Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'Você não acredita na Justiça?', diz Bolsonaro sobre denúncia contra Glenn

Sem ter sido investigado, jornalista foi denunciado sob acusação de hackear a Lava Jato

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro questionou nesta terça-feira (21) se os veículos de imprensa não acreditam na credibilidade do Ministério Público Federal após o jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil, ter sido denunciado.

Sob a acusação de envolvimento no hackeamento de contas de Telegram de autoridades como o ministro da Justiça, Sergio Moro, sete pessoas foram denunciadas, incluindo o jornalista, que não havia sido nem investigado.

Na entrada do Palácio da Alvorada, o presidente questionou inicialmente se Glenn ainda mora no Brasil. "Não devia nem estar. Onde está esse cara? Ele está no Brasil?", perguntou.

Na sequência, o presidente foi indagado se a denúncia contra o jornalista poderia ser interpretada como uma perseguição à atividade da imprensa. Inicialmente, ele não quis responder. Diante da insistência, fez uma ironia.

"Quem denunciou foi a Justiça. Você não acredita na Justiça?", disse Bolsonaro, corrigindo-se após ser informado que cabe ao Ministério Público fazer a denúncia. "É MP, MP", afirmou.

O presidente Bolsonaro fala a jornalistas e apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília, nesta terça (21)
O presidente Bolsonaro fala a jornalistas e apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília, nesta terça (21) - André Coelho/Folhapress

Em nota enviada à coluna Mônica Bergamo, Glenn afirmou que a denúncia "é uma tentativa óbvia de atacar a imprensa livre em retaliação pelas revelações que relatamos sobre o ministro Moro e o governo Bolsonaro". ​

Em julho, pouco mais de um mês após a publicação da primeira reportagem com base nas mensagens com os diálogos da força-tarefa da Lava Jato, Bolsonaro chamou Glenn de "malandro". "Talvez pegue uma cana aqui no Brasil, não vai pegar lá fora não”, afirmou à época.

Glenn não foi investigado nem indiciado pela Polícia Federal, mas o procurador Wellington Oliveira, do Ministério Público Federal em Brasília, entendeu que ficou demonstrado, em um áudio encontrado em um computador apreendido, que o jornalista orientou o grupo de hackers a apagar mensagens.

Isso, segundo Oliveira, caracterizou "clara conduta de participação auxiliar no delito, buscando subverter a ideia de proteção a fonte jornalística em uma imunidade para orientação de criminosos”.

De acordo com o Ministério Público, Glenn não foi investigado pela Polícia Federal em respeito a uma decisão cautelar do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

O Ministério Público informou que vai enviar cópia da denúncia à PGR (Procuradoria-Geral da República) para subsidiar eventual pedido de revogação da decisão que impede a realização de investigações sobre a atuação de Glenn no caso.

O procurador Wellington Oliveira é o mesmo que denunciou o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, sob acusação de calúnia contra Moro. 

Santa Cruz disse que o ministro bancou o "chefe da quadrilha" ao avisar autoridades que teriam sido alvo de hackers. A Justiça rejeitou a denúncia na semana passada.

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