Movimentos de formação política discutem furo à polarização e encaram dilema da neutralidade

Organizações produzem conteúdo para debates na internet, onde professores universitários também conquistaram espaço

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São Paulo

Com a proposta de melhorar a qualidade da democracia brasileira e incentivar a participação política de todos os cidadãos, grupos da sociedade civil vêm se organizando nos últimos anos para disseminar conteúdo sobre política.

Esses movimentos, segundo alguns dos membros, buscam ajudar a aumentar a consciência política e a promover debates com menos polarização, por meio de cursos, palestras, conteúdo informativo na internet e formação de assembleias consultivas.

Jovens participam do Encontro Nacional das Embaixadas do Politize, em março de 2020, em São Paulo
Jovens participam do Encontro Nacional das Embaixadas do Politize, em março de 2020, em São Paulo - Divulgação

Uma dessas iniciativas é o Politize. A organização diz não fomentar projeto eleitoral e afirma que existem muitas formas de participação política.

A proposta da entidade é oferecer conteúdo educativo na internet, produzir materiais para escolas —em parceria com secretarias de Educação— e promover o programa Embaixadores, que forma líderes que possam multiplicar os conteúdos em suas comunidades.

"O nosso objetivo é formar cidadãos conscientes e comprometidos com a democracia, através da educação política", afirma Mariana Fernandes, gestora do núcleo de comunicação do Politize.

Segundo ela, 56 embaixadas do Politize em todo o Brasil ajudam a disseminar o conteúdo político.

Tanto os cursos disponibilizados no site da entidade como o curso para formar embaixadores são gratuitos. Entre os conteúdos ensinados estão: comunicação não violenta, história da política, o que é democracia e quais as funções dos Três Poderes.

Mariana afirma que existe pluralidade de ideias nos conteúdos ministrados nos cursos que são procurados majoritariamente por jovens.

Ela diz ainda que não existe nenhum vínculo com partidos políticos ou com grupos empresariais. "Isso está bem claro e transparente, nos financiamos através dos editais dos quais participamos."

Sobre os trabalhos realizados com as secretarias de Educação, Mariana explica que eles possuem um conteúdo já produzido sobre cidadania, que é distribuído para as escolas pelas pastas parceiras do projeto. Entretanto é possível a produção de materiais sob demanda, dependendo do que a gestão do município considere necessário.

Outro movimento que vem ganhando destaque é o Delibera Brasil. Fundado em 2017, o coletivo se apresenta como uma organização sem fins lucrativos e suprapartidária que tem como objetivo contribuir para o fortalecimento da democracia ao promover a deliberação cidadã.

"As pessoas não se sentem fazendo parte das decisões políticas, e esse afastamento está sendo negativo. A proposta é trazer a pessoa comum e criar um grupo representativo, através de técnicas de amostragem e sorteio", afirma Silvia Cervellini, mestre em opinião pública e porta-voz do Delibera.

Segundo ela, o movimento ajuda a viabilizar assembleias consultivas, ou minipúblicos, como a organização chama. Este grupo de pessoas é selecionado através de sorteio e se reune para debater um tema importante em sua comunidade.

Para ajudar neste processo, o Delibera convida as diversas partes interessadas no processo (ONGs, empresas, poder público) e especialistas para que o grupo de representantes receba o máximo de informação possível sobre o tema, antes de uma definição.

O movimento também afirma se financiar através dos editais dos quais participa.

As decisões não são vinculativas, ou seja, o poder público não precisa colocar em prática o que os representantes da população definiram. Este é um segundo passo. Após a deliberação, a decisão do grupo é apresentada para as administrações municipais e estaduais para tentar convencê-las a implementar a demanda.

Atualmente, o Delibera Brasil promove uma assembleia participativa no bairro de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, em parceria com a Fundação Tide Setubal e com a Rede Nossa São Paulo.

O grupo de representantes analisa quais projetos seriam mais interessantes para implantação no bairro diante do orçamento municipal disponível para o distrito.

Jovens participam do Encontro Nacional das Embaixadas do Politize, em março de 2020, em São Paulo
Jovens participam do Encontro Nacional das Embaixadas do Politize, em março de 2020, em São Paulo - Divulgação

O Delibera já fez projetos parecidos em Fortaleza, e Silvia afirma que o formato está ganhando força na Europa, especialmente na França.

Já o Despolarize é um projeto que começou nas redes sociais e se desdobrou em encontros. O movimento busca se colocar como mais um coletivo que tenta furar o ambiente de polarização política.

O programa dá dicas de como se comportar para dialogar com parentes e amigos em um clima respeitoso, mesmo que haja discordâncias.

No site do grupo é possível encontrar conteúdos como: o que é Ministério da Saúde e qual sua importância; o que é violência de gênero; e saúde pública e as bases do funcionamento do SUS.

O professor de ciência política da UFABC (Universidade Federal do ABC) Diego Sanches Correa vê com bons olhos iniciativas que busquem incentivar o conhecimento e o debate político.

Segundo o especialista, para uma democracia funcionar bem as pessoas precisam ter acesso a informações diversas e devem ser estimuladas a refletir sobre como as diferentes políticas adotadas podem afetar diretamente o dia a dia.

"Na medida em que esses grupos [que se propõem a disseminar educação política] dão acesso a algumas dessas informações, diferentes opiniões, a forma como as políticas públicas afetam o indivíduo e como o sistema [político] funciona, eu acho isso muito positivo."

"O cidadão tem que ser livre para buscar a informação que ele precisa para tomar suas decisões. Então, neste sentido, podem ser positivas, independente das possíveis posições políticas que os movimentos tenham", afirma Sanches.

Sanches avalia que o cidadão precisa ter contato com diferentes vieses para depois conseguir formar sua opinião. Ele não teme que este movimento pela educação política possa exercer algum tipo de manipulação ou influência negativa sobre as pessoas.

"Quem define quem está manipulando e quem não está? Em um ambiente plural as visões de país vão ser distintas. O que a sociedade tem que garantir é que da mesma forma que se tem acesso à opinião de um determinado grupo, se tenha também acesso à opinião de um grupo oposto", diz.

Delibera Brasil promove assembleia com a comunidade para discutir o serviço de mototáxi, em Ilhéus (BA)
Delibera Brasil promove assembleia com a comunidade para discutir o serviço de mototáxi, em Ilhéus (BA) - Divulgação

Já Danusa Marques, professora e diretora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, é mais ceticista em relação a esse tipo de mobilização em prol da educação política.

"Eu analisaria duas dimensões: quem financia —porque isso molda o tipo de ação a ser financiada, é claro. E de onde vêm os organizadores —porque a trajetória pela qual passaram até chegar nesta iniciativa marca sua visão de mundo e sua interpretação do que deve ser a política."

"De onde vêm essas pessoas? Tem gente de perfil popular na coordenação? Ou estamos em mais uma iniciativa organizada e financiada por homens brancos ricos que frequentam as altas rodas? Que visão de política essa iniciativa mobiliza? Ela apoia as agendas da periferia ou serve para alimentar mais do mesmo?"

Ela considera preocupante projetos que busquem discutir política de forma mais "'neutra', 'o caminho do meio', 'racional', 'despolarizado'". Ao fazer isso, segundo ela, se enfraquece os termos do debate público.

"Além de não existir neutralidade em nada nessa vida, porque todas as pessoas são situadas na sociedade em uma posição específica que orienta suas avaliações sobre o mundo, o discurso da neutralidade muitas vezes acoberta silenciamentos e deslegitima demandas por igualdade e justiça democrática".

Segundo Danusa, o caminho passa por exigir clareza das iniciativas públicas, "partidos, igrejas, para as associações, para os clubes, para tudo. E também para esses clubes de formação política".

"Ao meu ver, é preciso ter mudanças mais estruturais na organização da vida para realmente conseguirmos promover decisões políticas democráticas no cotidiano. Não basta ler e escutar sobre política, é preciso ter espaço para interlocução e construção coletiva", defende ela.

No YouTube, o conteúdo disponibilizado por professores universitários tem sido também uma alternativa na busca por conteúdo sobre política. O canal de Silvio Almeida é um deles.

Filósofo, advogado, especialista em direito político e colunista da Folha, ele debate na rede, além de assuntos sobre racismo e cultura, temas ligados ao universo político como a participação feminina, vacinação, o que é democracia e o que é renda básica.

Outro canal de destaque é de Gabriela Prioli. Mestre em direito penal pela USP e colunista da Folha, além do canal no YouTube com 634 mil seguidores, ela também organiza um curso online no qual ensina alguns conceitos básicos sobre política.

"Qualquer iniciativa responsável que disponibilize conteúdo para que as pessoas possam se informar é positiva", diz.

Como dica diante da quantidade cada vez maior de informações disponíveis na internet, ela afirma que é importante estar atento a se o conteúdo apresenta apenas conclusões ou se também mostra as premissas nas quais aquelas ideias foram baseadas. Assim as pessoas podem ir formando sua própria visão de mundo.

Gabriela Prioli afirma ainda que é importante checar as fontes disponibilizadas por quem oferece o conteúdo.

Danusa alerta sobre os cuidados com conteúdos disponíveis na internet. Ela lembra que nos casos de Silvio Almeida e Gabriela Prioli, eles não são simplesmente youtubers de política, mas professores e pesquisadores preocupados com divulgação científica.

"A produção de conteúdo na internet hoje depende também de onde vem e de como é produzido esse conteúdo. Docentes universitários já têm reconhecimento acadêmico prévio, passaram pela validação de seus pares acadêmicos —o que é um processo seriíssimo."

"É diferente de um canal de YouTube que promove desinformação e se apoia só no número de seguidores porque promove 'polêmica'. Polêmica baseada em desinformação não é uma alternativa, mas um problema grave."

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