Descrição de chapéu datafolha

Datafolha explica método contestado por campanha de Russomanno

Planejar a amostra com base no nível econômico do entrevistado e no grau de escolaridade dos eleitores é tecnicamente incorreto

Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Renata Nunes

Estatística e gerente de operações do Datafolha

A pesquisa de intenção de voto para prefeito de São Paulo do Datafolha que o candidato Celso Russomanno (Republicanos) tentou censurar vem sendo divulgada por ordem da Justiça com esta mensagem: "A presente pesquisa se encontra impugnada na Justiça Eleitoral em virtude da alegada ausência, em seus resultados, da consideração do nível econômico dos entrevistados, bem como pela divisão do grau de instrução destes, no plano amostral, ter sido em duas categorias (nível fundamental e médio -67%; nível superior -33%)."

O Datafolha enfatiza que cumpre todos os requisitos técnicos exigidos pela lei para o registro de pesquisas eleitorais, realizadas com planejamento amostral por cotas de sexo, idade e distribuição dos eleitores pelos bairros do município. É como se fosse o reflexo do eleitor em um espelho —se 54% são do sexo feminino, 12% têm idade de 16 a 24 anos, cerca de 16% residem na periferia da zona leste e cerca de outros 22% na periferia da zona sul, essa proporção deve estar representada na amostra, assim como todas as outras regiões e segmentos do eleitorado.

É uma estratificação amparada na ciência, são fundamentos de teoria da amostragem estatística, que há 35 anos ditam os levantamentos do instituto e têm comprovada eficácia, inclusive internacionalmente. São variáveis objetivas, sem influência de fatores externos ou sazonais.

Diante disso, o Datafolha esclarece o porquê de ser tecnicamente incorreto planejar a amostra com base no nível econômico do entrevistado e no grau de escolaridade dos eleitores.

1) Nível econômico dos entrevistados: a renda do entrevistado pode variar. Há um grande contingente de eleitores no mercado informal de trabalho, com renda intermitente, que pode variar com frequência. Um bom exemplo foi o impacto do auxílio emergencial do governo federal sobre as faixas de renda da população durante a quarentena. Se fosse planejar uma amostra com base na renda familiar pré-pandemia, o Datafolha diria que 44% das entrevistas deveriam ser realizadas com pessoas que ganhassem até dois salários mínimos. Depois das normas de isolamento social, esse percentual disparou para 61%. Com o auxílio, caiu para 52%. Se o instituto planejasse sua amostra com essa variável, provocaria um viés expressivo. Por isso que, no registro, diz que ponderação é igual a 1 —ao se multiplicar esses percentuais por 1, o resultado é ele mesmo, ou seja, não há ponderação.

2) Divisão do grau de instrução: não há dados atualizados do TSE para o grau de instrução dos eleitores, especialmente onde o recadastramento biométrico não atingiu a totalidade do eleitorado. Há dez anos, quando um jovem fez seu título de eleitor, ele poderia ter um grau de escolaridade que hoje não corresponde à realidade. Em razão disso, os institutos de pesquisa são obrigados a recorrer a outros dados secundários, como o da PNAD Contínua.

Mas o estudo do IBGE contempla a faixa de 14 anos e 15 anos, que não faz parte do universo de eleitores (acima de 16 anos). Para contornar o problema e fazer uma estimativa dessa distribuição, já que a probabilidade desses jovens não terem nível superior ainda é alta, o Datafolha registra a possibilidade de ponderação em bloco “até o ensino médio/superior”. Mas não a utiliza para planejamento amostral, já que todas as faixas de escolaridade (inclusive analfabetos) já vêm automaticamente como resposta da pesquisa, refletidas pelo “espelho” das cotas de sexo e idade nos bairros.

O Datafolha é pioneiro na divulgação de fundamentos estatísticos como margem de erro e nível de confiança e sempre tratou com transparência detalhes de sua metodologia. Nunca trabalhou para partidos políticos ou candidatos. Seu rigor técnico é fundamental para a manutenção da credibilidade que conquistou em 35 anos de atuação, não só em pesquisas eleitorais como também em pesquisas de mercado.

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