Queda nos casos de raiva em cães leva a descuido com a doença, dizem debatedores

Animais silvestres infectados ainda representam um risco ao homem no campo e na cidade

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Quando era adolescente, Marciano Menezes da Silva, hoje com 28 anos, se tornou o primeiro brasileiro e a segunda pessoa do mundo a sobreviver à raiva humana, em setembro de 2008.

Após ser mordido no tornozelo por um morcego enquanto dormia na sua casa, na zona rural de Floresta (a 435 km do Recife), ele não recebeu o tratamento inicial adequado —doses de vacina e soro antirrábicos.
Cerca de um mês depois, começou a apresentar os primeiros sintomas, entre eles tontura, dor de cabeça forte e fraqueza nas pernas.

Marciano foi encaminhado para o Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, e foi submetido a um tratamento criado em 2004 pelo médico americano Rodney Willoughby, que prevê a indução do paciente ao coma e o uso de antivirais.

Após mais de cem dias internado, ele teve alta, mas convive com sequelas da doença. Marciano não anda, tem dificuldades motoras, alteração na fala e toma drogas para controlar convulsões.

Apesar de ter uma mortalidade de praticamente 100%, a raiva é uma doença tratável cuja profilaxia está disponível no SUS (Sistema Único de Saúde). Por isso, Marciano diz: “Quem for mordido procure atendimento médico”.

Ele participou do seminário Vacinação Contra Raiva Humana, promovido pela Folha com patrocínio da Sanofi, que reuniu especialistas para falar sobre os riscos dessa doença.

No caso da raiva, há dois tipos de profilaxia: pré-exposição e pós-infecção. A primeira, composta por três doses da vacina, com intervalos de sete e 21 dias entre elas, é destinada às pessoas que estão em exposição direta ao vírus, como biólogos e moradores de zonas rurais.

O veterinário com especialização em saúde pública Helio Langoni explica que, diferentemente de outras vacinas, a antirrábica não garante proteção a longo prazo.

Por isso, profissionais devem fazer o teste de sorologia anualmente para confirmar se estão mesmo protegidos, mas, segundo Langoni, ainda há muita negligência.

“Há pessoas que não fazem [a profilaxia] ou que tomam a vacina uma vez e trabalham dez anos sem se preocupar com a avaliação sorológica”, diz. Ele cita práticas como a da Unesp (Universidade Estadual Paulista), onde é professor, que só aceita estagiários mediante a apresentação de carteirinha de vacinação e exame imunológico.

Segundo Marco Antônio Natal Vigilato, médico-veterinário e conselheiro de Saúde Pública da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), a falta de cuidado está relacionada com a percepção de risco da doença no país.

Como o número de casos de raiva em cães diminuiu bastante nas últimas décadas, há a sensação de que a doença não é um problema —em 1999, o Brasil teve 1.200 casos de raiva canina, enquanto em 2020 foi apenas um, segundo dados mais atuais do Ministério da Saúde.


Veja, abaixo, vídeo do seminário


“A pessoa acaba não procurando o serviço de saúde quando é mordida”, diz Vigilato. Ele concorda que a falta de cuidado se estende aos profissionais de saúde, que podem não fazer a avaliação adequada e comprometer o tratamento dos pacientes.

No caso da raiva, a demora para iniciar a terapia pode ser a diferença entre vida e morte. Como explica Langoni, se o vírus chega ao sistema nervoso central, o quadro fica mais complicado.

Para os debatedores, as campanhas de vacinação de animais associadas às outras medidas de controle, como a profilaxia para quem tem maior risco de contrair a doença, resultaram na redução de casos de raiva humana.

O veterinário Rodrigo Donati vacina a yorkshire Aisha, 2,  contra a raiva no pershop Bichos da Mata, no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo
O veterinário Rodrigo Donati vacina a yorkshire, Aisha, 2, contra a raiva no pershop Bichos da Mata, no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo - Karime Xavier - 26.mai.2021/ Folhapress

Mesmo com a melhora, o pediatra e epidemiologista José Geraldo Leite Ribeiro chama a atenção para a transmissão a partir de animais silvestres. “Ainda acontece. Se cães ou gatos têm o hábito de brincar com morcegos e nós baixamos nossas coberturas, a possibilidade de contaminação existe.”

Vigilato complementa: “Morcego saudável tem que estar voando, por isso é preciso ter cuidado se encontrar algum dentro do guarda-roupa ou embaixo da cama”.

Em 2020, devido à pandemia, a campanha de vacinação de cães e gatos foi adiada, embora esteja disponível nos serviços de saúde.

Leite Ribeiro reforça a importância do controle epidemiológico. “Cão e gato vadio ninguém leva pra vacinar. Se o município não tem política de controle, aquela cobertura vacinal baseada em estimativa pode não ser tão boa.”

O seminário foi mediado pela jornalista e médica-veterinária Sílvia Corrêa.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.