Operadoras dão novo impulso a planos individuais

Empresas criam rede de atendimento própria e apostam na atenção primária para tornar esses planos sustentáveis

Mariana Lenharo
São Paulo

As operadoras de planos de saúde têm tentado dar um novo impulso aos convênios individuais, que são contratados diretamente pelo consumidor. 

 
Deco Farkas

Esses planos estão sujeitos a uma regulação mais rígida do que os empresariais e deixaram de ser oferecidos por muitas seguradoras. 

Das 755 operadoras em atividade no país, 284 (quase 38%) não vendem contratos individuais. Hoje, esses planos atendem hoje menos de 20% do total de beneficiários no Brasil. 

"Os convênios individuais foram sendo deixados de ser ofertados pelas operadoras à medida que os reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar passaram a não cobrir o aumento dos custos", diz Vera Valente, diretora-executiva da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar). 

Agora, as operadoras adotaram algumas estratégias para tornar esses contratos mais sustentáveis, entre elas o desenvolvimento de modelos voltados para a atenção primária, o foco em clientes mais velhos e o uso de rede de atendimento própria.

A NotreDame Intermédica está entre as empresas que têm buscado criar planos individuais sustentáveis.

No fim de setembro, a operadora lançou um convênio voltado para pessoas com 50 anos ou mais, o NotreLife 50+. Um dos pilares do novo produto é um programa de prevenção intenso. 

"Pode parecer contra intuitivo, porque são essas pessoas que tendem a usar mais os planos de saúde", diz Irlau Machado Filho, presidente do grupo. "Mas fizemos um equilíbrio entre a medicina preventiva, coordenação de saúde e plano de vida dessa pessoa a um preço justo." 

Ele afirma que o atendimento em rede própria também permite um controle maior sobre possíveis abusos e fraudes, elemento importante para a redução de custos

Foi um plano dedicado para idosos que a analista de importação e exportação Jéssica Faria de Carvalho, 30, escolheu para a mãe, Maria das Graças Faria de Carvalho, 60.

A procura por um plano individual durou meses. Além de tentar incluir a mãe como beneficiária de seu plano empresarial, sem sucesso, Jéssica pesquisou pela internet e conversou com consultores. 

Durante a busca, encontrou produtos de até R$ 2.100. O plano escolhido, da operadora Ativia, ficou em R$ 636 e oferece todo o atendimento em um único hospital de São José dos Campos, perto de Jacareí, onde Maria das Graças mora.

A Vitallis também entrou, há cerca de dois anos, no mercado de planos para idosos. Segundo o diretor comercial da operadora, Roberto Abou Id Dabes, o atendimento desses clientes é personalizado.

"Sempre que há uma compra, uma enfermeira entra em contato com o cliente, entende seu caso. Ele é inserido em programas de acordo com suas necessidades e tem consultas periódicas com geriatras, isentas de coparticipação." 

Na Unimed, a mudança do modelo assistencial em busca de planos individuais mais sustentáveis começou em 2011, quando novos produtos foram pensados para focar a atenção primária e ter um maior controle do fluxo do paciente, segundo Orestes Pullin, presidente da confederação de cooperativas. 

Ele explica que esses convênios partem do princípio que cada cliente tem um médico responsável. Esse especialista organiza as necessidades do paciente e registra tudo em um prontuário eletrônico. 

Em situações não emergenciais, o paciente consulta primeiro seu médico e, se precisar de atendimento especializado, é encaminhado para a rede secundária. Dessa forma, evitam-se consultas desnecessárias e pedidos de exames repetidos.

Segundo Pullin, estatísticas mostram que essa estratégia tem se tornado mais viável do que os planos mais tradicionais, de livre escolha.

Apesar disso, ele acredita que a substituição total dos planos tradicionais pelos focados em assistência primária ainda deve levar anos. "Temos que mudar a cultura tanto dos pacientes quanto dos médicos", diz. 

Valente, da FenaSaúde, afirma que o setor como um todo tem interesse em viabilizar a volta dos planos individuais. "Tanto que a FenaSaúde apresentou para debate sua proposta: permitir reajustes específicos para cada operadora, sujeitos a auditoria externa e análise da ANS." 

Para o diretor do Grupo Promédica, Jorge Oliveira, a carência de planos individuais no mercado pode ser vista como uma oportunidade para operadoras que são capazes de oferecer esse serviço. 

A Promédica lançou neste ano um convênio voltado para a rede própria da operadora.

"Por causa do aumento do desemprego, muitas pessoas estão prestando serviço como autônomos e se virando na informalidade. Elas acabam tendo capacidade para comprar um plano, mas falta oferta", diz Oliveira.

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