Avaliação de cursos de especialização é desafio para pós-graduação

Em seminário, palestrantes defenderam que MEC use critérios específicos e mais flexíveis para medir qualidade dos cursos

Everton Lopes Batista
São Paulo

​Encontrar os critérios que definem a qualidade de um curso de especialização e elaborar as ferramentas para fazer a avaliação dos programas de ensino é uma das maiores dificuldades para a área, segundo especialistas que participaram de um dos debates do primeiro seminário Desafios da Pós-Graduação no Brasil.

“Os processos de avaliação são ponto fundamental, porque mostram onde estamos e dão um norte”, disse Josiane Maria de Freitas Tonelotto, conselheira da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância) durante o evento, que foi realizado pela Folha, com patrocínio da Universidade Presbiteriana Mackenzie, nesta quarta-feira (05), em São Paulo.​

Mesa de debate do seminário Desafios da Pós-Graduação no Brasil. Da esquerda para a direita, Marcelo Leite, jornalista da Folha, Josiane Maria de Freitas Tonelotto, conselheira da Abed, Marcelo Saraceni, presidente da Abipg, e Daniel Castanho, presidente do Conselho de Administração da Ânima Educação - Reinaldo Canato/Folhapress

Com a expansão das especializações e a incorporação de novas tecnologias na educação, uma nova avaliação, mais flexível e moderna, deve ser elaborada para a área, sem contar com os mesmos critérios que o MEC usa para as graduações ou programas de mestrado e doutorado, de acordo com os palestrantes.

Somente no Mackenzie, instituição que oferece mais de 150 cursos de especialização, houve um aumento na procura entre os anos de 2018 e 2019 de 72% na educação a distância e de 28% nos presenciais.

Uma resolução publicada em 2018 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), vinculado ao MEC, estabeleceu as regras gerais que orientam as especializações no país. A nova legislação flexibilizou alguns pontos que facilitam e expandem a criação desses cursos.

Agora empresas e instituições também podem montar cursos desse tipo por meio do credenciamento especial. Além disso, o número de mestres e doutores que deve lecionar nos programas teve um mínimo fixado em 30%, abrindo espaço para que mais profissionais que tenham experiência na área, mas não títulos acadêmicos, possam compor o corpo docente. 

Para que seja credenciada, a instituição precisa passar por uma avaliação que ficaria a cargo do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), segundo a resolução. O instrumento de avaliação, segundo Luiz Curi, presidente do CNE, ainda está em construção, e nenhum credenciamento especial será concedido até que o processo seja concluído.

“A principal mudança [com a nova resolução] foi entender que as especializações têm fins profissionais e são voltadas para o mercado de trabalho”, disse Marcelo Saraceni, presidente da Abipg (Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação).“

"O desafio, agora, é como será feita essa avaliação e saber se o mercado precisa dessa avaliação por parte do poder público”, afirmou Saraceni.

Por terem como objetivo principal a formação continuada e a atualização do profissional, os palestrantes defenderam que há um movimento das empresas que recebem os egressos desse curso que acaba por definir quais programas sobrevivem e quais morrem.

“Há uma regulação natural do mercado. Se o profissional não aprendeu, o certificado não valeu nada”, disse Josiane, da Abed.

Para Daniel Castanho, presidente do Conselho de Administração da Ânima Educação, o setor passa por transformações parecidas com as que ocorreram na indústria da mídia com a chegada da internet.

“Não dá mais para ter graduação e pós-graduação baseada em conteúdo. O conteúdo está disponível em todos os lugares. O papel da universidade é selecionar o que é importante para a carreira que você escolheu e o espaço da escola deve ser lugar para discutir, escutar opiniões diferentes e crescer”, disse Castanho.

O certificado, segundo o executivo, ficará obsoleto no futuro. O principal será o que o profissional de fato aprendeu e pratica no trabalho. “Teremos novos formatos e a pós-graduação vai acontecer de maneira natural, integrada com o trabalho.”

A educação a distância (EAD) não é mais assunto do futuro e tem um papel relevante ao puxar a expansão da pós-graduação no país por oferecer maior flexibilidade e menores preços, segundo Josiane.“

Hoje temos poucos técnicos para avaliar os cursos EAD, e o avaliador precisa ser um especialista nessa área. Tenho dúvidas se os instrumentos que temos para avaliar esses cursos conseguem aferir a qualidade de verdade”, concluiu.

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