Descrição de chapéu Eleições 2020

Apagão em Macapá embaralha corrida eleitoral, e oposição mira irmão de Alcolumbre

Com capital do Amapá em estado de calamidade, sem energia e água, candidatos defendem adiamento da eleição

Salvador

O apagão que atinge há quatro dias Macapá e fez a prefeitura decretar estado de calamidade embaralhou a disputa eleitoral na capital do Amapá e fez com que os candidatos de oposição mirassem a artilharia contra o candidato Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Josiel disputa a Prefeitura de Macapá com uma ampla frente de partidos e tem apoio do governador Waldez Góes (PDT) e do atual prefeito, Clécio Luís (sem partido).

A falta de energia começou na última terça-feira (3), quando um incêndio atingiu uma sub-estação na capital. Desde então, a população tem enfrentado desabastecimento em mercados, filas em postos de combustível e unidades de saúde fechadas. Nas casas, além de não ter energia, também falta água.

Crise de energia no Amapá, apagão em Macapá. protestos no bairro de Santa Rita em 07 de novembro de 2020(Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)
Moradores protestam em Macapá na noite de sábado (7) após o apagão que atingiu o Amapá - Rudja Santos - 7.nov.2020/Amazônia Real

O cenário deu munição aos candidatos oposicionistas, que criticam o governo do estado e a prefeitura por negligência e lentidão nas ações para mitigar os efeitos do apagão. Prefeito e governador, por outro lado, buscam se mostrar diligentes.

A própria realização da eleição no dia 15 de novembro é colocada em xeque. Os três principais candidatos da oposição defenderam publicamente que o pleito seja adiado. A decisão de um possível adiamento, contudo, caberá ao Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

O ex-senador e candidato à prefeito João Capiberibe (PSB) compara a situação de Macapá ao cenário de “Ensaio Sobre a Cegueira”, livro do escritor português José Saramago que retrata uma epidemia de cegueira branca que deixa uma cidade em meio ao caos.

“Governo e prefeitura se movem muito lentamente para acudir a população. A maioria das pessoas está nas portas das casas por causa do calor e não consegue dormir à noite. É uma angústia e um nível de ansiedade muito grande”, afirma Capiberibe.

Ele ainda reclama da ausência de informação das autoridades a respeito das ações para reverter o quadro da falta de energia e das ações de apoio à população: “Eles não agem, não ouvem ninguém e não vêm à público dar satisfação."

Além do apagão, Macapá enfrenta ainda um novo pico de casos de Covid-19. A falta de energia fez com que algumas unidades de saúde fossem fechadas por falta de gerador, o que tem sido alvo de críticas.

A candidata à prefeitura Patrícia Ferraz (Podemos) publicou um vídeo no qual percorre a cidade à noite e mostra unidades de saúde fechadas, incluindo um centro para atendimento de pacientes com coronavírus.

“Nossa cidade está vivendo o caos. [...] Cadê o plano de urgência e emergência para resolver este problema? Isso não pode mais continuar. A gente precisa mudar essa realidade”, diz.

Também candidato a prefeito, o deputado estadual Dr. Furlan (Cidadania) protocolou um pedido de suspensão da cobrança das tarifas de energia no mês de novembro e o solicitou o pagamento de indenizações para as famílias atingidas pelo apagão.

“É muito sofrimento, muita dor para a população. A gente não vê as nossas autoridades tomando as devidas providências, buscando assistência para esse povo que está sofrendo”, afirmou, em um vídeo publicado em redes sociais.

A Folha tentou contato com Josiel Alcolumbre, mas sua assessoria não deu retorno sobre o pedido de entrevista.

Empresário e suplente do irmão no Senado, Josiel entrou na campanha em Macapá com uma forte estrutura e uma aliança que inclui o apoio de governador, prefeito, dois senadores, 7 dos 8 deputados federais, 20 dos 24 deputados estaduais e 19 dos 24 vereadores da capital.

Ao longo da campanha, Josiel assumiu a condição de favorito na disputa. A última pesquisa Ibope, divulgada em 28 de outubro, mostrou o candidato do DEM com 31% das intenções de voto. Capiberibe tinha 15%, Dr. Furlan, 11%, e Patrícia Ferraz, 11%.

Na avaliação dos opositores, o apagão tem potencial para mexer no tabuleiro eleitoral, já que é uma situação que afeta diretamente a grande maioria dos cerca de 500 mil macapaenses.

A falta de energia também deixou a campanha em suspenso. Desde o fim de outubro, a prefeitura já havia proibido a realização de atos nas ruas por causa do avanço da pandemia.

O apagão fez com que as principais campanhas interrompessem a produção dos programas eleitorais de TV e rádio. Isso porque, além das dificuldades de produção das propagandas, a maior parte das rádios e redes de televisão locais está fora do ar.

Capiberibe relata dificuldades até mesmo para manter a campanha nas redes sociais. Ele afirma que apenas em poucos locais da cidade é possível obter conexão para acessar a internet. Na TV, diz ele, a sua campanha vem repetindo os programas já gravados.

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