Descrição de chapéu Vida cultural na pandemia

Soluções internacionais apontam para vida cultural híbrida no futuro

Forçados a mudar, museus ampliam brechas de criação artística e relação com o público

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São Paulo

Mesmo após a pandemia, o setor cultural deve manter o hibridismo com o meio virtual, na previsão de artistas e produtores. Seja em encontros e debates, que podem agregar mais pessoas e reduzir custos de transporte e hospedagem, seja com materiais extras, que complementam a experiência presencial.

Alguns casos já mostraram resultados positivos. A feira de arte Frieze New York, que se adaptou às pressas a uma versão online, em maio, viu com surpresa os bons números de venda, com cifras de até sete dígitos para as galerias. Parte do sucesso veio do investimento numa boa experiência virtual, com facilidade de busca, transparência de preços e uso da tecnologia de realidade aumentada, que permitia aos visitantes ver como as obras ficariam em suas casas.

O investimento da cultura no meio digital, afinal de contas, não é um pensamento novo. Até esse tempo de restrições causadas pelo novo coronavírus teria algo de previsível: em 2008, um jogo de simulação de cenários já sugeria algo similar ao que vivemos hoje. O Superstruct, criação do Institute for the Future, think thank sediado na Califórnia, simulava cinco ameaças à humanidade. Uma delas era a pandemia de uma doença respiratória, que colocava o mundo em quarentena.

Não por acaso, uma das principais soluções apontadas pelos participantes era a integração da cultura com o ambiente digital.

O MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, expandiu a presença online que já vinha reforçando nos últimos anos –segundo a instituição, há um público online de mais de 30 milhões de pessoas no mundo.

Além dos mais de 84 mil trabalhos disponíveis no site, o museu lançou em abril uma série chamada Virtual Views, com vídeos que exploram detalhes das obras, entrevistas com curadores e textos explicativos. O mais recente, lançado no início do mês, conta com um modelo 3D de “Noite Estrelada”, um dos mais famosos quadros de Van Gogh.

O Centre Pompidou, em Paris, que voltou a fechar as portas com a segunda onda do coronavírus na Europa, lançou, além de exposições virtuais e podcasts, um jogo interativo chamado Prisme7. Passeando pelo museu, o usuário explora conceitos de luz e cores, além dos aspectos sensoriais de obras como “Big Electric Chair”, de Andy Warhol.

Outro projeto antigo, ensejado desde os anos 1990 pelo inglês Stuart Semple, só nasceu neste ano e casou bem com o momento. O Voma é um museu todo virtual —até sua arquitetura, bem realista, é criação digital. Mas o passeio traz imagens de obras reais, coleções de locais como o Musée d’Orsay e o MoMA.

Além de vídeos e textos explicativos, há uma cafeteria, que funciona como sala de bate-papo.

Mesmo no presencial, algumas produções se moldaram a estes tempos. O mexicano Abraham Cruzvillegas, que planejava uma instalação interativa (e de muito contato) no Bass Museum, em Miami, acabou por criar uma nova obra, na área verde em torno da instituição. “Agua Dulce”, que simula sons e o frescor da natureza, não só casou com o distanciamento social, mas criou um oásis relaxante para o estresse pandêmico.

Em Roterdã, o museu Boijmans Van Beuningen veio com outra solução, exibindo parte de sua coleção num esquema drive-through. Em um galpão de 10 mil m², visitantes podiam acessar trabalhos em grandes dimensões, que tratavam da relação entre homem e natureza, de dentro de carros elétricos. Foi algo organizado de última hora, para atender às medidas de distanciamento, mas atraiu 22 mil visitantes em três semanas de exibição em agosto passado.

Outra experiência dentro de carros começou em julho, em Toronto, e segue em exibição. “Gogh by Car” propõe imersão em obras do holandês Vincent van Gogh num percurso de 35 minutos, em que motoristas assistem a projeções aumentadas das telas num galpão de 4.000 m².

São experiências que não substituem o encontro e a visita presencial, mas ampliam as possibilidades da produção artística e a relação com o público.

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