É preciso criar incentivos para reter jovens no campo

Sociedade deve mudar visão que se criou do jovem que vive em áreas rurais, dizem especialistas

Leonardo Neiva
São Paulo

Embora muitos jovens queiram continuar trabalhando nas áreas rurais em que nasceram, próximos de suas famílias e das propriedades onde foram criados, em grande parte dos casos, eles não recebem incentivos para permanecer no campo.

Para que eles sejam motivados a ficar na região, é necessário que haja boas oportunidades de renda, políticas públicas voltadas ao seu desenvolvimento, acesso à saúde e educação e também que tenham uma boa relação com os pais, de quem devem herdar as propriedades. 

Além disso, a sociedade precisa quebrar o estigma que cerca essa faixa etária e passar a respeitar os impulsos empreendedores dos jovens, pois eles podem trazer inovação.

Esses fatores devem também ser complementados pelo uso extensivo da tecnologia, que, além de atrair a atenção dos mais novos, facilita a atividade no campo.

Essa discussão fez parte do 2º fórum Agronegócio Sustentável, que ocorreu na quarta-feira (28), em São Paulo.

“Minha mãe sempre atuou em serviço braçal e tinha receio de que eu ficasse no campo trabalhando com força física. Mostrei a ela que a tecnologia pode ajudar nisso”, disse Isabela Albuquerque, coordenadora do comitê de jovens da Lar Cooperativa, do Paraná.

Segundo ela, se uma jovem mulher não tem força para carregar um carrinho de silagem (forragem usada para alimentar os animais), ela pode comprar uma desensiladeira, acoplar no trator e fazer o mesmo serviço.

A jovem de 25 anos afirmou que a boa relação com os pais é essencial para que os mais novos ganhem espaço desde cedo na propriedade rural, sendo capazes de dar sugestões e auxiliar no planejamento das atividades.

Ela também fez críticas ao estereótipo que existe hoje em torno da figura do jovem produtor. “As pessoas acham que ele precisa estar sempre mal vestido, um pouco sujo, falar atrapalhado.”

​Cristhiane Amâncio, coordenadora do Portfólio Inovação Social da Embrapa, concorda que a imagem que se faz da juventude precisa mudar.

Segundo ela, é necessário deixar de enxergar os jovens como fase transitória ou problemática e passar a investir neles justamente por sua importância para a inovação e transformação dos processos de gestão.
A representante da Embrapa defendeu a criação de políticas públicas que ofereçam recursos financeiros e estruturais para aqueles que tenham interesse em permanecer no campo mesmo após o término da formação educacional.

Com o objetivo de auxiliar esses jovens, Adriano Batista fundou em 2007, com outros filhos de agricultores, uma agência que atua no desenvolvimento social e econômico de municípios rurais na região norte do estado do Ceará.

Segundo ele, a Adel (Agência de Desenvolvimento Econômico Local), onde hoje é diretor-executivo, já atendeu cerca de 2.800 jovens da região, dos quais 90% continuam trabalhando no campo.

A instituição atua principalmente em quatro eixos: promoção de educação e conhecimento por meio de oficinas sobre temas rurais, oferta de crédito através de um fundo próprio de incentivo, criação de redes cooperativas e investimento em tecnologia e comunicação.

Natural do município de Pentecoste, no interior cearense, Batista afirmou que o abandono do campo em direção às capitais não melhora necessariamente a condição de vida desses jovens e ainda contribui para os problemas sociais das metrópoles. 

Grande parte dos que cumprem medidas socioeducativas hoje em Fortaleza, segundo ele, vem de origem rural.

“Os jovens ouvem dos pais que a cidade é o lugar do desenvolvimento, onde tem tecnologia. E, assim, são incentivados a irem embora. Antes, atendíamos pessoas a partir de 18 anos, agora estamos recuando até os 14 anos, porque queremos desmistificar essa ideia desde cedo. Os jovens precisam perceber que no campo também existem oportunidades”, disse Batista.

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