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Erro em pesquisas eleitorais, mídia e democracia no Brasil

Empresas menores ou mais recentes no mercado não conseguem publicar seus dados para o grande público

Leonardo Magalhães

Especialista em opinião pública, big data e previsão eleitoral, coordenador de projetos para a América Latina da AtlasIntel e doutorando em comunicação política na PUC-Rio

Latinoamérica21

Quem trabalha com pesquisas de opinião hoje, tanto no Brasil como em outros países da América Latina, sabe que há um embargo midiático para a publicação de pesquisas de opinião, superado somente pelos institutos tradicionais de demoscopia de seus respectivos países.

Nos grandes meios de comunicação tradicionais, somente um círculo pequeno de institutos têm as portas sempre abertas para a divulgação de pesquisas de intenção de voto em eleições, ao passo que empresas menores ou mais recentes no mercado, com frequência, não conseguem publicar seus dados para o grande público.

Esta exclusividade em termos de espaço midiático não se sustenta por critérios de qualidade ou capacidade preditiva, já que institutos menores vêm demonstrando melhor desempenho que os tradicionais nas últimas eleições.

Se trata de uma tradição que remonta a uma época na qual existiam somente tais institutos, o que nos dias de hoje não faz mais sentido. Tal reserva de espaço na mídia dificulta um livre mercado no campo da opinião pública, desestimula o aumento da qualidade das pesquisas, além de impedir que o público tenha acesso a uma maior pluralidade de fontes confiáveis de informação.

Os institutos de pesquisa tradicionais na América Latina nasceram e se consolidaram no século 20, quando havia pouquíssimas instituições com a capacidade técnica e intelectual para o árduo trabalho de entender o clima social de inteiras populações.

No contexto do século 20, a politóloga da Universidade de Harvard Pippa Norris afirma que um dos traços característicos da evolução das campanhas eleitorais ao longo do século 20 é identificável, entre outras coisas, pela centralidade das pesquisas de opinião na política.

A autora explica que, nas campanhas pré-modernas, os candidatos a cargos eletivos se apresentavam com propostas próprias e buscavam o consenso do público sem o uso de pesquisas. Segundo Norris, com o advento das campanhas pós-modernas nas últimas décadas, os políticos passaram a usar as pesquisas para entender os eleitores e, com isso, construir uma grande variedade de discursos personalizados, que se adaptassem a cada segmento do eleitorado.

Neste contexto, os grandes meios de comunicação se tornaram parceiros dos institutos de pesquisa tradicionais em uma época na qual estudar o clima de opinião era altamente dispendioso, complexo e possível para pouquíssimos institutos.

Hoje o panorama é bem diverso, pois há outras empresas no setor que conseguem rivalizar com os grandes institutos tanto em capacidade operacional quando em qualidade do ponto de vista da previsão eleitoral.

De fato, nos últimos dez anos, assistimos à ascensão de novas empresas de pesquisa que, embora radicadas localmente e ainda relativamente pouco conhecidas na região, puderam demonstrar uma maior capacidade em termos de previsão eleitoral que os institutos tradicionais em diversos países.

Segundo os dados do agregador de pesquisas FiveThirtyEight, as tradicionais empresas de pesquisa YouGov, Gallup, Pew Research e Ipsos falharam enormemente na eleição presidencial nos Estados Unidos em 2020.

Neste contexto, outros institutos menores foram os mais precisos nas previsões, mas nos EUA também houve resistência a que a mídia divulgasse pesquisas que não fossem realizadas pelos seus institutos favoritos.

Além disso, os jornalistas brasileiros reproduziram o parecer da grande mídia americana de que os institutos teriam errado em seus prognósticos, mas o que aconteceu realmente foi que somente os mais famosos erraram.

Os institutos que realmente obtiveram resultados melhores acabaram sendo silenciados e passou-se a ideia errônea de que aquela eleição não pôde ser prevista adequadamente. Algo análogo ocorreu durante as recentes eleições municipais brasileiras em 2020 e durante a eleição presidencial argentina em 2019.

O que está se produzindo neste contexto é uma enorme resistência por parte da mídia em entender que está ocorrendo uma renovação geracional no que se refere ao mercado das pesquisas de opinião. Dita resistência está reforçando o oligopólio da exposição mediática, no qual institutos de demonstrada capacidade preditiva não conseguem publicar suas pesquisas em certos meios por explícita decisão editorial em favor dos institutos tradicionais.

Ao questionar alguns jornalistas sobre o assunto em diversos países da América Latina, eles alegam não poder divulgar dados de “outras” empresas de pesquisa por decisão editorial. Dita escolha, em alguns casos, está justificada por um acordo de exclusividade entre a mídia e o instituto e, em outros casos, por um sentimento de omertà, por temor a uma retaliação no acesso a futuros dados.

Em outros casos, há uma clara e explícita orientação editorial em não divulgar pesquisas que possam “melindrar” alguma figura política ou partido específico. Há casos em que os órgãos de mídia temem retaliações de certos políticos no recorte de verbas publicitárias públicas caso os mesmos ganhem a eleição.

Neste sentido, o setor acadêmico também tem a sua parcela de responsabilidade, pois não questiona o suficiente a qualidade do que se produz em termos de pesquisa. De modo geral, tende-se a acreditar erroneamente que a área das pesquisas como um todo se encontra em crise devido ao aumento dos erros nos últimos anos, mas ninguém está vendo que quem está em crise são somente algumas poucas empresas.

Este panorama é nefasto para a área da opinião pública, pois limita a liberdade de mercado, favorecendo a concentração e enfraquecendo a profissionalização. Além disso, o fato que a mídia continue preferindo os mesmos institutos que sempre erram em suas previsões, termina por minar a credibilidade de um inteiro campo profissional, alimentando fantasiosas teorias da conspiração.

Do pondo de vista midiático, em tempos de pós-verdade, reproduzir dados que erram suas previsões não faz mais que incrementar a desconfiança nas instituições, em especial na própria mídia.

Além disso, alguns órgãos de mídia se demonstram pouco dispostos a realizar um debate aberto sobre a qualidade das pesquisas de opinião veiculadas por eles, comparando o desempenho de cada instituto com o fim de fomentar um incremento da qualidade do trabalho realizado pela transparência.

Quem melhor do que o jornalismo profissional para realizar um debate público sobre o desempenho comparado de cada instituto? A exposição pública de erros e acertos fomenta, pela competição no livre mercado, o aprimoramento da qualidade das pesquisas, além de informar o público sobre o assunto com a complexidade que o tema requer.

De modo geral, a qualidade da comunicação pública afeta diretamente a qualidade da própria democracia, como afirma em seus trabalhos acadêmicos a Prof.ª Maria Helena Weber, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A comunicação pública é a melhor fonte de informação disponível para que o público se oriente e tome decisões de natureza política. De fato, já foi demonstrado empiricamente por diversos estudos pelo mundo que as pesquisas de opinião têm a capacidade de influenciar o voto.

Se pesquisas afetam o voto, é um dever da mídia, como guardiã da democracia, orientar o público sobre o desempenho dos institutos durante as eleições, publicando mais pesquisas desde diferentes fontes, para que o eleitor forme a sua própria opinião tendo à disposição toda a informação realmente disponível.

Por último, em especial pelos tempos de “terraplanismo ideológico” que vivemos, é importante instaurar um debate sobre como trabalham os institutos e por que os resultados das pesquisas variam tanto entre eles.

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