Descrição de chapéu Vida cultural na pandemia

Promoções e protocolos tentam estimular retorno do público a espaços culturais na pandemia

Locais com plateias ampliam rotinas de segurança; maioria pretende voltar a participar de atividades, diz Datafolha

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São Paulo

Espaços culturais tentam atrair o público de volta e vencer a insegurança do retorno com promoções, preços menores e, especialmente, protocolos ampliados contra a contaminação por Covid-19.

Desde 29 de junho, quando o governo colocou capital e parte da Grande São Paulo na fase amarela, atividades com plateia estão permitidas. Teatros, cinemas e casas de shows puderam retomar a programação, mas só com público sentado e respeitando o limite de 40% da capacidade.

Os cinemas ainda demoraram dois meses para planejar a reabertura. E o retorno do público foi morno.

Na primeira cinessemana da reabertura, entre 1 e 7 de outubro, as 805 salas brasileiras que abriram as portas (23% do total) receberam 77.327 pessoas, o que dá menos de 14 pessoas por dia, em cada sala.

Em novembro, o cenário começou a mudar. Com a progressão para a fase verde, 2.569 salas já estavam reabertas e 439.744 pessoas correram para o escurinho.

As promoções ajudam. Na rede Kinoplex, os ingressos estão 30% mais baratos. Desde 7 de dezembro, as entradas para as salas vip, cujo preço regular chega a R$ 70, estão sendo vendidas a R$ 15.

Para Patricia Cotta, 52, gerente de marketing da rede Kinoplex, são os rígidos protocolos de segurança e higienização adotados que têm encorajado o público a voltar.

As regras foram estabelecidas pelo movimento Juntos Pelo Cinema, que reuniu mais de 280 profissionais do mercado de audiovisual.

"Mapeamos em detalhes a jornada de espectadores e funcionários, para saber em que momentos exatos as pessoas colocam as mãos na pipoca, no dinheiro, no cartão. A partir daí, criamos protocolos adicionais aos estabelecidos pelo governo", diz Cotta, que liderou o grupo dedicado a segurança e bem-estar.

Assim que uma pessoa compra um ingresso, pela internet ou nos terminais de autoatendimento, todas as poltronas ao redor são bloqueadas. Até na fase verde, que vigorou de 10 de outubro a 30 de novembro, o limite de lotação não ultrapassou os 40%. O consumo é restrito à sala de exibição. A máscara pode ser retirada para comer ou beber.

"Como desativamos as bilheterias, os funcionários foram deslocados para a função de lanterninhas. A cada 20 minutos, percorrem as salas para verificar se todos estão cumprindo as determinações''.

Procedimentos parecidos foram adotados no Teatro Alfa. A programação presencial foi retomada em novembro, com plateias limitadas.

Para atrair o público, o teatro exibe o selo Safeguard, conferido pelo Grupo Bureau Veritas, que atesta o respeito a todos os protocolos de higiene, e pratica preços mais baixos. O ingresso mais caros, que chegava a R$ 200 antes, hoje não passa dos R$ 100.

Segundo Fernando Guimarães, 68, gerente do Alfa, o público tem aparecido. "A apresentação de Toninho Ferragutti e Quinteto de Cordas teve 188 pessoas na plateia, e a da São Paulo Companhia de Dança chegou a 200", diz.

Os resultados corroboram a pesquisa sobre hábitos culturais realizada por Itaú Cultural e Datafolha.

Das 1.521 pessoas entrevistadas em setembro, com idades entre 16 e 65 anos, 66% disseram pretender participar presencialmente de alguma atividade cultural nos próximos meses.

Para isso, porém, as medidas de segurança foram apontadas como fundamentais: 58% afirmaram que os espaços devem permitir o distanciamento, 55% citaram a obrigatoriedade de máscaras e 53% só se sentem seguros quando há equipamentos de higienização à disposição do público.

Entre os jovens de 16 a 24 anos, a preocupação é ainda maior. Fazem questão do distanciamento 67% deles.

O baixista e guitarrista Valentim Frateschi, 17, não passava uma semana sem bater ponto em shows de música independente. Os eventos já voltaram, mas ele ainda não flexibilizou a quarentena. Sua banda, Os Fonsecas, também foi convidada a se apresentar, mas ele recusou. "Não me sinto seguro. São espaços pequenos, não seria possível manter o distanciamento", diz.

Cinéfila de carteirinha, Marina Benini, 23, preferiu adiar a volta aos cinemas. "Adorava me reunir com amigos depois da sessão. Mas cinemas são lugares muito fechados."

A incerteza do público e a nova alta na taxa de contágio dividem empresários.

Sócio da casa de shows Blue Note, Facundo Guerra se surpreendeu com a venda de ingressos logo após a reabertura. Na primeira noite, em 5 de novembro, a apresentação da banda Grooveria teve lotação esgotada, com plateia limitada a 40% da capacidade máxima.

"A reabertura foi bombástica, o clima era de pandemia acabando", afirma Guerra.

Desde que a notícia da segunda onda começou a circular, porém, o movimento vem diminuindo. A procura pelos shows caiu pela metade.

"Fechamos a casa para o recesso de fim de ano e provavelmente só vamos abrir de novo quando São Paulo entrar na fase azul. Está muito difícil operar com a plateia reduzida, a conta não fecha."

Já o MIS (Museu da Imagem e do Som), que voltou a funcionar no dia 16 de outubro com a exposição John Lennon em Nova York por Bob Gruen, mantém-se firme no propósito de reabrir sua outra unidade, o MIS Experience, no dia 1º de janeiro de 2021.

A mostra Leonardo da Vinci — 500 Anos de um Gênio, que estreou no final de 2019, será retomada com adaptações.

Segundo o diretor cultural do MIS, Cleber Papa, os percursos foram modificados para garantir maior distanciamento. As letras dos textos foram ampliadas, para que ninguém precise se aproximar muito das réplicas.

Novas áreas foram criadas, com projeções e a exposição Monalisa Illusions. "Como a interatividade da mostra diminuiu, criamos essa área instagramável para que as pessoas possam brincar de tirar selfies".

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