Confinados, moradores se cansam da própria casa e procuram reformas

Mau uso de espaços e falta de ergonomia estão entre as principais reclamações, dizem arquitetos

São Paulo

Uma demanda curiosa tem mantido os escritórios de arquitetura e design de interiores em atividade.

De acordo com a arquiteta Isabella Nalon, de São Paulo, os clientes estão praticamente redescobrindo suas casas —e nem sempre ficam felizes com o que veem. "As pessoas têm tido mais tempo para reparar nos problemas e não querem continuar convivendo com eles", afirma.

Parte dos clientes, diz a arquiteta, opta por operar transformações rápidas, trocando móveis e a cor das paredes, por exemplo. Mas há quem já planeje reformas maiores.

É o caso da dentista Barbara Silvestre, que pediu à arquiteta um novo projeto para a varanda do apartamento onde vive com o marido, Fellipe, também dentista, e os filhos Rafaella, 10, e Enrico, 6.

A insatisfação com o ambiente, ela conta, começou durante o isolamento, quando vizinhos organizaram um show na quadra de tênis do condomínio, e a família assistiu à apresentação da varanda.

Família com dois adultos e duas crianças em varanda
Os dentistas Bárbara e Fellipe Silvestre, com os filhos Rafaella e Enrico, na varanda do apartamento no Panamby, em São Paulo - Mathilde Missioneiro/Folhapress

"Notamos que é um espaço muito bom, que sempre foi pouco aproveitado por não ser aconchegante. Como a gente saía de casa de manhã e voltava à noite, ninguém notava."

Em reuniões por vídeo, Barbara e Isabella têm definido os detalhes da reforma, que vai começar assim que o isolamento social terminar.

"Além de instalar uma porta de correr, quero colocar poltronas, uma mesa de centro e uma parede verde com orquídeas, para transformar a varanda em uma nova sala de estar", adianta a moradora.

Insatisfações com o home office, dizem os profissionais, estão entre as mais comuns no momento. Quando encomendou o projeto de decoração de seu apartamento à arquiteta Bel Urtiga, a administradora de empresas Camila Bado pediu que fosse incluído um pequeno escritório.

Uma bancada foi encaixada no canto da sala de TV. Camila e o marido, que é engenheiro, raramente trabalhavam em casa. Durante a pandemia, o casal passou a dividir o espaço e descobriu problemas que, até então, tinham passado despercebidos.

"Privilegiamos a sala de TV e deixamos o escritório em segundo plano. Agora, descobrimos que a iluminação é ruim, e a cadeira, inadequada. Compramos um modelo bonito, sem pensar na ergonomia", diz Camila.

Como a janela fica muito próxima do apartamento vizinho, os moradores mantêm a persiana sempre fechada. Por isso, Bel sugeriu o reforço da iluminação artificial, com lâmpada fria logo acima da bancada e luz de leitura na mesa.

Além disso, a arquiteta está abrindo espaço para um escritório exclusivo para o marido de Camila, em outro cômodo do apartamento, já que ele pretende continuar trabalhando em casa após o fim do isolamento.

Reuniões remotas com a arquiteta Cris Schiavone também estão resolvendo o problema da cliente Ana Paula Navarro e de seu marido, Roberto Lacerda.

Os dois trabalham em indústrias paulistanas e decidiram enfrentar o período de isolamento social na casa de fim de semana que mantêm em Pariquera-Açu, no sul do estado de São Paulo.

Como vão construir perto dali em breve, eles tinham alugado uma casinha simples, como ponto de apoio provisório. "Dias depois da chegada, a Ana Paula começou a me ligar desesperada, porque não aguentava mais conviver com os ambientes mal acabados", conta a arquiteta.

Desde então, Cris tem passado orientações a distância ao casal. Propôs mudanças baratas e de grande efeito, como a troca de alguns móveis e a reforma de outros, novas cores para as paredes e a aplicação de adesivos comprados pela internet. O próprio casal colocou a mão na massa.

"Tem sido um prazer mexer com tinta, descascar e pintar paredes e janelas. Descarregamos a angústia e terminamos os dias exaustos, mas felizes", confessa Ana Paula.

Mas há quem esteja descobrindo dentro de casa problemas impossíveis de contornar. A médica carioca Gisele Zeitune mora há dois anos em um apartamento de 70 m² em Ipanema, que sempre foi seu bairro preferido.

Mulher sentada em cama, em quarto
A medica Gisele Zeitune em seu apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro - Zo Guimaraes/Folhapress

"Achei o imóvel lindo demais. Fica em um prédio antigo, mas tinha o interior todo reformado e bem moderno. Na época, senti que havia tirado a sorte grande", lembra.

A rotina intensa de trabalho, entre consultório e hospitais, não permitiu que ela notasse uma série de problemas.

Desde março, quando começou o isolamento, Gisele passou a achar a sala apertada. Também tem incomodado o fato de o apartamento ser de fundos, sem vista e muito próximo de outros edifícios.

"Percebi que não basta o imóvel ser bonito. O importante é o sol entrar e haver privacidade. Ouço tudo o que os vizinhos falam."

A busca por um novo apartamento já começou, com a ajuda da startup EmCasa. Por enquanto, as visitas são realizadas de forma virtual.

"Busco pelos detalhes que, agora, considero mais importantes. Quero um apartamento com mais espaço para receber os amigos e que tenha vista, para que eu não volte a sofrer com essa sensação de confinamento", diz Gisele.

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