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Coronavírus

Ministro da Saúde alivia, mas não anula desgaste de Bolsonaro na crise, mostra Datafolha

Comunicação dirigida a segmentos sociais é urgente para o presidente diante da pandemia do coronavírus

Uma leitura superficial da pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda (23) pode sugerir poucos reflexos políticos da epidemia do novo coronavírus sobre a imagem de Jair Bolsonaro (sem partido).

A opinião pública está dividida em três blocos na avaliação que faz do presidente no combate à crise, o que remete aos patamares de popularidade do governo verificados pelo instituto ao longo do ano passado e pode camuflar pontos importantes revelados agora.

Em primeiro lugar, as metodologias dos levantamentos são diferentes, tanto em relação ao universo estudado quanto à abordagem dos entrevistados, o que impossibilita comparações.

Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participam de videoconferência com prefeitos neste domingo (22) em Brasília
Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participam de videoconferência com prefeitos neste domingo (22) em Brasília - Isac Nóbrega/PR

Na pesquisa divulgada nesta segunda, por exemplo, para evitar o contato social entre pesquisadores e respondentes, o Datafolha ouviu por telefone uma amostra representativa de possuidores de aparelhos de celular. Maiores informações sobre a metodologia e seus limites estão no texto ao lado.

No entanto, análise dos cruzamentos dos resultados com as variáveis socioeconômicas traz tendências, que se confirmadas em tomadas futuras, podem indicar mudanças no perfil dos segmentos tradicionais de apoio ao presidente da República.

Os mais ricos e escolarizados —estratos que majoritariamente elegeram Bolsonaro e que foram os primeiros atingidos pela atual pandemia— são os mais críticos ao seu desempenho no enfrentamento do problema.

Entre os que têm nível superior, a reprovação é maior em 19 pontos percentuais se confrontada com a dos que estudaram até o fundamental. Entre os de maior renda, ela é superior em 18 pontos à verificada entre os mais pobres, alcançando 51% do estrato.

Esses subconjuntos são os que mais percebem inadequação do presidente no tratamento da questão e são de longe os que mais condenam suas atitudes, como a de cumprimentar com as mãos manifestantes que estavam na frente do Palácio do Planalto no último dia 15 e a de classificar a repercussão da epidemia como histeria.

Um estremecimento entre Bolsonaro e a elite socioeconômica do país já havia sido identificado logo após o episódio em que os presidentes brasileiro e o francês, Emmanuel Macron, se desentenderam publicamente por conta de incêndios na Amazônia. Depois, com a aprovação da reforma da Previdência, Bolsonaro conseguiu reaver boa parte desse apoio.

Isso pode acontecer novamente —segundo os resultados, a grande maioria desses estratos não verbaliza arrependimento pela escolha da última eleição. Parte da tendência poderia ser anulada, dependendo dos rumos da epidemia no Brasil.

Pelos dados do Datafolha, Bolsonaro tem, pelo menos por enquanto, exemplos a seguir. A maioria da população aprova o desempenho dos governadores de seus respectivos estados e principalmente do Ministério da Saúde no andamento da crise. Os índices de avaliação positiva nesses casos, superam a do presidente em até 20 pontos percentuais no total da amostra.

A popularidade dos governadores e a do Ministério da Saúde entre os mais escolarizados, por exemplo, é maior do que a de Bolsonaro em 27 pontos percentuais, diferença superior em até 17 pontos à verificada entre os menos escolarizados.

Fica fácil entender a entrevista coletiva em que o presidente, usando máscara, procurou, ao lado de seus ministros, especialmente o da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, capitalizar efeitos políticos sobre a atuação de seu ministério —a correlação entre as avaliações do desempenho da pasta da Saúde com a do presidente é alta.

Sobre a, até aqui, resiliência de Bolsonaro nos estratos mais carentes, a pesquisa dá algumas pistas.

São os segmentos com maior dificuldade de acesso à informação —o índice dos que se julgam bem informados sobre a epidemia entre os menos escolarizados é inferior em 17 pontos percentuais ao que se verifica entre os de nível superior. Quando se focaliza a renda, a vantagem no grau de informação é de 16 pontos percentuais em prol dos mais ricos.

Além disso, possíveis ruídos na comunicação com esses conjuntos parecem passar a mensagem de que há excesso de preocupação dos brasileiros com a questão, o que acaba por fazer que esses estratos subestimem efeitos da epidemia.

A taxa dos que acham que haverá muitas mortes por conta do coronavírus entre os que têm nível fundamental de escolaridade é inferior em 17 pontos percentuais às verificadas entre os mais escolarizados. O pessimismo entre os mais ricos é 15 pontos maior do que entre os mais pobres.

Comportamento semelhante é observado entre os jovens. Na faixa etária de 16 a 24 anos, a internet e as redes sociais ficam muito acima da média como fonte de informação, e o estrato é o que menos se considera bem informado sobre o tema, assim como é o que menos demonstra medo da doença.

A constatação de que os mais velhos compõem o grupo mais vulnerável para as formas graves da infecção vem transmitindo talvez a ideia de maior imunidade ao segmento que mais se expõe socialmente.

A eficácia das ações contra a pandemia no Brasil e de seus reflexos sobre a economia e a política exige plano de comunicação dirigida a segmentos estratégicos da população.

A maior parte dos brasileiros tem renda familiar mensal de até dois salários mínimos e precisa de recursos e informação adequada para se proteger. E os 19% mais jovens devem ser devidamente comunicados sobre o risco que a exposição do estrato, como vetor, gera para os 21% mais velhos.

Mauro Paulino e Alessandro Janoni

Diretor-geral do Datafolha e Diretor de Pesquisas do Datafolha

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