Governo democrático não tem medo de povo nas ruas, diz Gleisi, presidente do PT

Deputada defende discurso radical contra a retirada de direitos sob governo Jair Bolsonaro

Brasília

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre nesta sexta-feira (22) o 7º Congresso Nacional do PT, em São Paulo. Com a bênção do petista, a deputada Gleisi Hoffmann (PR), 54, deve ser reconduzida à presidência do partido para um mandato de quatro anos. 

Em entrevista à Folha, a deputada defendeu um discurso radical contra a retirada de direitos e ao que classificou como “destruição monumental do Estado” sob o governo Jair Bolsonaro. 

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR)
A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR) - Pedro Ladeira/Folhapress

“O governo tem que sentir que tem pressão popular. Não tem que ter medo de povo nas ruas. Um governo democrático não teme manifestação.”

A petista disse que, nesse cenário, “não podem exigir” que o PT fique pacífico, mas que possíveis manifestações —“pacíficas e democráticas”, ressalta— contra a agenda de Bolsonaro acontecerão independentemente de uma ação do partido. “O povo vai reagir por uma questão de sobrevivência.”

Uma ala do partido tem defendido que o PT precisa rever seu discurso para falar para além de sua bolha. O próprio senador Humberto Costa (PT-PE) fez essa defesa em entrevista à Folha e ao UOL. A sra. é adepta dessa tese? - Concordo com o senador Humberto quando fala que temos que falar para além da bolha. A única forma é falarmos com o povo. E aí não é um discurso de moderação, é um discurso radical contra a retirada de direitos.

O povo está esperando de nós um posicionamento firme. O povo quer trabalho, quer renda, quer condições de vida. Não pode ser um discurso moderado no sentido de negociar os direitos do povo. Tem que ser um discurso ofensivo para falar com o povo que está sofrendo.

E como medir o que é radical para falar sobre direitos e o que é radical para incitar a população a ir para as ruas? O discurso do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, por exemplo, foi criticado por mencionar os protestos no Chile e convocar a esquerda a voltar às ruas… - O Lula sempre foi um líder que conduziu manifestações. Foi um líder sindical, fez as maiores greves no ABC paulista, se tornou referência e é óbvio que estava exortando o povo a lutar pelos seus direitos.

Como você vai fazer frente a essa agenda neoliberal que está no Congresso? [Agenda] que vai retirar direitos, que vai taxar desempregados. Ficando em casa de braço cruzado, fazendo de conta que nada existe? O governo tem que sentir que tem pressão popular. Não tem que ter medo de povo nas ruas. Um governo democrático não teme manifestação. Um governo democrático medeia, conversa, negocia.

O problema é que hoje temos um governo que quer impor uma agenda neoliberal e quer usar, para isso, o autoritarismo. Falam disso o tempo inteiro. Você quer que o povo passe fome, passe dificuldade, não tenha emprego, não tenha dinheiro para pegar ônibus e metrô e fique quieto? As pessoas têm que se manifestar. Isso quer dizer que é manifestação pacífica, que é manifestação na democracia, mas tem que mostrar para os seus governantes e representantes que elas não estão satisfeitas. 

A sra. teme que qualquer manifestação mais aguda contra o governo seja usada como pretexto para alguma reação mais forte, com medida de exceção, como um novo AI-5 sugerido pelo deputado Eduardo Bolsonaro? - Para eles implantarem essa agenda neoliberal que estão querendo, só com muito autoritarismo. Em nenhum lugar do mundo uma agenda neoliberal dessas foi implantada na paz. É uma agenda muito pesada. E eles já estão falando que não vão aceitar se o povo se manifestar contra.

A questão do AI-5 que o filho do Bolsonaro falou é gravíssima, é um crime. O povo não vai se manifestar contra a fala do Eduardo Bolsonaro, mas vai se manifestar quando não tiver dinheiro para pagar o transporte coletivo, quando não puder comprar um pacote de feijão, quando não puder colocar leite na mesa dos seus filhos, quando não puder pagar suas contas.

Tem um chamado para isso? - Chamado para que o povo se organize, veja o que está acontecendo e lute pelos seus direitos. Ninguém pode nos acusar de estar sendo incendiários porque esse é o chamado que o PT fez durante seus 40 anos de existência. 

Há muitas críticas de que a bandeira "Lula Livre" impediu a oposição de fazer oposição de verdade. Foi a única bandeira do PT durante o período em que o ex-presidente ficou preso. - A bandeira Lula Livre nunca nos impediu de fazer oposição. Nós lutamos contra a [reforma da] Previdência, contra os cortes na educação, lançamos a frente da soberania nacional, fizemos o fórum dos partidos de oposição.

Agora, a oposição precisa de uma voz forte, de uma voz firme. Lula é a única pessoa nesse país, pela liderança que tem, com capacidade de ter essa voz firme e forte que reverbere os interesses do povo. Lula fala com a população.
  
Em um discurso em Salvador, o ex-presidente Lula afirmou que o PT não deve abrir mão de seu protagonismo e que deve lançar candidatos em todas as cidades possíveis na eleição municipal de 2020 para defender o seu legado. O partido está disposto a fazer alianças e abrir mão de cabeças de chapa para fazer frente à direita? - O presidente Lula fez um chamado ao partido. Pelo tamanho do PT, pela importância que tem no cenário, ele não pode desaparecer do processo eleitoral. Tem que lançar candidatos no maior número de municípios possível. Aliás, essa é a estratégia de todos os partidos —do PSOL, do PC do B, do PDT, do PSB —, principalmente em municípios onde tem o segundo turno.

A fala do presidente Lula foi no sentido de exortar o partido. Nós temos um legado para defender, é uma grande oportunidade de nós falarmos com a população, mas em nenhum momento ele disse que era contrário a alianças. É óbvio que em municípios onde tiver uma liderança que esteja mais forte que uma liderança do PT e que a gente possa compor, vamos nos esforçar para isso. Sempre, é claro, conversando sobre o lugar e o papel do PT. 

Parte do PT defende que se abra um diálogo com o centro, outra ala prega um discurso mais à esquerda, a sra. incluída… - Não defendo que fique no discurso mais à esquerda, defendo que fique do lado do povo. Como você vai fazer uma agenda de moderação quando os direitos do povo estão sendo destruídos? Nós podemos conversar com o centro, com qualquer partido, mas tem que ter foco. Hoje o centro está à direita e ajudando a implementar uma agenda de retirada de direitos do povo. 

Há uma avaliação de que, para uma eventual derrota da direita e de Bolsonaro, o PT deveria abrir mão da cabeça de chapa em 2022. O partido estaria disposto? - Nós temos a maior liderança política popular do país, que se chama Luiz Inácio Lula da Silva, que tem apoio popular e condições de enfrentar esse projeto que está aí e, portanto, a eleição em 2022. Essa é a maior colaboração que o PT pode dar a uma frente de partidos contra esse governo Bolsonaro e esse governo de desmonte. 

Se ele tiver os direitos políticos recuperados… - Claro. Se ele não tiver, nós temos outros nomes também, como o do Fernando Haddad, que cumpriu um papel importante nas eleições e é depositário de 47 milhões de votos. Portanto, é uma referência.

É claro que queremos conversar com todos os partidos, queremos fazer uma frente para enfrentar esse processo e jamais vamos chegar impondo qualquer coisa, mas vamos chegar com aquilo que nós temos de potencialidade para enfrentar no processo eleitoral.

Raio-X

Deputada federal pelo PT-PR, Gleisi Hoffmann nasceu em 6 de setembro de 1965, em Curitiba. É formada em direito pela Faculdade de Direito de Curitiba. Foi secretária estadual em Mato Grosso do Sul. Elegeu-se senadora em 2010 e deputada em 2018. De 2011 a 2014, foi ministra-chefe da Casa Civil (governo Dilma). É presidente nacional do PT.

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