Aos 90, Sarney descarta risco para democracia, mas vê Brasil em labirinto político

Ex-presidente diz que pedidos por AI-5 são saudosismo e critica disputa entre Poderes

São Paulo

“Assistente, testemunha e protagonista da história do Brasil”, como se autodefine, o ex-presidente José Sarney completa 90 anos nesta sexta-feira (24).

“Estou cumprindo rigorosamente as leis do isolamento” é seu primeiro recado ao iniciar a entrevista à Folha, por telefone, de Brasília, onde se refugiou durante a crise do coronavírus.

O ex-presidente José Sarney, que completa 90 anos de idade nesta sexta-feira (24) - Jane de Araújo - 12.mar.2020/Agência Senado

Recolhido do debate público, mas ainda atuante nos bastidores, Sarney não vê risco para o que considera a grande obra de sua vida política, a redemocratização.

Ele chama os pedidos por um novo AI-5 de “saudosismo inalcançável”. “O Brasil hoje tem uma democracia consolidada”, afirma.

Sobre os reiterados flertes do presidente Jair Bolsonaro com grupos que defendem intervenção militar, diz serem episódios sem maior importância. “São condutas políticas eventuais."

Com relação ao outro grande legado de seu mandato (1985-1990), a Constituição, Sarney tem uma avaliação mais nuançada. Diz que a Carta foi um marco na garantia de direitos sociais, mas tornou o país ingovernável, por misturar as atribuições do Executivo e do Legislativo.

Parlamentarista, o ex-presidente, que também chefiou o Congresso Nacional, lamenta as rusgas entre Bolsonaro e líderes do Legislativo. Para ele, são prova de subdesenvolvimento político.

Escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-presidente diz que trabalha num livro de análise política com o título de “O Brasil no seu Labirinto”. “Nós estamos num labirinto sem saber que saída vamos encontrar”, afirma.

O sr. imaginaria chegar aos 90 anos no meio da situação que estamos vivendo? Eu nunca pensei em viver tanto. Quando eu nasci, em 1930, no interior do Maranhão, não se fazia ainda o cálculo da perspectiva de vida. Mas em 1965, a perspectiva de vida no Maranhão era 29 anos. Em 1930, devia ser no máximo uns 20 anos. Eu atravessei todas as doenças da infância. Vivi numa casa de 50 metros quadrados de chão batido. Só malárias tive três, e todas as doenças que naquele tempo as crianças tinham e as levavam para o céu.

Nesses 90 anos o sr. se lembra de alguma crise tão grave como a atual? Assisti a todas as crises do Brasil e às do mundo. Mas eu realmente nunca assisti a um momento de tanta superposição de crises. Acredito que essa vai mudar um pouco o mundo, porque vai ter que transformar o pensamento do homem. Até agora o homem pensou individualmente em resolver os problemas pessoais, da natureza, dos Estados. Mas essa crise nos mostra que temos de pensar coletivamente. Porque o que está ameaçado é a vida humana

A sua grande obra na política foi a redemocratização? Acho que sim. Deus me deu esse encargo de ser presidente na redemocratização. Coube ao meu tempo de governo um momento em que a história se contorcia. Passávamos do regime autoritário para o regime democrático. Isso necessitou uma engenharia política de grande envergadura. Acredito que dei minha contribuição com meu temperamento de paciência, tolerância, diálogo. Só eu sei as dificuldades que tivemos que atravessar.

O crescimento da renda per capita até hoje não foi repetido. E entregamos o país redemocratizado. Nós tivemos três etapas na história brasileira. A Constituição de 1824 procurava defender a propriedade. A republicana [de 1891], os direitos individuais. E nós conseguimos fazer essa Constituição [de 1988] dos direitos sociais. Terminamos um século de República tendo um operário candidato a presidente.

Como o sr. vê os pedidos de intervenção militar e um novo AI-5? Isso é um saudosismo inalcançável. O Brasil hoje tem uma democracia consolidada. Esse pensamento é uma coisa que nós não podemos mais mudar, a democracia e uma economia também liberal.

Não há risco de retrocesso democrático então? Não vejo risco nenhum, porque a mentalidade militar hoje no Brasil é inteiramente favorável à Constituição e à sua submissão ao poder civil, que é a síntese de todos os Poderes. A própria Escola Superior de Guerra tem uma expressão que diz isso no seu manual de estudos.

Como o sr. viu a participação do presidente Bolsonaro num ato em que havia faixas pedindo o AI-5? São episódios que eu não dou maior importância. São condutas políticas eventuais.

O sr. não tem dúvida sobre o comprometimento do presidente com a democracia? Eu não tenho dúvida é que o país jamais aceitará ou que as Forças Armadas participarão de qualquer aventura que não seja baseada na Constituição, embora a Constituição de 1988 tenha muitos defeitos. Eu mesmo denunciei que ela ia tornar o país ingovernável. Basta ver que tivemos 105 emendas e ainda temos uma cem para fazer.

Eu sou parlamentarista. O parlamentarismo é o regime que realmente acaba com esses abalos que nós vivemos nesse presidencialismo que não se sabe de que tipo é. O Congresso é o coração da democracia. Só não implantamos o parlamentarismo quando eu era presidente porque o Mário Covas [ex-governador de São Paulo] vetou o acordo que estávamos fazendo.

O sr., que presidiu o país e o Congresso, como vê a artilharia verbal entre Bolsonaro, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre? Vejo como uma prova de subdesenvolvimento político.

Deveria haver uma relação mais harmoniosa entre os presidentes de Poderes? Isso vai ter que existir. O próprio amadurecimento do sistema democrático vai nos levar a isso.

O que o sr. acha do discurso de que é necessária uma nova política, usado inclusive pelo presidente Bolsonaro? Isso são táticas circunstanciais. Não tem nenhuma profundidade. No Brasil, nós nunca tivemos partidos políticos com essa divisão de velha política ou nova política. A política é uma só.

O sr. também tem uma longa carreira literária. Tem algum novo livro em preparação? Escrevi 121 livros, com 168 edições, traduzidos em 12 línguas. Me sinto muito realizado nas duas vertentes que a vida me deu: a da literatura e a da política. Estou na Academia Brasileira de Letras como decano, completo 40 anos no dia 17 de julho. Estou escrevendo um livro que é “O Brasil no seu Labirinto”, examinando momentos que estamos vivendo no país e de certo modo sugerindo algumas soluções. É um livro de análise política.

Por que esse nome? Nós estamos num labirinto sem saber que saída vamos encontrar. Eu debito muito das crises atuais aos erros da Constituição de 1988. Foi uma Constituição feita com os olhos no retrovisor. Mas ao mesmo tempo fizemos dois capítulos que asseguram a estabilidade do país, o dos direitos individuais e o dos direitos sociais.

Por que o sr. diz que a Constituição foi feita com o olho no retrovisor? Ela é híbrida, é parlamentarista e presidencialista. Deu funções legislativas ao Executivo e funções executivas ao Legislativo. Isso cria a base dessa atual briga entre o Congresso e o Poder Executivo.

Na sua longa carreira política, quais foram as figuras que mais lhe serviram de referência? Na história do Brasil, a maior foi o José Bonifácio. Foi quem formulou o país, que surgiu em um ambiente civil, ao contrário da América espanhola, construída em batalhas. Depois, vejo a figura do Rio Branco, que deu a visão de país. Daqueles com quem convivi, destacaria Afonso Arinos, Carlos Lacerda, Juscelino [Kubitschek] e Jânio [Quadros], que, com todos os defeitos, tinha um grande espírito público.

Algum arrependimento? Eu não posso ter nenhum ressentimento. Isso só faz mal à pessoa de bem. Sou um homem de fé, religioso, de maneira que chego aos 90 anos com o sentimento de grande gratidão a Deus pela graça da vida.

O sr. está otimista com o futuro? O Brasil é e será um grande país. Sobretudo, temos um grande povo. Nós damos o exemplo da miscigenação. Construímos um povo que não tem problema de raça, nem de religião, nem de fronteira. E temos um país que tem a cultura da paz e da convivência.

Essa polarização na sociedade que temos visto o preocupa? Não é o temperamento do brasileiro.

Como o sr. vê o cenário eleitoral para 2022? Eu já não estou no tempo de fazer profecias, nem de usar bola de cristal.


Vida e trajetória política

Nascimento
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasce em 24.abr.1930, em Pinheiro (MA)

Formação
Conclui em 1953 o bacharelado na Faculdade de Direito do Maranhão

Primeiro cargo eleito
Em out.1954 elege-se quarto suplente de deputado federal pelo Maranhão, então no PSD (Partido Social Democrático). Em 1956 e 1957, chega a ocupar uma cadeira na Câmara por curtos períodos de tempo

Professor
Em 1957 começa a dar aulas na Faculdade de Serviço Social da Universidade Católica do Maranhão

Deputado
Elege-se deputado federal em out.1958, já na UDN (União Democrática Nacional), partido conservador do qual seria um dos principais líderes

Governador
Em out.1965, com o apoio do marechal Castello Branco, primeiro presidente da ditadura militar, elege-se governador do Maranhão. No mesmo ano, adota legalmente o nome José Sarney, referência ao pai, Sarney de Araújo Costa

Partido governista
Pouco após a eleição para o governo maranhense, é instituído o bipartidarismo no Brasil. Sarney ingressa na sigla que dá sustentação ao regime militar, a Arena (Aliança Renovadora Nacional)

Senado
Em 1970, é eleito para o primeiro mandato de senador, cargo que manteria até 1985

Imortal
Autor de mais de uma dezena de livros, entre romances, contos, poesia e ensaios, é eleito em 1980 para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras

Vice de Tancredo
Uma complexa articulação coloca Sarney como vice-presidente na chapa de Tancredo Neves, do PMDB, opositor da ditadura, na votação indireta realizada pelo Colégio Eleitoral em 15.jan.1985

Presidente
A internação de Tancredo para uma cirurgia na véspera da posse, em 15.mar.1985, faz com que Sarney assuma interinamente a Presidência. Com a morte de Tancredo, em 21.abr, Sarney assume em definitivo. Seu governo é marcado, no campo interno, pela hiperinflação e sucessivos planos econômicos fracassados, e no campo externo, pelo estreitamento de relações com a Argentina que cimentaria as bases para o Mercosul

Volta ao Senado
Sarney deixa a Presidência em 1990. Após falhar em articular sua candidatura a senador pelo Maranhão, consegue se eleger pelo Amapá, ex-território alçado à condição de estado naquele ano. Permanece no Senado até 1º.fev.2015, um ano após anunciar que não tentaria a reeleição. Foi presidente da Casa em três ocasiões: 1995-1997, 2003-2005 e 2009-2013

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