Descrição de chapéu Eleições 2020

Após desgaste com nomeações, Covas mantém amigos de balada no gabinete

Investigação sobre nepotismo foi arquivada pela Promotoria após mãe de nomeado pedir demissão; gestão defende 'critérios técnicos e legais' de contratações

São Paulo

Candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB) enfrentou desgaste político e investigação do Ministério Público por nomeações de uma parente, de amigos de balada e de faculdade e da mãe do seu secretário-executivo para postos de confiança na administração municipal.

Os casos, revelados em reportagens pela Folha, resultaram no pedido de demissão da mãe de seu braço-direito em 2018, um mês após recomendação da Promotoria do Patrimônio Público, sob pena de responsabilização dos envolvidos em ato de improbidade administrativa —no caso, derivado de nepotismo.

Das outras nomeações que motivaram polêmica na época, ao menos dois nomes permanecem até hoje na gestão, em postos estratégicos de confiança de Covas: Gustavo Garcia Pires, como secretário-executivo, com salário de R$ 19,7 mil, e Alexandre Macaroni Nardy, que atua no gabinete do prefeito, com salário de R$ 7,7 mil.

Braço-direito do prefeito, Gustavo contratou, com anuência de Covas, ao menos cinco amigos de balada (e também de sua turma de faculdade). A mãe dele ganhou uma vaga numa sociedade de economia mista comandada pelo município.

Elisabete Gonçalves Garcia Pires, professora aposentada desde 2012, foi nomeada para a SPTrans, responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo por ônibus. O salário de R$ 10 mil fez dobrar os rendimentos dela, somados à aposentadoria que recebe da rede pública. Na SPTrans, ela era a responsável pela supervisão e treinamento de estagiários que atendem a população.

Bruno Covas e o assessor Gustavo (tatuagem no braço) nos EUA
Bruno Covas e o assessor Gustavo (tatuagem no braço) nos EUA. (Reprodução/Instagram) - Reprodução/Instagram

Bruno Covas resistiu em demitir a mãe do amigo. O caso foi revelado pela Folha em junho de 2018, mas a mãe de Gustavo só pediu demissão em outubro, levando a Promotoria a arquivar a investigação de nepotismo.

Questionada, a gestão do tucano disse lamentar "que a reportagem da Folha persista na reedição de temas já noticiados e anteriormente esclarecidos".

"Reafirmamos que os servidores em questão têm currículo compatível com os cargos para os quais foram designados, histórico profissional, capacidade técnica, foram aprovados pelo Comap (Conselho Municipal de Administração Pública), desempenham as funções para as quais foram designados com empenho e eficiência e contribuíram para que a gestão alcançasse 'a melhor avaliação positiva' de 35%, segundo a mais recente pesquisa Datafolha", diz a nota da Prefeitura de São Paulo.

As contratações polêmicas aconteceram antes mesmo de Covas assumir a titularidade do Executivo, em abril de 2018, quando João Doria se exonerou para disputar o governo paulista.

A admissão de Elisabete Garcia ocorreu em 12 de março, período em que Covas acumulava o posto de vice e a Secretaria da Casa Civil, órgão responsável pela análise das contratações.

Foi também antes de assumir a chefia da prefeitura que Covas deu um emprego na administração para sua tia Renata da Fonseca Pereira Covas.

A advogada foi casada com Mário Covas Neto, ex-vereador da capital paulista que não conseguiu se reeleger. A mãe do prefeito, Renata Covas Lopes, é irmã do ex-vereador, e ambos são filhos do ex-governador Mário Covas, morto em 2001.

Renata e Mário Covas Neto tiveram dois filhos, primos de Bruno Covas. Ela foi nomeada em fevereiro de 2017 para um cargo de confiança na Cohab, estatal responsável pelas políticas públicas de habitação na cidade. Na companhia, ela ocupou a função de assistente no setor jurídico da presidência, com salário de R$ 7,7 mil.

A assessoria de imprensa da prefeitura diz não considerar a tia de Bruno Covas como parente do prefeito e afirma que ela não se enquadra nas restrições de nepotismo na gestão pública.

"Renata da Fonseca Pereira Covas, que é advogada e não é parente do prefeito Bruno Covas, foi casada com Mário Covas Neto há mais de 20 anos. Portanto, não é correto insinuar que haja nepotismo em sua contratação pela Cohab, realizada em 01/02/2017, quando Covas ainda não era prefeito."

Ainda que Renata da Fonseca e Mário Covas Neto não sejam mais casados, a relação familiar permanece, já que eles tiveram dois filhos, Silvia e Mario, primos do prefeito.

Gustavo Garcia Pires também foi nomeado quando o atual prefeito ainda era vice. Na gestão de Covas, porém, foi promovido e nomeado para o cargo de secretário-executivo do gabinete do prefeito, posto que não existia na gestão João Doria.

Até então, Gustavo era responsável pela organização da agenda de compromissos de Covas na vice-prefeitura, sob a função de assessor especial.

Além de auxiliar importante de Covas, Gustavo priva da amizade do tucano. Costumavam sair juntos para festas e baladas. Com um grupo de amigos, chegaram a publicar em redes sociais fotos de um passeio na Croácia.

Gustavo escreveu na legenda que a viagem tinha sido uma “trip (viagem, em inglês) épica”. O atual prefeito respondeu nos comentários. “vlw [valeu] irmão!”

Durante as viagens internacionais de trabalho, aproveitaram o tempo livre para irem juntos a eventos esportivos, vinícolas e shows. Publicaram foto num show do Red Hot Chili Peppers, em Nova York, em setembro de 2017. Gustavo legendou a foto com a palavra “brothers”.

Outros cinco amigos de balada também foram contratados pelo município —dos quais ao menos Alexandre Macaroni Nardy segue até hoje na gestão Covas, no cargo de coordenador do gabinete do prefeito.

Além de defender "os critérios técnicos e legais" das contratações, a administração tucana afirma ser fundamental considerar que os cargos de confiança "'são aqueles vocacionados para serem ocupados em caráter transitório por pessoa de confiança da autoridade competente para preenchê-los, a qual também pode exonerar livremente', conforme definição do jurista Antônio Celso Bandeira de Mello".

"Mesmo sendo legais, a atual gestão reduziu em 30% os cargos em comissão. Somente entre 2017 e 2020 foram extintos 3.309 da administração direta, cumprindo o compromisso assumido de redução das vagas dessa natureza jurídica no município", diz.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.