Descrição de chapéu Vida cultural na pandemia

Momento evidencia dificuldades de preservar a memória cultural

Distanciamento social obrigou o setor artístico a olhar para seu passado e buscar acervo

São Paulo

Com o baque da pandemia, o setor cultural foi impelido não apenas a repensar seus modos de produção, mas também a olhar para o seu passado.

Pegos de surpresa e sem tempo hábil para criar novos trabalhos para a internet, artistas e instituições decidiram, logo no início da quarentena, disponibilizar ao público seus materiais de acervo em sites e redes sociais.

Museus alimentaram suas páginas com coleções, companhias de teatro colocaram no ar versões filmadas de seus espetáculos. Todo esse resgate trouxe à tona uma questão: a preservação da memória nas artes.

O assunto é justamente um dos que guiam as recentes atividades do CPT, o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc São Paulo. Comandado por Antunes Filho por quase quatro décadas, o centro passou por uma reformulação depois da morte do diretor, em março de 2019, e retomaria as atividades no início deste ano.

Com a pandemia, tudo precisou ser repensado.

Uma das frentes dessa nova programação, que começou em setembro, foi disponibilizar no site (sescsp.org.br/sescdigital) materiais do acervo, como imagens de figurinos restaurados, vídeos e programas de espetáculos, além de promover debates sobre o tema.

Outra iniciativa foi a do Cine Teatro Brasil Virtual, que exibiu um marco do teatro brasileiro, a montagem de “O Balcão”, de Jean Genet, dirigida por Victor Garcia em 1969, num dos poucos registros do trabalho, feito pelo cineasta Jorge Bodanzky.

Também no caminho de resgatar obras antigas foi o circuito de artes cênicas Faroffa. Em agosto, a mostra teve uma edição online com 130 espetáculos, alguns com mais de 20 anos.

“Num primeiro momento, criar novos trabalhos me parecia uma coisa sem muito sentido”, diz a produtora Gabi Gonçalves, uma das idealizadoras do evento. “Fui atrás da história dos artistas e de coisas guardadas no fundo da gaveta, de reativar aquilo que a gente já tem e que o mercado não costuma ter interesse.”

Ao voltar-se para esse acervo, também ficou evidente a dificuldade de preservação no setor. Filmagens de espetáculos, por exemplo, são comumente feitas para registro interno ou negociação com festivais.

Assim, é raro que se gaste com uma gravação de qualidade (o que não sairia por menos de R$ 5.000). Digitalizar materiais também é um processo caro e bastante trabalhoso, e muitas vezes deixa de ser prioridade.

“Outro problema que o digital nos coloca é o entendimento que sempre há alguma perda”, comentou Helena Barranha, professora de história da arte na Universidade do Porto, durante um encontro da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. “Quando se digitalizam obras que existem em formato físico, uma parte substancial da experiência se perde. Nem todas as obras de arte são feitas para serem duráveis.”

Além disso, diz Gabi Gonçalves, o ambiente online “ainda é muito nebuloso para nós. Muitos artistas se sentem travados para criar. Mas não dá mais para não pensar no registro, deixar de lado o digital. Aquele lugar que tínhamos antes não vai existir por muito tempo e talvez nunca mais exista do mesmo jeito”.

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