Descrição de chapéu inflação

Alta nos preços de alimentos faz governo elevar projeção de inflação para 2020 e 2021

Indicador, porém, não romperia meta; projeção para retração do PIB melhora

Brasília

Em meio à alta registrada nos preços dos alimentos, o governo elevou a previsão de inflação para este ano e para o ano que vem. A expectativa para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2020 subiu de 1,83% para 3,13%.

O Ministério da Economia diz que o principal responsável pela elevação em relação à projeção anterior, feita em setembro, foi o grupo alimentício. O governo já cortou tarifas de importação sobre arroz, milho e soja para tentar conter os preços.

No Boletim Macrofiscal, que traz projeções e comentários feitas pela SPE (Secretaria de Política Econômica), o governo diz que a inflação acumulada do IPCA em 12 meses do grupo Alimentação no Domicílio, após atingir um valor mínimo de 5,06% em março, acelerou até alcançar 18,41% em outubro (último dado disponível).

"Contudo, o comportamento das demais categorias de produtos continua contribuindo de forma a manter a variação do índice geral dentro do intervalo de tolerância", afirma a SPE.

O grupo Alimentação no Domicílio é composto de 16 itens dos quais 4 mais chamam atenção da pasta sobre inflação. São eles Cereais, leguminosas e oleaginosas (58,59% de alta acumulada em 12 meses encerrados em outubro), Tubérculos, raízes e legumes (21,69%); Carnes (36,42%); e Óleos e gorduras (49,61), este último com destaque para Óleo de soja (85,78%).

Por outro lado, diz o Ministério, alimentação fora do domicílio apresentou variação de 4,69%.

Para este ano, a meta de inflação encontra-se em 4%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Mulher escolhe alimentos em supermercado.
Consumidora escolhe alimento em supermercado na zona norte de São Paulo - Rivaldo Gomes - 7.mai.2020/Folhapress

Para 2021, a previsão é que o IPCA suba ainda mais, para 3,23% (em setembro, a previsão era de 2,94%). No ano que vem, a meta de inflação é de 3,75% (também com 1,5 ponto percentual de tolerância).

Para o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que serve como base para o reajuste do salário mínimo, a previsão para 2020 teve um salto de 2,35% para 4,10%. Para 2021, subiu de 3,08% para 3,2%.

A previsão para o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna) subiu de 13% em setembro para 21% agora. O indicador é baseado nas compras do atacado e sofre efeito da depreciação cambial e de commodities.

Segundo os técnicos, parte do aumento do IGP-DI já está sendo repassado aos outros indicadores, como observado na elevação das projeções anunciada nesta terça (embora em patamares mais brandos).

A previsão de queda do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano caiu de 4,7% para 4,5%. De acordo com o Ministério da Economia, a mudança reflete os resultados positivos dos principais indicadores mensais, com destaque para a agricultura.

Para o próximo ano, o governo espera que o crescimento do PIB seja de 3,2%, mesmo valor divulgado no último boletim.

A projeção do Ministério para o PIB de 2020 está levemente mais otimista que as projeções de analistas colhidas pelo Banco Central por meio do boletim Focus. A mais recente edição do documento, divulgado na segunda-feira (16), aponta para uma queda de 4,66%.

Economistas dizem que a queda do PIB não foi maior neste ano devido a fatores como a implementação do auxílio emergencial, voltado a famílias mais carentes e trabalhadores informais. Membros de governo e Congresso já chegaram a avaliar a extensão do programa para 2021, o que contraria a equipe econômica.

Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica, afirma que a expansão dos gastos públicos vai fazer a inflação aumentar, a economia se retrair e o desemprego aumentar.

"Se o governo gastar mais do que deve, em vez de a economia crescer ela vai cair. Se o governo gasta mais, aumenta a inflação e o pobre é o mais prejudicado. A consolidação fiscal está alinhada aos melhores interesses da população brasileira, em especial a mais pobre", disse.

Segundo ele, ainda restam R$ 45 bilhões a serem pagos em auxílios governamentais. "Isso nos dá convicção que a economia terá tração para entrar bem em 2021 e, passo a passo, caminharmos para um crescimento maior e mais sustentável", afirma.

Perguntado especificamente sobre o auxílio emergencial, disse que os valores envolvidos nas medidas emergenciais são suficientes para garantir tração para a economia. "Tecnicamente, acho que já endereçamos muito bem essa questão [ao distribuir recursos]", afirmou.

Sachsida disse ainda que a agenda econômica deve avançar e disse que mesmo o governo de Fernando Henrique Cardoso não teve apoio para privatizações nos dois primeiros anos. "Vamos construir consenso. Vão ser grandes meses de reforma. Passo a passo, com a graça de Deus, vamos avançar em todas essas agendas fiscais", disse

Alta é temporária, diz presidente do BC

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, reafirmou nesta terça-feira (17), que a alta nos preços, especialmente de alimentos, observada nos últimos meses deve ser temporária.

"Existem dois grupos de economistas, um está mais preocupado com a inflação, mas entende que as expectativas ainda estão na meta, outro, como nós, acreditam que é uma pressão temporária", avaliou em evento virtual da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).

Ele atribuiu a aceleração da inflação ao câmbio, ao auxílio emergencial e ao que chamou de "efeito substituição". "Como as pessoas não estão gastando com serviços e viagens, há essa poupança circunstancial, o que leva a esse efeito e aumento da alimentação no domicílio", explicou.

"É importante destacar que o BC está olhando [para a inflação] e monitorando", completou.

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