Pandemia põe em evidência habilidades emocionais dos trabalhadores

Profissionais tiveram que demonstrar capacidade de adaptação, dizem debatedores

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São Paulo

A realidade para a qual muitos trabalhadores foram empurrados nos últimos meses, ao terem que transferir o espaço de trabalho para dentro de suas casas e reinventar a rotina profissional, dá o tom de algumas das habilidades caras para a carreira do futuro. A pandemia testou as capacidades de adaptabilidade, comunicação e equilíbrio emocional das pessoas num tempo recorde e sem preparo prévio.

Essas, segundo especialistas ouvidos durante o primeiro painel do webinário O Futuro da Carreira & A Carreira do Futuro, são algumas das principais competências que o mercado de trabalho cobrará daqui para a frente. O evento foi realizado pela Folha, com apoio do Senac-SP, na última terça-feira (9).

Habilidades socioemocionais, como autoconhecimento e autodesenvolvimento, agilidade de aprendizado e pensamento crítico são outras das características comuns mencionadas por todos os debatedores para o mercado de trabalho que se delineia nos próximos anos.

“As competências fixadas num simples conhecimento técnico acabam ficando mais para o final da fila, dando lugar para a habilidade de se reinventar e para a flexibilidade”, explica a professora Tania Casado, diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP.

O projeto, inaugurado na instituição em 2015, oferece aconselhamento de carreira, oficinas e palestras para a comunidade universitária, além de encabeçar pesquisas interdisciplinares.

“Se, em outro momento, o importante era o que você sabia, agora, além do que você sabe, é importante quem você é e como você vê o mundo, como observa a sua participação e interação na vida e no trabalho”, acrescenta Ricardo Felix, consultor pedagógico do Senac-SP.

A ideia, ainda que divirja das visões mais tradicionais de carreira, coloca em protagonismo o indivíduo: agora, valem muito mais as experiências vividas e um profissional que entenda o que pode agregar à empresa.

“No primeiro dia de trabalho, é importante que os profissionais saibam o que eles já trazem consigo que pode fazer a diferença ali. Isso é a base do autoconhecimento”, diz Fernanda Amorim, sócia da Page Executive Brasil, empresa de recrutamento.

Entre muitos dos trabalhadores já no mercado e aqueles que buscam se inserir pode haver um choque de percepção. De acordo com os especialistas, existe uma “mudança de identidade” em curso. De uma geração que busca segurança num trabalho contínuo em um mesmo lugar, o mercado dá boas-vindas a outra que quer mais experiências e tem menos medo de se reinventar.

A família tem papel importante nessa mudança. “Nós precisamos conscientizar os pais de que os filhos não necessariamente vão ter a mesma trajetória que eles”, reforça Casado, da USP.

“Agora, pouco falamos de profissão, mas sim de carreira”, diz. “Carreira é a sequência de experiências pessoais de trabalho ao longo do tempo.”

No leque de experiências, o profissional deve listar não só o trabalho remunerado. “Nós aprendemos muito com o trabalho voluntário, por exemplo. Se você estiver atento, vai notar que aquilo que fez no passado ajuda a ser um profissional melhor hoje e amanhã.”

A responsabilidade por aprimorar essas competências, concordam os convidados, não é somente do trabalhador. Empresas e instituições de ensino superior e técnico também devem tomar para si a responsabilidade.

Amorim, da Page Executive, afirma que as organizações têm, cada vez mais, entendido a importância de desenvolver seus colaboradores e fazer contratações com base em habilidades que vão além do conhecimento técnico.

“Vejo muitas empresas fazendo assessment [avaliação] comportamental, testes que tentam mapear as habilidades pessoais, e não apenas técnicas, dos profissionais. É algo que não existia antes”, relata.

Valorização da criatividade e da empatia também estão mais presentes no ambiente corporativo. Para estimular essas características, diz Amorim, projetos sociais nos quais os colaboradores possam participar voluntariamente, como os focados em sustentabilidade, são uma boa estratégia.


Assista à íntegra do webinário


Outra tendência observada é a diminuição de hierarquias. “As empresas têm cada vez menos níveis de senioridades, para que as estruturas sejam mais fluidas e o profissional experimente diferentes áreas.”

A crise sanitária desencadeada pela pandemia impulsionou outro movimento em muitas empresas, que reforçaram maneiras de assegurar o bem-estar físico e emocional de seus colaboradores. Nessa tar​efa, os profissionais de recursos humanos têm posição estratégica, diz a especialista da Page Executive.

No campo do ensino, se tornam ainda mais importantes iniciativas que façam os estudantes interagirem com o mercado de trabalho. “Projetos se tornaram um meio para o aluno vivenciar a realidade do mercado, trabalhando suas habilidades socioemocionais e o conhecimento técnico de forma acessível”, diz Ricardo Felix, do Senac.

A figura dos educadores é essencial. “O papel da lapidação do ser não é substituído pela automação ou por robôs. A carreira do professor continua, apesar de ressignificada, e ele passa a ser, além de um detentor do conhecimento, um mediador do processo de aprendizagem”, conclui.

O webinário foi mediado pela repórter Thaiza Pauluze.


TENDÊNCIAS PARA OS PRÓXIMOS 5 ANOS

Apontadas em relatório do Fórum Econômico Mundial (2020)

Número de vagas
43% das empresas pesquisadas estão decididas a reduzir a força de trabalho devido à integração de tecnologia; 34% planejam expandir a criação de vagas por esse fator

Tempo de trabalho
Em 2025, o tempo gasto em tarefas no trabalho por humanos e máquinas será igual

Habilidades dos líderes
Pensamento crítico, capacidade de análise e de resolução de problemas, aprendizagem ativa, resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade

Treinamento constante
Cerca de 40% dos trabalhadores precisarão de requalificação em seis meses ou menos; 94% dos líderes de negócios esperam que os funcionários adquiram novas habilidades no trabalho, um aumento em relação aos 65% registrados em 2018

Digitalização
84% dos empregadores estão preparados para digitalizar rapidamente os processos, incluindo uma expansão significativa do trabalho remoto (potencial para mover 44% da força de trabalho para operar remotamente)

Engajamento 
Cerca de um terço dos empregadores espera tomar medidas para criar um senso de comunidade, conexão e pertencimento entre os funcionários por meio de ferramentas digitais e para enfrentar os desafios de bem-estar colocados pela mudança para o trabalho remoto

Fonte: Relatório “O Futuro dos Empregos”, em pesquisa com 291 líderes de empresas globais.

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