Descrição de chapéu Conversa com eleitores

Bolsonaro é perseguido injustamente, dizem eleitores fiéis ao presidente

Defensores dizem não se importar em serem chamados de gado e fazem eco a posições do ídolo

São Paulo

Apoiador fiel de Jair Bolsonaro, o engenheiro civil Giovani Falcone, 40, afirma que não se ofende quando é chamado de gado por opositores do presidente. “Gado remete a força, é igual a boi, touro. Já a esquerda há 20 anos segue o jumento de nove dedos [Lula]”, diz.

Assim como ele, outras pessoas com quem a Folha conversou na semana passada se mantêm assumidamente fiéis ao presidente, apesar das turbulências de seu governo e da crise do coronavírus.

Seis participaram de uma videoconferência na quarta-feira (13) e uma foi contatada por celular posteriormente. O objetivo era colher suas opiniões sobre o papel do presidente nas múltiplas crises que o país vive hoje: de saúde, política e econômica.

Os participantes fazem coro com Bolsonaro. Relativizam a Covid-19, defendem manifestações, criticam governadores, chamam Sergio Moro de traidor e acham que Congresso, Supremo e mídia perseguem o governo.

Alguns fizeram da bandeira do Brasil cenário da conversa e não dispensaram o gesto de arminha com as mãos. Todos prometem votar Bolsonaro em 2022.

Giovani diz que apoia o presidente desde quando era deputado. “Não vejo nenhuma pessoa com o caráter que ele tem.” A veterinária Mirian Lee, 37, concorda: “É uma pessoa honrada e disciplinada, por vir da área militar. Coloco a mão no fogo por ele”.

Para o estudante de direito Matheus Galdino, 18, esse é o “primeiro governo de direita e conservador desde Dutra [1946-51]”. Só que não deixam o homem trabalhar, argumenta o professor Aelison Alcântara, 55. “Deixa ele fazer para depois criticar. Estão criticando antes. Mas ele sai mais forte dos ataques.”

Já o servidor público Silvio Pontes, 49, afirma que, embora não confie cegamente no presidente, votaria de novo. A falha de Bolsonaro, diz, é que ele “não lida bem com as palavras. Poderia pensar duas ou três vezes antes de falar, porque isso acaba tumultuando o governo”.

Um exemplo foi o presidente ter minimizado a pandemia do novo coronavírus, chamando a doença, que já deixou 14 mil mortos no país, de “gripezinha”.

Todos concordam que a Covid-19 não é tão grave, mas acham que o uso da expressão foi inadequado. A frase poderia ter sido evitada, segundo o estudante de sociologia Jonas Buccini, 21. “Mas eu prefiro a sinceridade do cão pastor à falsa compaixão dos lobos.”

Ele já conta com a reeleição do presidente. "Não cedi um milímetro no apoio a ele e vou continuar assim até 2026".

Para a advogada Eliane Maffei, 53, as palavras de Bolsonaro foram infelizes, mas “a intenção não é menosprezar o que estamos passando. Não é o sentimento dele”.

Ela diz ter sentido sintomas da Covid-19, como tosse e perda de olfato. “Parece que seus ossos estão sendo moídos. Mas o presidente está pedindo para tomar a cloroquina”, diz ela, que, apesar disso, não tomou o remédio.

A maioria dos estudos médicos não apontou eficácia do remédio no combate à Covid-19 e indicou risco de efeitos colaterais perigosos.

Para Matheus, a atuação de Bolsonaro contra o coronavírus é excelente. "Lógico que dizer gripezinha não foi oportuno, mas ele falou de uma situação dele. Não que seria para o povo."

Já Giovani diz que a imprensa está distorcendo a realidade. “A pandemia existe, mas não é como a mídia mostra. Se você não está usando a focinheira, aquela máscara na rua, as pessoas acham você de outro mundo", afirma.

Mirian pondera que “o vírus passa mesmo, não é fácil de se lidar”, mas logo critica a paralisação da economia. “As pessoas não podem parar de trabalhar. Senão, elas vão ficar sem comida em casa. É preciso equilibrar a saúde juntamente com o trabalho.”

As conversas da Folha com os eleitores ocorreram antes da saída do ministro Nelson Teich (Saúde), na sexta-feira (15).

O ex-super-Moro

Ao contrário da condução da crise da Covid-19, a saída de Moro deixou alguns ressabiados.

“Eu balancei um pouco por conta da credibilidade do Moro”, diz Silvio, que acabou preferindo acreditar no presidente. “Vejo como um casamento que não deu certo, mas não porque um ou o outro é desonesto. O momento que ele escolheu para sair não foi oportuno. Ele agiu contra o Brasil.”

Outros falam em traição. "Todos nós estamos magoados. O Moro perdeu a credibilidade assim, ó [estala os dedos]. Rapidamente", afirma Aelison.

Eliane diz que chorou. “Até o último minuto eu achava que ele não ia sair. Não achava que o Moro ia abandonar o povo que acreditou nele. Quantas vezes coloquei máscara dele na avenida Paulista?”, diz.

Para Matheus, não houve tentativa de interferir na Polícia Federal. “As próprias associações de delegados dizem ser impossível a PF sofrer ingerência política. Ele pode trocar [o diretor] porque está na lei e não precisa falar o motivo. Ingerência seria tentar mexer nas investigações.”

A maioria acredita que o ex-superministro sairá candidato à Presidência em 2022, mas ninguém votaria nele —a não ser num segundo turno entre Moro e alguma legenda canhota.

“Se for um candidato do PT, PSOL, PDT, eu voto até no 'inimigo do Senhor', porque não dá para voltar a esquerda no Brasil”, diz Silvio.

Manifestações

Giovani bate ponto em atos contra o governador João Doria (PSDB) e de apoio a Bolsonaro em São Paulo. Ele não vê problema em haver aglomerações durante a pandemia.

“São pessoas pedindo a volta ao trabalho. Estão impedindo nosso direito de ir e vir. Se tem alguém brigando, agredindo, deve ser punido. Mas, se é pacificamente, por que essa punição, essa censura?”, questiona.

Os que defendem intervenção militar ou a volta do AI-5, diz, “não são bolsonarianos verdadeiros. São radicais”.

Com álcool em gel e máscara, vale se manifestar, defende Eliane. “Pode vir um golpe contrário, de comunismo, para derrubar um governo legitimamente eleito. Tem que ir milhões pras ruas.”

Parte dos eleitores afirma que é a imprensa que tacha os atos de antidemocráticos.

“Os caras abrem uma placa atrás de uma manifestação legítima, aí vem a mídia e fixa a câmera lá e fala que o presidente tava no meio de uma manifestação antidemocrática”, diz Matheus.

Jonas faz coro: “Querem transformar os apoiadores do Bolsonaro em um monte de bolcheviques. Se isso ocorre, é um ato isolado”.

Aelison diz que Bolsonaro conseguiu chegar ao cargo de presidente pela via mais difícil, a do voto. "Eu não acredito numa intervenção militar. Não faz sentido. Quem está praticando o AI-5 são os governadores", afirma.

Centrão

Apesar da negociação de Bolsonaro com partidos do chamado centrão, contrariando promessa de campanha, o grupo refuta as notícias de que tem havido distribuição de cargos.

“Sempre vem um liberal perguntar: ‘Cadê a nova política?’ Se o governo tá fazendo negociações, comprove”, diz Matheus.

A eleição de Bolsonaro foi o fim do toma lá, dá cá, diz Jonas. “Essa questão de cargo faz parte do jogo político no mundo inteiro. O que havia aqui era simplesmente o objetivo de pilhar a nação."

Para Aelison, é "um problema de semântica". "Vamos definir o que é centrão. Fica difícil saber quem apoia o Maia, quem é centrão mesmo. Muitos parlamentares oportunistas vão dizer: 'O Bolsonaro está com força? Vamos apoiar'".

Giovani e Silvio dizem que o presidente está se vendo obrigado a dar espaço para o centrão. “Tem que mudar a metade do Congresso para ele governar, mas ele não tá pagando ninguém”, afirma o engenheiro.

"Essa vida é um jogo de xadrez. Você move uma peça, seu opositor move outra, e você não consegue mais trabalhar. Se ele não negociar, pode sair do governo antes de 2022", diz Silvio.

Gado?

O grupo não se ofende quando chamado pelos rivais políticos de gado do presidente.

"Apelido, se você ligar, pega. Eu sou professor, e, como o meu cabelo começou a ficar branco, os alunos começaram a me chamar de taco de bilhar. Eu ficaria muito chateado se me chamassem de corrupto e canalha", afirma Aelison.

Silvio prefere ser chamado de robô, mas leva tudo na brincadeira. “A gente chama o outro lado de burro. Faz parte do jogo político”, diz.

"Quem é chamado de gado?", pergunta-se Eliane. “São essas pessoas instruídas, que trabalham, geram empregos, renda e carregam o país nas costas? Não me sinto xingada. Nós somos os ativos do país”, diz.

Miriam diz não se sentir ofendida. "Maior ofensa que tem é a inversão de valores que estava acontecendo."

Jonas acha que o nome se aplica melhor ao outro lado da disputa. “Gado fica preso dentro de um pasto, só recebendo a ração. Então quem eu acho que gado é o outro lado, que está recebendo essas direções da OMS, tendo seus direitos civis ultrajados."

Apesar da tensão entre Bolsonaro e a Folha e das críticas à imprensa, a conversa, de cerca de 1h30min de duração, foi amistosa.

"Vocês [jornalistas] são tão gente boa que nem dá vontade de mandar calar a boca”, brincou Silvio, em referência ao fato de o presidente ter usado essa expressão contra jornalistas em frente ao Palácio do Alvorada.

ELEITORES FIÉIS A BOLSONARO

  • Giovani Falcone, 40, engenheiro civil, de São Caetano do Sul (SP)
  • Silvio Pontes, 49, servidor público, do Rio de Janeiro
  • Mirian Lee, 37, veterinária, de São Paulo
  • Matheus Galdino, 18, estudante universitário, de São Paulo
  • Aelison Alcântara de Queiroz, 55, professor de português e alemão, de São Paulo
  • Jonas Buccini, 21, estudante universitário, de São Paulo
  • Eliane Maffei, 53, advogada, de São Paulo

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