Bolsonaro, agora adepto ao tomá lá dá cá, já foi um feroz crítico da 'velha política'; relembre

Presidente tem feito nomeações de indicados de partidos em troca de apoio no Congresso

São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi eleito com a promessa de acabar com o que chama de “velha política”, moldada no chamado toma lá dá cá. Ou seja, a entrega de cargos aos partidos em troca de apoio em votações no Congresso.

Antes mesmo da campanha eleitoral, o então deputado federal chegou a afirmar que não existe outra maneira de se governar, a não ser a que seja sem acordos. "Se é só essa [a maneira], eu tô fora!”, afirmou há três anos, em entrevista à Band.

Em seu plano de governo, ele defendeu a liberdade pelo bem do cidadão e, mais tarde, em entrevista, afirmou que o centrão deveria lutar para se livrar do rótulo de negociador. "A melhor maneira de demonstrar que eles não têm nada a ver com esse dito centrão, que foi satanizado esse nome, é ajudar a votar aquilo que interessa para o Brasil."

O presidente, no entanto, iniciou nas últimas semanas negociações com o novo centrão. O “toma lá” são os vários cargos de segundo e terceiro escalão da máquina federal, postos cobiçados por caciques partidários para manter seu grau de influência em Brasília e nos estados.

O “dá cá” é uma base de apoio mínima no Congresso para, mais do que aprovar projetos de seu interesse, evitar a abertura de um possível processo de impeachment.

Para se ver fora da cadeira presidencial em um eventual processo de impeachment, Bolsonaro precisa ter ao menos 342 dos 513 deputados contra ele e um clima propício à destituição —economia em frangalhos, tensão nas ruas, por exemplo.

Relembre, a seguir, declarações de Bolsonaro contra o que chama de "velha política".

O presidente Jair Bolsonaro durante entrevista na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília (DF)
O presidente Jair Bolsonaro durante entrevista na entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília (DF) - Andre Coelho/Folhapress

​Tolerância zero

“Eu duvido que, eu sentado na cadeira presidencial, vai aparecer o ‘Seu’ Renan Calheiros e vai falar: ‘Eu quero o Banco do Nordeste pra mim.’ Eu duvido que isso venha a acontecer: a forma de fazer política como foi feita até o momento. E toda a imprensa pergunta pra mim: 'Como você vai governar sem o ‘toma lá, dá cá’?' Eu devolveria a pergunta a vocês: existe outra forma de governar, ou é só essa? Se é só essa, eu tô fora!”

"Se é para aceitar indicações políticas, a raiz da ineficiência do Estado e da corrupção, aí fica difícil você apresentar uma proposta que possa realmente proporcionar dias melhores para a nossa população (...) Geralmente os grupos políticos loteiam esses cargos para se beneficiar."

29 de novembro de 2017, durante entrevista ao Canal Livre, na Band


Livre do Parlamento

“A mensagem que quero dar para todos no Brasil, inclusive no Parlamento, é a seguinte: se o Brasil estiver bem, nós estaremos bem, e não o contrário. Não o meu grupo político estando bem, o Brasil vai estar bem. Nós estamos partindo para o caos. Não dá para continuar administrando o Brasil dessa forma: o Parlamento indicando, impondo os seus nomes!”

29 de novembro de 2017, durante entrevista ao Canal Livre, na Band


Partidos não têm valor

"Queremos conversar com os parlamentares de forma individual, tirar a negociação do jugo do líder partidário [...] Grande parte dos partidos não vale nada"

22 de maio de 2018, durante sabatina promovida pela rádio Jovem Pan


Tudo pela liberdade

“Um governo sem toma lá dá cá, sem acordos espúrios. Um governo formado por pessoas que tenham compromisso com o Brasil e com os brasileiros. Que atenda aos anseios dos cidadãos e trabalhe pelo que realmente faz a diferença na vida de todos. Um governo que defenda e resgate o bem mais precioso de qualquer cidadão: a liberdade. Um governo que devolva o país aos seus verdadeiros donos: os brasileiros."

14 de agosto de 2018, em texto no qual divulgava o seu plano de governo


Sem acordos políticos

"A Justiça nasceu para todos e cada um responda pelos seus atos. O que levou a essa situação, pelo que parece, são os acordos políticos dizendo-se em nome da governabilidade. A governabilidade você não faz com esse tipo de acordo, no meu entender. Você faz indicando pessoas sérias e competentes para integrar o seu governo, é assim que eu fiz no meu governo, sem o acordo político, respeitando a Câmara e o Senado brasileiro."

21 de março de 2019, ao atender jornalistas no retorno de uma viagem ao Chile


Partidos satanizados

"Acho que centrão virou um palavrão. Acaba a eleição, acaba o centrão. Acho que os líderes têm que trabalhar para desvincular-se disso daí. Agora, a melhor maneira de demonstrar que eles não têm nada a ver com esse dito centrão, que foi satanizado esse nome, é ajudar a votar aquilo que interessa para o Brasil."

"Eles falaram: 'Olha, esse rótulo não está pegando bem para nós'. E assim é a grande parte desse parlamentares. Uma parte considerável dos parlamentares não quer ser rotulado como centrão, grupo clientelista, ou aquele grupo que quer negociar alguma coisa para votar. Então o que falta é se libertar. É procurar o líder, discutir a pauta e tocar o barco".

27 de maio de 2019, em entrevista à TV Record


Sem patifaria

"Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás, nós temos um novo Brasil pela frente."

"Temos um novo Brasil pela frente. Patriotas têm que acreditar e fazer sua parte para colocar o Brasil no destaque que ele merece. E acabar com essa patifaria. É o povo no poder. Para garantir a nossa democracia e aquilo que há de mais sagrado em nós, que é a nossa liberdade. Esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro."

19 de abril de 2020, durante discurso a apoiadores em frente ao Planalto que pediam intervenção militar e o fim da quarentena

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