Crianças cobram mais alimentação, espaços de lazer e igualdade do futuro prefeito de SP

Reportagem ouviu moradores de 8 a 12 anos de várias periferias da capital paulista

São Paulo | Agência Mural

Sarah tem 9 anos e sente que os políticos se preocupam mais com os adultos do que com as crianças. Pedro tem 8 e pensa que, se fosse prefeito, deixaria as ruas mais seguras para outras crianças brincarem.

Eloá, 8, e Débora, 11, dizem que é preciso reformar as quadras e que a prioridade deveria ser garantir comida para todos.

Ao longo das últimas semanas, a Agência Mural conversou com crianças entre 8 e 12 anos de idade nas periferias da capital paulista para entender o que elas esperam do futuro prefeito de São Paulo.

A reportagem também apurou as propostas dos planos de governo dos candidatos focadas nas crianças, sobretudo nas periferias. No dia 29 de novembro, Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) disputam o segundo turno na cidade.

Sem poder de voto, elas falam sobre o que têm sentido durante a campanha eleitoral e o que deveria ser prioridade para melhorar a vida delas.

Sarah Lima de Matos, 9, vive no Jardim Mitsutani, no Campo Limpo, zona sul, e é aluna do quarto ano da rede municipal de educação. Espaços de lazer e a melhora da situação da economia são pontos que ela vê como necessidades na região.

“Se eu fosse política, ia colocar aqueles brinquedos infláveis nos parquinhos. As crianças de todos os anos iam ter o dia do brinquedo”, diz. “Ia baixar o preço das contas de água e luz porque tem muitas pessoas que são pobres e não têm dinheiro pra pagar, aí elas são despejadas das casas."

Sarah também demonstra preocupação sobre o impacto do novo coronavírus. Afirma que poderiam “dar os medicamentos para as pessoas”.

O mercado é outro lugar que precisa de atenção, segundo Sarah. “Os preços têm que baixar. Sempre quis comer cereal, mas nunca pude porque minha mãe sempre disse que não tinha dinheiro”, explica. “Tem o arroz também. Está caro demais. Quarenta reais aí já é palhaçada com a minha cara."

Com 10 anos, Pérola Soares de Deus diz que política é a disputa onde se escolhe quem vai cuidar do povo. Para a moradora de Pirituba, zona norte, os eleitos deveriam "mudar o tanto de assalto" na cidade, já que quando ela viaja percebe que outros lugares são mais seguros.

Algumas questões sociais também estão na ponta da língua. “As pessoas deveriam ter mais trabalho e mais chances para deixarem de roubar”, afirma. Também reforça a importância da educação. “Os políticos não se preocupam com as crianças e querem que elas fiquem burras pra não saber o que é política, o que cada um está fazendo.”

Para melhorar a sociedade, a menina diz que os ricos deveriam ajudar os pobres a serem ricos e que as pessoas deveriam ter acessos iguais. “Tipo, igualdade entre homens e mulheres, pretos e brancos."

Pérola demonstrou preocupação com a pandemia e com o que ouviu sobre a Covid-19. “Os políticos podiam parar de falar que era só gripezinha porque não é”, afirma. “As pessoas para se cuidar deveriam ter mais máscara pelo menor preço. Nem todo mundo tem condição de pagar saúde e é tão básico que não deveria ter que pagar”.

Em Heliópolis, considerada a maior favela de São Paulo, Eloá de Carvalho Silva, 8, e Débora Moraes Santos, 11, frequentam o Centro para Crianças e Adolescentes, espaço público que oferece atividades para crianças da região. As meninas dizem que a comida deveria ser prioridade de quem for eleito.

“Acho que eu pediria pra eles arrumarem a quadra de esportes aqui, dar brinquedo, colocar piscina e dar cestas básicas para quem precisa”, diz Eloá.

Segundo Débora, o prefeito deve cuidar das famílias e cumprir o que prometeu na campanha. “Se eu fosse política, ia entregar cesta, dar brinquedo no Dia das Crianças e dar o apoio que as famílias precisam”, resume.

Quando vê outras crianças com problemas, ela diz perceber que os gestores não se importam com os pequenos. “Os políticos não se preocupam. Tem criança na rua, tem criança querendo comida e não tem. Tem pai e mãe parando de comer pra dar para as crianças."

No Campo Limpo, na zona sul, Pedro Henrique Ferreira de Lira, 8, cita o movimento intenso do trânsito que o preocupa. Diz que é perigoso para crianças brincarem.

A escola seria outro lugar de atuação caso ele entrasse na política. Afirma que é preciso melhorar a estrutura, para que quando chova não vaze água do telhado. Também menciona a dificuldade para chegar à aula. “Não pode ser muito longe. Tem vezes que as crianças não têm dinheiro ou os adultos para levá-las até lá. Tem vezes que a perua é cara."

A tia do menino, Sofia Alice Francisco de Lira, 10, está no 5º ano da escola e mora no Jardim Mitsutani. “Eles [políticos] sempre prometem as coisas e nunca fazem”, diz, antes de listar necessidades do bairro e da cidade.

“Por exemplo, mudaria as ruas que são muito sujas e também são muito difíceis de andar. Também arrumaria os parquinhos que tivesse na rua, mudaria as escolas para elas terem uma qualidade melhor, um estudo bem melhor", cita Sofia.

Todas as crianças entrevistadas nesta reportagem foram questionadas sobre a volta às aulas e disseram que preferem continuar em casa por conta da pandemia.

Estudam na capital 675 mil alunos na rede municipal acima dos 4 anos. Em setembro, a prefeitura anunciou que testaria todos sobre o contágio de Covid-19.

Nesta semana, o Governo de São Paulo prorrogou a quarentena até 16 de dezembro. “Acho que não [deveria voltar], também pela segurança das crianças”, afirma Sofia.

A reportagem também perguntou às crianças o que é política.

“É uma forma que a sociedade encontrou para governar o país, pra ter leis, vamos dizer assim. Não tendo um governante acho que iria ficar meio vaga a sociedade”, define Letícia Inácio Silva, 12, estudante do sétimo ano e moradora de Taipas, em Pirituba.

“Para ter um pouco mais de voz, eu acho que deveria mudar a forma como o governo trata as pessoas mais jovens e com menos condições”, observa a estudante.

Letícia diz que muitas pessoas não são observadas pelo poder público. Entre os exemplos citados por ela estão os negros e os desempregados. “Isso deveria mudar, tendo mais vagas de emprego e mais atenção às vozes de pessoas negras e mais pobres."

Em Perus, na zona norte, Elisa de Paula da Costa, 9, estudante do terceiro ano, entende que política é algo ruim. “É uma coisa que causa briga entre familiares e amigos."

Ao exemplificar onde ocorrem essas brigas, ela foi direta. “Num debate que minha mãe estava vendo e eu fui acompanhar com ela. Teve uma briga lá. Não achei legal”, lembra.

Na cabeça de Jhonatan Costa Nascimento, 12, estudante do sexto ano, a definição está associada a um espaço. “Acho que política é onde o governo trabalha."

Morador da Vila Zatt, na zona norte, ele demonstra preocupação com as crianças com deficiência. “Em metade dos lugares que não têm acesso para os cadeirantes teria que colocar acesso."

Ele completa dizendo que, se fosse um político, certamente faria mais com esse foco. “Para algumas crianças, as que têm deficiência, eu abriria uma escola para eles aprenderem a lidar melhor com a deficiência deles. Por exemplo, os que têm deficiência visual aprender a explorar melhor, a tocar nas coisas."

Propostas de Covas e Boulos sobre as crianças

Bruno Covas (PSDB)

  • Intensificar a promoção da educação para nossas crianças e jovens, com ênfase na primeira infância, e garantir a pronta recuperação do calendário escolar
  • Promete que mães que cumprirem o pré-natal no Programa Mãe Paulistana terão a vaga dos seus filhos garantida nas creches da prefeitura
  • Proposta pedagógica que garanta o aprendizado de todos e oferte reforço escolar a crianças e adolescentes no pós-pandemia
  • Zerar a fila de creche já em 2021
  • Construir 12 CEUs (centros educacionais unificados)
  • Comprar quase meio milhão de tablets
  • Expandir o Bolsa Primeira Infância para famílias em situação de vulnerabilidade social com crianças até 3 anos de idade que não estejam matriculadas na rede municipal

Guilherme Boulos (PSOL)

  • Efetivar a erradicação do trabalho infantil e da exploração sexual de crianças e adolescentes
  • Instituir campanhas de prevenção contra o assédio sexual de crianças e adolescentes, e adequar equipamentos de saúde para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência
  • Criação do Programa Escola da Cultura para conectar escolas municipais e projetos culturais ao Fundo Municipal de Cultura.
  • Ampliar a rede de bibliotecas públicas
  • Destinação de 31% das receitas arrecadadas à manutenção e desenvolvimento do ensino
  • Zerar a fila das creches e flexibilizar horários, com o acolhimento noturno
  • Permitir o retorno às aulas presenciais somente quando for seguro
Lucas Veloso , Ira Romão , Lara Deus , Léu Britto e Lucas Rodrigues

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