Desgastado, Moro dá sinais de cansaço no cargo e de contrariedade a Bolsonaro na pandemia

Ministro endossou Mandetta em meio ao coronavírus e também enfrentou cobrança de Eduardo, deputado filho do presidente

O ministro da Justiça, Sergio Moro, em seu gabinete no Ministério da Justiça

O ministro da Justiça, Sergio Moro, em seu gabinete no Ministério da Justiça Pedro Ladeira/Folhapress

Brasília

Desgastado por Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro Sergio Moro (Justiça) dá sinais de cansaço e tem se negado a fazer uma defesa enfática do presidente durante a crise do novo coronavírus.

Durante a pandemia, Moro se mostrou por mais de uma vez irritado por ser pressionado por interlocutores do Planalto e pelo próprio presidente em reunião no Palácio da Alvorada a defender o fim do isolamento social.

O ministro chegou a afirmar que se manteria em silêncio caso questionado, mas que não iria contrariar suas convicções e defender algo que não acreditava.​

Conforme a Folha revelou nesta quinta (23), o ministrou pediu demissão a Bolsonaro após ser informado de que o presidente trocaria o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Moro avisou Bolsonaro que, se Valeixo sair, ele deixará o governo.

Aliados de Moro avaliam que ele foi um dos alvos da recente declaração de Bolsonaro de que usaria a caneta contra "estrelas" do governo.

"[De] algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, tem provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona", afirmou Bolsonaro, no início do mês, a um grupo de religiosos que se aglomerou diante do Palácio da Alvorada.

Assessores próximos avaliaram que o desgaste entre eles acabou aumentando após Moro defender indiretamente as medidas sanitárias recomendadas pelo Ministério da Saúde.

O ministro da Justiça apoiava medidas de isolamento social defendidas pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que acabou demitido por Bolsonaro na semana passada, em meio às divergências sobre ações de combate à pandemia.

No último dia 2 de abril, Rosangela Moro, mulher de Sergio Moro, chegou a postar no Instagram uma foto e uma mensagem de apoio a Mandetta.

“Entre ciência e achismos eu fico com a ciência. Se você chega doente em um médico, se tem uma doença rara você não quer ouvir um técnico?”, escreveu, dizendo na sequência que Mandetta “tem sido o médico de todos nós”. “In Mandetta I trust”, completou. O post ficou poucos minutos no ar e acabou sendo apagado em seguida.

Na última segunda-feira (20), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez um live com a colega de Câmara Carolina de Toni (PSL-SC) e cobrou uma atitude de Moro e do ministro da Economia, Paulo Guedes.

“Eu gostaria de pedir é que dentro do governo mais pessoas publicamente, explicitamente, falassem a favor do presidente”, disse.

O filho de Bolsonaro afirmou que "verdadeiros guerreiros" não falam só na vitória, mas também quando "a gente está sob fogo”.

"Imaginem vocês, Jair Bolsonaro saindo do poder. Como será a vida de ministros como Sergio Moro e Paulo Guedes? Vocês acham que eles teriam a vida tranquila? Eu acho que dificilmente", afirmou Eduardo, completando: "Essa galera toda já recebeu um 'X' nas costas e vão ser odiados durante muito tempo (sic)".

Desde setembro do ano passado, o ministro e Bolsonaro divergem sobre a condução do ministério. O presidente da República tentou por três vezes nos últimos sete meses trocar o comando da PF, que, hoje, está nas mãos de Valeixo, homem de confiança de Moro.

A última, nesta quinta (23), quando Bolsonaro comunicou ao ministro a decisão de trocar a diretoria-geral da instituição e Moro reagiu afirmando que deixaria o cargo se isso ocorresse.

A tensão ronda o Ministério da Justiça desde o final de semana quando o Planalto tentou convencer Moro a reabrir as fronteiras do Uruguai sem o aval técnico da equipe da Saúde. O ministro não cedeu.

O presidente tentou ainda que o ministro defendesse seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), no caso da "rachadinha" envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz. O ministro também se negou.

Nas últimas semanas, o ministro tem dado sinais claros a equipe que o seu tempo no governo poderia estar próximo do fim. Moro passou o último final de semana em Curitiba com a família isolado e só atendeu a poucos telefonemas.

No domingo, pessoas próximas perguntaram ao ministro o que ele tinha achado da ida do presidente à manifestação e Moro não quis comentar.

Ao chegar a Brasília, o ministro se mostrou mais quieto do que o de costume. Dois assessores próximos entenderam os sinais como um momento de "reflexão". Moro chegou a dizer a aliado próximo que estava avaliando a hora de "cruzar a linha". A fala foi interpretada como o momento de sair do Executivo.

O ministro tem sido alvo constante de críticas da ala ideológica do governo que não vê nele o engajamento necessário para defender Bolsonaro.

Pessoas próximas chegaram a identificar uma onda de ataques virtuais que teve como origem o chamado “gabinete do ódio”, controlado pelo filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

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