Queda da Selic deve reduzir subsídio agrícola

Para especialistas, juros menores podem gerar no futuro uma maior oferta de crédito rural

Ricardo Ramos, diretor de estratégia e transformação digital do BNDES, Pedro Fernandes, diretor de agronegócios do Itaú, e Mauro Zafalon, mediador do debate e colunista da Folha - Reinaldo Canato/Folhapress
Leonardo Neiva
São Paulo

​A queda da taxa básica de juros brasileira, a Selic, que alcançou 6,5% ao ano, seu menor nível histórico, deve ocasionar a diminuição dos subsídios do governo aos financiamentos do agronegócio.

A mudança, no entanto, não deve ter impacto forte sobre o setor no Brasil, já que o agronegócio não tem tanta dependência do subsídio oferecido pelo governo. Além disso, a queda da Selic deve vir acompanhada de uma estabilização da taxa de juros a níveis mais baixos, que pode gerar inclusive uma maior oferta de crédito rural no futuro.

Essas foram algumas das conclusões a que chegaram os participantes do debate que discutiu o crédito rural e novas formas de financiamento, durante o 2º fórum Agronegócio Sustentável, nesta quarta-feira (28). O evento, realizado pela Folha com patrocínio do Banco do Brasil, aconteceu no auditório do jornal, em São Paulo. A mediação do debate foi feita pelo colunista da Folha Mauro Zafalon.

“A possibilidade de ser um país com uma taxa de juros normal e permitir que o agronegócio cresça acima da possibilidade de recursos do crédito rural é uma grande benesse da queda da Selic. Esse é o benefício de ter um agronegócio sustentável economicamente com a taxa de juros que temos no país”, afirmou Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA.

Fernandes afirmou que há hoje aproximadamente R$ 500 bilhões de recursos na cadeia do agronegócio que são financiados pelo sistema bancário, segundo estudo realizado pelo Itaú.

De acordo com o diretor, esse valor mostra que os bancos privados brasileiros têm conseguido dar suporte ao crescimento do setor e atender às necessidades dos grandes produtores, menos dependentes do crédito rural e de recursos direcionados.

Fernandes elogiou ainda o sistema de distribuição de crédito por cooperativas, que seriam um canal eficiente na prestação de assistência técnica aos agricultores.

“Duas coisas devem mudar a médio prazo: a Selic continuará em um nível mais baixo e diminuirá a volatilidade da taxa de juros do país. Uma vez que isso aconteça, a médio prazo vamos ter maior oferta de crédito rural, pois haverá outras fontes de crédito”, disse Ricardo Ramos, diretor de estratégia e transformação digital do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Segundo Ramos, uma outra questão importante será a definição de quais serão as prioridades dentro dos financiamentos direcionados, que terão recursos restringidos pelo teto de gastos.

O representante do BNDES afirmou que a sociedade deve se manifestar junto à classe política nos próximos anos para decidir se a concentração de recursos continuará como hoje, se haverá um foco maior em pequenos produtores ou mesmo em produtos de inovação e agricultura de baixo carbono.

Ramos avaliou também que nos próximos anos, com uma lógica econômica diferente implantada pelo novo governo, deverá haver uma priorização dos investimentos nas áreas de infraestrutura, com a melhora das redes de transporte, e armazenagem da produção agrícola.

De acordo com Fernandes, a redução dos subsídios pode ser um fator positivo para a realização desses investimentos, pois deve trazer um retorno financeiro maior para o agronegócio, sem depender fortemente de recursos do governo.

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