Caixa d'água do país, cerrado é central na segurança alimentar

Governador de Mato Grosso e especialistas divergem sobre possibilidades de exploração do bioma

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São Paulo e Rio de Janeiro

O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), afirma que, em dez anos, o estado pode dobrar sua produção agrícola sem desmatar. Para isso, diz serem bem-vindas alterações que desburocratizem o licenciamento ambiental. Elogia o projeto de lei 3.729, criticado por ambientalistas, que flexibiliza essas regras.

“Tira um pouco dessa ‘burrocracia’ que inferniza as pessoas de bem, afasta investimentos do país e deixa o meio ambiente vulnerável”, diz.

As declarações foram dadas na abertura do 5º fórum Agronegócio Sustentável, realizado pela Folha no dia 20 de maio.

Questionado sobre a importância de investir em frutas e plantas nativas do cerrado —bioma que tem 17% de sua vegetação em Mato Grosso—, e não apenas em monoculturas, como a de soja, afirma não ver grande potencial. “O cerrado era altamente improdutivo. Tiravam alguns pequis, umas frutas nativas, mas não tem valor econômico.”

Especialistas que participaram do primeiro painel do evento discordam dessas opiniões. “É uma visão ultrapassada pelo conjunto de evidências científicas que temos hoje”, diz a bióloga Mercedes Bustamante, professora na Universidade de Brasília (UnB).

Ela afirma que a enorme biodiversidade do bioma pode ser um ativo para o país, inclusive em potenciais soluções de segurança alimentar, já que frutos pouco conhecidos da região poderiam agregar qualidade nutricional à mesa do brasileiro. Um exemplo é o baru, castanha rica em nutrientes. “Segurança alimentar é produção de qualidade em ambiente não degradado”, observa.

A bióloga chama a atenção para a janela de tempo disponível para adotar práticas mais sustentáveis no cerrado. Ela vem diminuindo. O bioma, que originalmente ocupava 23% do território brasileiro, tem sido desmatado. Somente em 2020, 7.300 km² de vegetação nativa foram retirados, um aumento de 13% em relação ao ano anterior.

No acumulado dos últimos dez anos, 89 mil km² —área equivalente a 59 vezes a capital paulista— foram desmatados, de acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

A situação coloca em risco a segurança hídrica, já que o cerrado compreende nove das 12 bacias hidrográficas do país, e já começa a ser sentida pelos produtores locais. A longo prazo, pode haver redução das condições para a agricultura na região.

Se somada à emergência climática mundial, a realidade fica ainda mais crítica, diz Michael Becker, líder de implementação regional do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês).

“A fazenda do futuro passa por uma diversificação. Se tiver mais monoculturas, o produtor corre o risco de perder toda a sua safra em eventos climáticos extremos. Quanto mais diversa for, mais seguro ele está.”

Sobre as possibilidades de regeneração do bioma, Bustamante, da UnB, explica que uma das principais alternativas é a recuperação de pastagens que estão em estado de degradação.

Atualmente, cerca de 60% das pastagens do cerrado têm algum indício de degradação e 25% têm degradação severa, segundo levantamento da UFG (Universidade Federal de Goiás).

Aproximadamente um quinto das pastagens do bioma —área equivalente a 11 mil hectares— possui aptidão para grãos, o que significa que pode ser usada para expandir a produção de soja, por exemplo, sem devastar área alguma. Do montante, 70% têm indícios de degradação.

Regenerar as pastagens foi a alternativa que o chef Matheus Sborgia encontrou quando herdou do avô 50 hectares de terras no município de Inocência (MS) em 2016. “Estava em extrema degradação, puro deserto por conta da pecuária extensiva”, descreve.

Sem dinheiro para novos investimentos e com ampla bagagem sobre sistemas alimentares, tema que estudou mundo afora, ele optou pelo manejo holístico e pela rotação de pastagens para recuperar a vegetação.

“Arrendei minhas áreas para o vizinho e virei produtor de capim. Produzia capim para o gado do outro que, por sua vez, estercava minha terra.”

Sborgia foi na contramão do que vinha sendo feito na vizinhança e hoje dá consultorias sobre o assunto para outros produtores.

O seminário foi mediado pela jornalista Bruno Blecher e teve patrocínio do governo de Mato Grosso, da Mosaic Fertilizantes e da Ambipar.


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