Plataforma agiliza troca de materiais entre pesquisadores de pós

Solidariedade à Pesquisa dribla a falta de recursos para estudos via doações

Thiago Ney
Campinas (SP)

Estudantes de cursos de pós-graduação do Brasil poderão utilizar um aplicativo para receber ou doar materiais que auxiliem suas pesquisas. A plataforma Solidariedade à Pesquisa foi inspirada por situações extremas pelas quais passaram instituições da Grécia e da Síria.

Há dois anos, o professor José Antonio Rocha Gontijo, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, participava da avaliação dos cursos de pós na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), em processo realizado por docentes de diversas regiões do Brasil.

“Há instituições no país em que faltam recursos para comprar insumos e materiais diversos. Em alguns casos, docentes usam dinheiro próprio para dar prosseguimento a pesquisas e estudos”, disse Gontijo, que hoje é chefe de gabinete da reitoria.

Ele soube de universidades da Síria e da Grécia que estavam em situação parecida e procuravam espaços compartilhados em outros países para que seus pesquisadores pudessem trabalhar.

O professor, então, pensou em criar uma plataforma que ajudasse a resolver a falta de materiais, uma ferramenta que incentivasse a troca ou a doação de insumos. Levou a ideia à Unicamp, à Capes e à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, que desenvolveram a novidade no ambiente digital.

Para Talita Moreira de Oliveira, coordenadora de atividades de apoio à pós da Capes, a iniciativa é importante para que programas com falta de equipamento ou insumo possam solicitar o compartilhamento com seus pares, “agilizando o tempo de desenvolvimento de pesquisas e permitindo otimização de recursos humanos e financeiros”.

Ilustração caderno especial pós-graduação
Getty Images/iStockphoto

O Solidariedade à Pesquisa ficou pronto no ano passado e, nos últimos meses, foi submetido a testes em três universidades: de Brasília, Federal de Pernambuco e Federal de Uberlândia. Estudantes avaliaram a operação do aplicativo e suas funções.

“Os testes foram ótimos. Estamos na pré-implementação. A intenção é que esteja pronto no final de junho”, diz Gontijo.

O aplicativo poderá ser baixado pelo celular ou computador. O endereço eletrônico, a ser divulgado, só será liberado para estudantes de pós. O credenciamento será feito pela Cafe (Comunidade Acadêmica Federada).

O programa é dividido por área de conhecimento: biológicas, exatas, humanas e tecnológicas. Pesquisadores de biológicas poderão receber ou doar, por exemplo, reagentes ou anticorpos. Também poderão ser trocados materiais mais básicos, como papéis e toner para impressão. 

“Isso cria uma rede de colaboração que não temos hoje em dia nas universidades”, diz Gontijo. “Trabalha-se muito isoladamente, quando a interdisciplinaridade é fundamental. Imaginamos ainda trocas de métodos científicos, de implantação de técnicas, de conhecimento, enfim.”

A plataforma poderá ser acessada por alunos de todo o país, e vai nacionalizar iniciativas já existentes, como o USPMulti e a Central de Equipamentos e Pesquisa, da própria Unicamp.

No exterior, esse tipo de compartilhamento entre universidades é estimulado pela Comissão Europeia, que oferece busca simplificada por meio do seu site, além dos britânicos Equipment.data e R&D Project.

Os benefícios dessa troca entre universitários foi demonstrado no estudo “Raising the Return — benefits and opportunities from sharing research equipment “(aumentando o retorno, benefícios e oportunidades de compartilhar equipamentos de pesquisa), feito pelo N8, que reúne oito instituições do Reino Unido.

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