'Revolução verde de 1950 agora tem o efeito de degradar o solo'

Agricultura precisa iniciar novo ciclo, diz Leontino Balbo Jr, líder na produção global de açúcar orgânico

Alexa Salomão
São Paulo

Nos anos 1980, o empresário Leontino Balbo Jr. transformou a Usina São Francisco, em Sertãozinho (SP), num laboratório agrícola. Testou práticas alternativas, como o uso de vespas no lugar de químicos para conter a broca (mariposa que se alimenta dos canaviais), a utilização da palha para proteger e ajudar na fertilidade do solo e o desenvolvimento da mecanização da colheita.

No tempo em que o corte manual e a queimada eram práticas inquestionáveis no setor, levou a pecha de louco. Uns 12 anos depois, descobriu que havia um nome para o que vinha fazendo: cultivo orgânico. Mas com uma dimensão nunca antes alcançada. Balbo criou a monocultura de larga escala orgânica.

Passados quase 30 anos de sua revolução particular, o Grupo Balbo é o maior produtor e exportador de açúcar orgânico do mundo e dono da Native, uma das mais populares marcas de alimentos naturais do Brasil. Seus produtos estão em 71 países.

Enquanto o Brasil discute a nova lei para uso de agrotóxicos —menos burocrática na definição dos defensores; leniente com o veneno para os críticos—, Balbo defende que a revolução verde dos químicos feita a partir da década de 1950 ficou no passado e é preciso dar um salto na produção sustentável de alimentos.

 

 
O empresário Leontino Balbo Jr., 58, presidente e fundador da Native, na Usina São Francisco, em Sertãozinho (SP); ele é engenheiro agrônomo, pela Universidade Estadual Paulista de Jaboticabal; é diretor das usinas São Francisco e Santo Antônio e palestrante sobre temas de agricultura sustentável - Ricardo Benichio/folhapress

Qual a sua opinião sobre o projeto de lei que busca mudar a legislação dos agrotóxicos no Brasil?

A primeira percepção que ficou é que tentam mudar palavras para dar uma ideia mais simpática para o consumidor. Tirar das embalagens o termo tóxico e colocar risco, delimitando níveis de risco; risco aceitável, por exemplo. Já ouvi gente que usa defensivo agrícola e até remédio. Kátia Abreu [ex-ministra da Agricultura] gostava de falar que defensivo agrícola está para a natureza como o medicamento para o ser humano —apesar de haver uma diferença estratosférica, cósmica, entre as duas coisas.

Por que diferença estratosférica?  

Se você tomar um remédio para dor de cabeça, ele fica apenas em você e, se fizer mal, afeta apenas você. O agrotóxico tem um efeito circundante amplo e é usado para matar. Mata vespa, lagarta, cigarrinha, pulgão, ácaro. É um produto tóxico —e assim precisa ser tratado. E tanto é assim que o nível de risco dele é medido pelo nível de toxicidade. O consumidor tem o direito de saber que ele é tóxico. Não podem fazer eufemismo.

Querem também tirar o processo de avaliação dos produtos da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]. E passar tudo para o Ministério da Agricultura, que atende fazendeiros.

Fazer isso significa mudar a lei para atender apenas as empresas. Como fica o consumir? A lei precisa atender a todos. Agrotóxico é perigoso. Não pode tirar a Anvisa, que avalia os impactos sobre o organismo, sobre a saúde. Não pode tirar o Ibama, que avalia o impacto no ambiente.

Não é preciso, então, rever a lei?

A questão que precisa ser discutida e revista é outra. Estudiosos do mundo pesquisam a produção agrícola e não são poucos os que defendem a necessidade de a gente a evoluir do ponto em que estamos para um novo ponto.

Sem agrotóxico? Não são poucos os que pensam o contrário, que a agricultura não vive sem.

Eu sei. Eu ouço isso o tempo todo. Fazendeiros falam que, se tirar, a soja não vive. Não é bem assim. Eu não sou contra nada, mas advogo pela evolução. Temos de migrar da era do agrotóxico para uma outra era.

A gente ouve muito que a chamada revolução verde, movimento tecnológico que surgiu na década de 1950 e que se espalhou na década de 1960, deu uma enorme contribuição para o aumento da produtividade. Isso é verdade.

Essa revolução preconizava quatro coisas: elevado uso de mecanização, de defensivo e fertilizantes químicos, de variedades melhoradas e de produtos customizados, como o Roundup [marca de herbicida], que pode ser usado em diferentes culturas, nas pastagens, para baixar o custo fixo. Esse pacote foi um sucesso.

Agora, essa mesma revolução verde tem o efeito de degradar o solo. O agrotóxico deu uma importante contribuição, mas ela está acabando.

E como isso estaria ocorrendo? 

O agrotóxico tem efeitos sobre solo, atmosfera e diversidade. O que é o solo? Se você pegar a terra de mata e segurar na mão verá que pequenas bolotinhas: são os grumos. Eles são resultantes da colagem de grãos de areia, saibro e argila. Isso tudo é unido por uma cola proteica, que tem o apelido de gomalina. A cola tem validade de 60 a 70 anos. Quanto mais ela for agredida por variações de temperatura, movimentos do solo por arados, mais ela vai soltando a areia, o saibro e a argila. Os grumos definem a capacidade de absorção e retenção de água de chuva.

Quando a revolução verde ocorreu, lá atrás, herdou um solo estruturado. E a combinação desse solo com a tecnologia levou ao salto de produtividade. Um dos primeiros países a adotar o pacote foi os Estados Unidos.

Para resumir. Mexer demais na terra, expô-la a agentes químicos, mata os organismos que colam o solo. As partículas se soltam. A água não fica. Escorre. Isso já está acontecendo nos Estados Unidos e em outros lugares que usaram o pacote de forma ostensiva.

A FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura] tem relatórios mostrando que mais de 25% dos solos agricultáveis do mundo apresentam elevado estado de degradação.

Após 60 anos, os agrotóxicos estão pulverizando a cola proteica do solo.

Se algo assim está ocorrendo em diferentes partes do mundo, como explicar que os produtores brasileiros, líderes em vários mercados, produtivos, estão defendendo o que o sr. diz ser o contrário a fazer? 

O agronegócio brasileiro aprende tudo na universidade, onde as multinacionais da área química têm enorme influência. São elas que fazem seminários, eventos. O Estado não tem recursos para isso. Meu filho está no terceiro ano de agronomia da Unesp [Universidade Estadual Paulista]. Quem patrocina eventos lá? Monsanto, Syngenta, Basf, Novartis, Case, John Deere.

A agricultura brasileira atende objetivos e necessidades de corporações. O Brasil adotou o modelo que eu chamo de ‘factory farm’. Não quer outro.Você conversa com o fazendeiro da soja, do milho, do algodão e ele fica falando dos recordes de produtividade. Entretanto, ele planta nesse modelo há 15, 20 anos. A gomalina dele vai se dissolver em 30, 40 anos. Ele precisa começar a mudança agora. Não precisa esperar até lá. Existem lagartas que fazem o mesmo efeito de agrotóxicos. Alterna. Já reduz pela metade a necessidade de químicos. Vai se adaptando a nova revolução que interessa. Mas a lei também quer proibir que as fazendas tenham seus próprios organismos.

Como assim?

Querem prever na nova lei prisão para quem cultivar, em sua fazenda, uma bactéria que combata insetos, que seja benéfica para a sua cultura. Não faz sentido essa limitação. Se for assim, não poderia fazer pão em padaria porque fermento é fungo.

Mas qual é o argumento para essa limitação?

Há um mercado de biodefensivos aí. As empresas querem que você compre delas. Agora surgiram também empresas que vendem bactérias, fungos, como os que a gente faz aqui na usina há anos, querem proibir você de fazer na sua fazenda. Hoje você precisa apenas multiplicar a bactéria e aplicar. Querem que isso seja submetido a regras como os agrotóxicos. Ou seja, você vai precisar de laboratório como o da Basf. Mas precisa ficar claro. Não estou dizendo que é para abandonar tudo hoje, mas é para começar a mudar.

Quanto tempo o sr. levou para adotar a cana orgânica? 

Mais de dez anos. Temos agora 22 mil hectares sem agrotóxicos. Mas hoje faria mais rápido. Com o tempo, a gente pega o jeito.

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