” no período  veio "antes do advento da Constituição Cidadã" e "certamente não é convencional, isto é, está em flagrante dissonância com tratados e convenções de Direitos Humanos que o Brasil se submeteu" na comunidade internacional. 

A visão da magistrada se alinha à do Ministério Público, diz o procurador Virgílio. "O Brasil, ao editar a Lei de Anistia e deixar de julgar seriamente esses tipos de crime, deixa de proteger os direitos humanos da forma que deveria."

Em depoimento, Guerra narrou uma estratégia para dar sumiço nos corpos que acabavam não engolidos por chamas, mas jogados em águas: arrancar parte do abdômen das vítimas, para evitar que gases se formassem neles —desse jeito o cadáver perigava emergir à superfície. Rios seriam uma opção melhor, já que no mar “a onda traz de volta”.

O ex-agente disse que a ideia de usar a Usina Cambahyba, mais eficiente para eliminar rastros, surgiu porque ali ele já desovava o corpo de criminosos comuns. Era, segundo ele, amigo do proprietário.

Parte dos cadáveres ele conta que apanhava na corpos na Casa da Morte, centro em Petrópolis (RJ) utilizado pela ditadura para assassinar opositores. Segundo Guerra, ele parava com o carro no portão e esperava militares entregarem defuntos ensacados.

Na usina, o cheiro dos corpos não se destacava porque, de acordo com o ex-delegado, o fedor do vinhoto (subproduto na produção de açúcar e etanol) era mais forte. 

A Procuradoria pede, além da condenação pelos corpos ocultados, que a União cancele eventual aposentadoria ou benefício que o réu receba diante de sua atuação como agente público. O pastor disse à Folha que recebe um salário mínimo pelo INSS.

Guerra acrescenta, como "um pequeno desabafo": está "bem fragilizado" após levar um tombo no quintal de casa que teria levado a uma fratura no nariz. Meses atrás, contou que morava numa "casinha humilde" em Vila Velha, município vizinho à Vitória (ES). 

Quando trabalhava para a ditadura, em compensação, frequentava um casarão onde "dava festas para mais de 100 pessoas, coisa de ostentação mesmo", disse.

Ele é alvo de outras duas denúncias da Procuradoria: sob acusação de participar do atentado do Riocentro (teria forjado evidências para culpar militantes antiditadura pela bomba) e acusado pelo assassinato de um estudante de geologia em 1973. Ronaldo Mouth Queiroz era vinculado à Aliança Nacional Libertadora, opositora aos militares.

Virgílio diz que o Ministério Público não irá atrás de Guerra por outra execução que ele diz ter cometido na ditadura porque "nossa lei exige perícia do corpo para provar o homicídio, e não há como fazer isso tantos anos depois". Nenhuma testemunha corroborou, então sustentar uma acusação só pela palavra do ex-agente enfraqueceria uma eventual ação.

Desde fevereiro, o ex-delegado cumpre prisão domiciliar, condenado pela morte de sua esposa e de sua cunhada, ambas encontradas em 1980 num lixão com 19 e 11 tiros, respectivamente. Esse crime o pastor nega.

Os desaparecidos

Estes são os nomes dos desaparecidos cujos corpos, segundo a Procuradoria, o ex-delegado ajudou a descartar: Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, Eduardo Collier Filho, Ana Rosa Kucinski/Ana Rosa Silva (nome de casada), Wilson Silva, David Capistrano da Costa, Joaquim Pires Cerveira, João Batista Rita, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Thomaz Antonio da Silva Meirelles Netto, João Massena Melo e Armando Teixeira Fructuoso.

Collier Filho é o amigo de infância que sumiu junto com Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz. Os dois foram vistos pela última vez por familiares em 23 de fevereiro de 1974.

Em agosto, o caso voltou à tona após o presidente Jair Bolsonaro dizer, com ironia, que se Felipe quisesse ele poderia contar como seu pai havia desaparecido nos tempos de repressão. 

Bolsonaro sustentou que Fernando teria sido morto por membros da Ação Popular, de oposição ao regime militar, versão que contraria qualquer documento histórico.

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