Descrição de chapéu Eleições 2020

É possível fazer política sem ódio, diz Covas em discurso da vitória ao lado de Doria

Prefeito emulou discurso de presidente eleito nos EUA e disse que não haverá 'distritos azuis e vermelhos'

São Paulo

"É possível fazer política sem ódio", disse na noite deste domingo (29) o prefeito reeleito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), em discurso ao comemorar sua vitória, no qual apelou à moderação e disse que a cidade respeita a democracia e o equilíbrio.

Dirigindo-se aos eleitores do candidato derrotado, Guilherme Boulos (PSOL), Covas afirmou que vai "governar para todos". "A partir de amanhã não existe distrito azul e vermelho, existe a cidade de São Paulo", afirmou, emulando o discurso do presidente eleito nos Estados Unidos, Joe Biden, que disse que "não haverá estado azul e estado vermelho", se referindo à disputa americana.

Em recado ao presidente Jair Bolsonaro, Covas afirmou que "restam poucos dias para o negacionismo e para o obscurantismo" e afirmou que vai "transformar diferenças em consensos".

O discurso de Covas foi feito no diretório estadual do PSDB, aonde chegou junto do governador João Doria (PSDB), seu padrinho político que, com alta rejeição na cidade, passou a campanha escondido.

O governador discursou afirmando que a "vitória foi conquistada coletivamente, com um grande candidato, mas coletivamente", em uma fala em que acenou para uma campanha presidencial em 2022, citando esperança, mudança e democracia.

"Quero destacar também os valores da democracia. O valor de uma campanha bem feita, bem conduzida, sob liderança do Bruno Covas, que vencendo a discriminação de uma doença, a dor e a luta, soube conduzir sua campanha sem fazer uso de fake news, mentiras e ataques", disse o governador.

Doria falou por cerca de nove minutos, enquanto o discurso do próprio prefeito reeleito durou pouco mais de 7 minutos.

O vice-prefeito eleito, Ricardo Nunes (MDB), principal calo da campanha, fustigado por durante o segundo turno por uma denúncia de violência doméstica em 2011 e por ligações controversas com creches conveniadas, também discursou, afirmando que "Covas tem um vice do lado dele, que é seu fiel escudeiro", disse.

Covas agradeceu o vereador. "Queria fazer uma homenagem e agradecimento especial ao meu vice Ricardo Nunes, que sofreu muito durante essa campanha. Esteja certo, Ricardo, que partir de 1ºde janeiro vamos governar e mostrar para São Paulo quem nós somos e qual é a nossa visão de mundo. Tenho certeza que todo sacrifício vai valer a pena", disse.

O espaço das falas estava lotado e a campanha ignorou as queixas da imprensa sobre as aglomerações. O próprio prefeito foi questionado sobre as aglomerações. "Veio muita gente da imprensa, mas a gente recebe a todos aqui", respondeu Covas.

Estavam no local diversas figuras do PSDB, como o presidente nacional do partido, Bruno Araújo, e até o deputado federal Alexandre Frota. Joice Hasselmann (PSL) também esteve presente ao lado de Covas.

Contando com Covas, sete pessoas discursaram, mas nenhuma mulher.

O presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, ressaltou que a campanha foi feita sem ataques entre os candidatos. "Vencer é sempre importante. Na vida pública, vencer com dignidade, com respeito, dedicação é ainda mais importante. A eleição do Bruno Covas demonstrou que política, vida pública, pode ser feita sem escolher o adversário como inimigo", disse.

"O eleitor brasileiro não quer extremismo, não quer discussões alheias além da necessidade da vida real. O eleitor quer moderação", continuou Araújo.

Já nesta segunda-feira (30), um dia após a reeleição, Covas terá que tomar medidas em relação à quarentena em São Paulo —a cidade poderá retroceder no Plano São Paulo, que estabelece níveis de isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus.

Na reta final do segundo turno, quando a vantagem de Covas para Guilherme Boulos (PSOL) diminuiu nas pesquisas e as internações por Covid-19 começaram a aumentar na cidade, o prefeito passou a minimizar um repique da doença.

Covas chegou a chamar alertas de especialistas de “fake news” e “alarmismo”, para afastar boatos de que os comércios poderiam ser fechados novamente, o que teria impacto eleitoral negativo.

Neste sábado (28), o prefeito disse que "na cidade de São Paulo, não há espaço para o discurso alarmista dizendo que estamos escondendo dados, como não há espaço para discurso de que a pandemia já acabou."

Covas foi escolhido para um novo mandato de quatro anos após uma reviravolta que o transformou, em pouco mais de dois anos, de um vice-prefeito desconhecido e baladeiro em um nome forte do PSDB que se projeta como líder nacional.

Neste domingo, ao ir votar, Covas prometeu cumprir o mandato até o fim, ao contrário de outros tucanos que deixaram a prefeitura para buscar outros cargos —mas que também haviam feito a mesma promessa, como Doria, eleito prefeito em 2016 e que se elegeu governador de São Paulo dois anos depois.

Para entrar na vida política, Covas se fiou no sobrenome e no capital político do avô, o fundador e personagem histórico do PSDB Mario Covas, que foi prefeito, senador e governador de São Paulo até sua morte, em 2001.

O neto foi eleito pela primeira vez deputado estadual em 2006 e reeleito no pleito seguinte com a maior votação do estado, mas se licenciou para ser secretário estadual de Meio Ambiente entre 2011 e 2014, na gestão Geraldo Alckmin (PSDB), período em que teve atuação discreta.

Na eleição de 2014, foi eleito deputado federal com 352 mil votos, cargo do qual também se licenciou dois anos depois para disputar a eleição em São Paulo como candidato a vice-prefeito na chapa liderada por Doria.

Eleito, Covas foi nomeado, em 2017, secretário de Prefeituras Regionais (hoje subprefeituras), mas a gestão passou a ser alvo de queixas por falta de zeladoria, e Doria o demitiu do cargo em novembro do mesmo ano.

Para minimizar o problema, Doria o colocou para articular projetos na Câmara Municipal e brincou, na ocasião, que seu vice havia "caído para cima", mas deixando claro que "a população fez algumas reclamações".

“Não há nenhum reparo na gestão do Bruno, mas com esta nova estrutura vamos melhorar ainda mais. Já disse que temos que ter os ouvidos muito ligados na população, e a população fez algumas reclamações”, disse Doria na época.

Na ocasião Doria testava uma possível candidatura à Presidência ainda em 2018, furando a fila de seu padrinho político Alckmin, de quem Covas é próximo.

Meses depois, em abril, Doria quebrou a promessa de prefeitar por quatro anos e deixou o cargo, não para a disputa nacional, mas para se eleger governador.

Covas, então, assumiu a cadeira de prefeito, em um momento em que havia perdido 16 quilos, começado a fazer exercícios físicos e, divorciado, frequentar festas na cidade.

Nessa época, enfrentou desgaste político e investigação do Ministério Público por nomeações de uma parente, de amigos de balada e de faculdade e da mãe do seu secretário-executivo para postos de confiança na administração municipal.

No primeiro ano de gestão, Covas passou mais de 40 dias afastado para viagens. Uma delas acabou se tornando uma crise de sua administração. Ele estava na Europa em março de 2019 quando a região metropolitana de São Paulo enfrentou enchentes que mataram 13 pessoas.

Em outubro daquele ano, no entanto, Covas passou por outra transformação radical. Diagnosticado com um câncer em estágio avançado no trato digestivo, o prefeito mudou sua postura, se concentrou mais na gestão e passou a ser poupado de ataques de adversários.

Mesmo nos períodos mais agudos do tratamento, em que precisou se internar, não se afastou da prefeitura e fez reuniões com secretários direto do hospital.

A principal crise, no entanto, viria neste ano. A pandemia da Covid-19 foi mais aguda em São Paulo —até o último sábado (28), mais de 14 mil pessoas já haviam morrido pela doença na cidade.

Para evitar a exposição ao vírus na rua, Covas, que ainda trata o câncer, se mudou para o gabinete do prefeito e manteve os trabalhos. Embora tenha cedido a alguns lobbys e liberado a abertura de bares e restaurantes antes do recomendado por especialistas, sua condução da pandemia foi bem avaliada por 46% dos paulistanos segundo Datafolha de outubro.

O prefeito acabou contraindo coronavírus em junho, mas se recuperou sem problemas.

Na eleição em plena pandemia, a campanha tucana vendeu Covas como um “resolvedor de problemas”, que enfrentou grandes crises na cidade, que incluem também a queda de um viaduto na marginal Pinheiros, embora não tenha deixado marcas na gestão e nem cumprido a maior parte das metas que propôs.

Entre as metas que ainda não foram cumpridas estão a entrega de 12 CEUs (centros educacionais unificados), baixar para 30 dias o prazo de espera dos exames prioritários e implantar dez novos parques, entre outras.

Apesar do discurso a favor da mobilidade, a gestão de Covas privilegiou o transporte individual, ao diminuir a meta de 72 quilômetros de corredores de ônibus para apenas 9. A administração apostou boa parte das suas fichas (e verbas) em um amplo programa de recapeamento, o que costuma ter muita visibilidade e apelo eleitoral entre os paulistanos.

Ao contrário do que o entorno do prefeito acreditava no começo da campanha, de que a vitória era garantida, a corrida se acirrou na reta final e a aproximação de Boulos nas pesquisas tirou Covas do eixo.

Fustigado por ataques ao vice-prefeito eleito, Ricardo Nunes (MDB), que enfrenta investigações por ligações com entidades que têm contratos com a prefeitura para administrar creches, Covas chegou a sair do script de candidato moderado e perdeu a paciência em uma sabatina ao ser questionado por um boletim de ocorrência de violência doméstica que foi registrado pela esposa do vice em 2011.

Fora desse episódio, no entanto, o candidato evitou entrar em polêmicas e ataques diretos ao adversário Boulos, embora seus aliados tenham se encarregado disso.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.