Descrição de chapéu
Eleições 2020

Primeira fala de Covas ecoa Biden e mostra prefeito de SP como cabo eleitoral de Doria

Tucano defendeu diálogo e união, repetindo prioridades de governador paulista, que almeja Planalto em 2022

São Paulo

“Não existe distrito azul ou distrito vermelho, existe a cidade de São Paulo”, disse Bruno Covas (PSDB) em seu primeiro pronunciamento após ser reeleito prefeito na noite deste domingo (29).

Quem acompanhou a overdose de política, local ou global, nas últimas semanas pode ter reconhecido a referência. “Não existem estados azuis ou estados vermelhos, existem os Estados Unidos”, disse Joe Biden ao ser eleito presidente americano, no início deste mês.

A única diferença é que no Brasil o vermelho é a cor da esquerda, enquanto nos EUA é o inverso. Mas a essência é a mesma.

O governador de São Paulo, João Doria, levanta o braço do prefeito reeleito de São Paulo, Bruno Covas - Amanda Perobelli/Reuters

A mensagem praticamente idêntica é uma tentativa de superar a polarização exacerbada que tomou conta dos EUA após a eleição de Donald Trump em 2016 e do Brasil com seu pupilo, Jair Bolsonaro, em 2018.

Covas fez um pronunciamento em que procurou colocar o peso de sua vitória, e da cidade de São Paulo, na mudança do eixo político nacional. Pedir diálogo e união significa derrotar o extremismo de direita, no Brasil ou nos EUA.

Nisso, o prefeito jogou afinado com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e mostrou estar totalmente alinhado a seu projeto presidencial.

Sumido da campanha, Doria ressurgiu em grande estilo na vitória do ex-vice, com um discurso que rivalizou, e foi até um pouquinho mais longo, do que o pronunciado por quem deveria ser a estrela da noite.

O governador destacou os valores da democracia, atacou o negacionismo em relação à pandemia e exaltou o equilíbrio e a boa gestão. “O PSDB não separa, não divide, o PSDB agrega, soma”, disse o governador. Só faltou pedir voto para presidente, ou gritar “fora, Bolsonaro”.

Covas seguiu na mesma toada. O fato de recorrer a um papelzinho para não esquecer o que deveria falar reforçou a impressão de que ali estava um cabo eleitoral aplicado de seu mentor.

Usou palavras praticamente idênticas nas referências veladas a Bolsonaro. “Restam poucos dias para o negacionismo e o obscurantismo”, disse, em frase que pode ser lida de duas formas.

De forma literal, é a aposta na vacina contra a Covid-19, hoje o maior trunfo do governador. Numa leitura mais ampla, é um desejo de mudança no governo federal daqui a dois anos.

Também disse que era “filho e fruto da democracia” e fez a referência quase obrigatória ao avô, o ex-governador Mario Covas (PSDB), para novamente se contrapor ao divisionismo associado a Bolsonaro.

“Meu avô dizia que é possível conciliar política e ética, política e mudança. É possível fazer política sem ódio, falando a verdade”, disse o prefeito.

Em mais uma demonstração de apoio à estratégia de Doria para viabilizar uma candidatura presidencial, fez um afago enfático a outro sumido que reapareceu na vitória, o vice Ricardo Nunes (MDB).

Investigado por um suposto esquema envolvendo creches e com um boletim de ocorrência por agressão à mulher pesando contra sua imagem, Nunes foi descrito pelo prefeito como alguém que “sofreu muito durante essa campanha”.

Postado estrategicamente atrás de Covas, o vice agradeceu com os olhos marejados. A poucos metros de distância, o líder do “centrão municipal", o vereador Milton Leite (DEM), emprestava ainda mais simbolismo à ocasião.

Na campanha, o prefeito reeleito seguiu à risca a costura feita pelo governador para fortalecer sua chapa, que aponta para o embrião de uma aliança nacional daqui a dois anos.

Em seu momento de triundo, Covas mostrou que seu projeto de demarcar um certo distanciamento no estilo e na estratégia política com relação Doria tem limites.

De forma até levemente surpreendente, os primeiros sinais do prefeito, agora com luz própria, foram de engajamento total na ambição de quem estava a seu lado no palco.

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