Descrição de chapéu Destinos

Como sobreviver ao Vale da Morte, na Califórnia, o lugar mais quente da Terra

Visitantes enfrentam aridez sufocante e temperaturas extremas para conhecer dunas coloridas e deserto de sal

Zabriskie Point, formação rochosa de coloração dourada, no Death Valley

Zabriskie Point, formação rochosa de coloração dourada, no Death Valley Leonardo Neiva/Folhapress

Death Valley (Califórnia)

De qualquer lado que você vier, as montanhas de pedra marrom, no horizonte de uma estrada sem fim, são o primeiro sinal de proximidade do Death Valley (o Vale da Morte), nos Estados Unidos. 

Uma vez dentro dele, os visitantes podem se deparar com dunas e morros de cores variadas, formações de lava vulcânica e um deserto de sal com mais de 500 km² de extensão.

Mas, para ver tudo isso, não basta percorrer as dezenas de quilômetros que separam cada uma das atrações do parque. É preciso enfrentar uma aridez sufocante e temperaturas extremas, que no verão chegam perto dos 50ºC.

Localizado na parte leste da Califórnia e ao norte do deserto de Mojave, o parque Death Valley, que tem 7.800 km² de extensão, mantém até hoje o recorde de maior temperatura da Terra: foram 56,7ºC, registrados em 1913.

Apesar do calor excessivo, o número de turistas vem crescendo e alcançou seu ápice em 2018: 1,68 milhão de visitantes. Pode-se imaginar que a maioria dessas visitas ocorre no inverno, quando as máximas giram em torno de 20ºC. Mas não é o que acontece.

No ano passado, o principal fluxo de turistas foi em agosto, mês em que os termômetros passam com frequência dos 40ºC. Segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA, muitos chegam buscando justamente as altas temperaturas, para provar que estiveram de fato no lugar mais quente da Terra.

O repórter visitou o Death Valley entre o fim de agosto e o início de setembro, quando o termômetro marcava acima dos 48ºC. Dias antes, duas pessoas haviam morrido: uma delas em um acidente de carro e outra com suspeita de enfermidade causada pelo calor, causas comuns de fatalidades no parque.

Para evitar esses casos, a administração recomenda que, no verão, turistas não façam caminhadas longas após as 10h, bebam quatro litros de água por dia e saiam do sol caso sintam tontura ou enjoo. Para os motoristas, a recomendação é para permanecer nas vias asfaltadas e prestar atenção nas estradas.

Se o calor é considerado uma atração a mais do Death Valley, são as paisagens —muitas delas eternizadas pelo cinema— que fazem a viagem valer a pena.

Entre os pontos mais procurados estão as dunas de Mesquite Flat, na região central do parque, cenário pelo qual circulou o robozinho R2D2 em uma cena de “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança”.

Ali, as pessoas abandonam por alguns minutos o conforto do carro e do ar-condicionado para dar passos na areia sob um sol escaldante. A maioria não se arrisca muito. Anda algumas dezenas de metros, aproveita a vista, tira suas fotos e volta já ofegante ao estacionamento.

As paisagens ficam mais bonitas no interior do parque. No entanto, quem vai muito longe em meio às dunas corre o risco de passar por maus bocados na volta, quando o corpo, abatido pela caminhada no calor, luta para andar sobre a areia quente. Nesse caso, chegar ao carro equivale a encontrar um oásis no deserto.

Algumas das vistas mais belas de todo o parque ficam a 76 km das dunas, no topo do Dante’s View (vista de Dante, em português), de onde se enxerga um panorama da parte sul da bacia do Death Valley. 

De cima, o vale é uma mistura do marrom terroso do solo com o branco dos sedimentos ali depositados no decorrer de milhões de anos, escurecidos em alguns pontos por nuvens do céu.

Da montanha, se vê parte da bacia de Badwater (água ruim, em português), o ponto mais baixo dos Estados Unidos —86 metros sob o nível do mar. No local, uma crosta de sal cobre boa parte do solo branco, que fica meio sujo com as pegadas dos turistas. Algumas raras poças se formam no chão, mas, como o nome indica, a água é imprópria para o consumo. 

Foi também ali que o repórter registrou a temperatura mais alta da viagem: 48,3ºC, por volta das 16h.

A vontade dos turistas de caminhar sobre a crosta de sal é compreensível. Basta dar alguns passos para alcançar um estado de um silêncio quase completo, interrompido pelo ruído ocasional dos carros e por conversas esparsas dos demais visitantes. 

É comum ouvir frases em francês, alemão, italiano, espanhol e japonês, denotando o interesse internacional na região. Já o português, tão escutado em outros lugares, passou em branco.

Badwater fica na região que mais concentra atrações. Além dela e do Dante’s View, há Zabriskie Point, formação rochosa de coloração dourada, que foi cenário do filme homônimo do cineasta Michelangelo Antonioni. 

A alguns quilômetros se encontra a Artists Drive (via dos artistas, em português), trajeto em que se contempla uma variedade de cores na superfície das montanhas, do rosa ao verde fosforescente.

Ao longo do passeio, alguns turistas loucos por selfies podem se frustrar. No calor, celulares correm risco de sobreaquecimento, travam e enviam avisos de desligamento. Além disso, a internet não funciona no parque, tornando impossível o acesso a redes sociais. É melhor deixar o aparelho na sombra do automóvel.

Muitas atrações só podem ser alcançadas de carro. Para quem pretende permanecer nas vias principais, não há problema em usar automóveis compactos. Mas, se a intenção for se embrenhar por estradas de terra e cascalho, a dica é buscar veículos de tração nas quatro rodas.

Há uma taxa de US$ 30 (R$ 122,70) para entrar no parque, válida por uma semana, mas é raro ver veículos com o selo que comprova o pagamento. Não há guichês nem muitos locais dentro do vale em que o valor pode ser pago.

O parque conta com ótimas estradas e boa infraestrutura, mas há um problema: os banheiros. As privadas, impraticáveis no verão, são meros buracos no chão dentro de cabines de madeira e se tornam depósitos de dejetos. Potencializado pelo calor, o mau cheiro pode ser sentido de longe.

A viagem mais comum até o parque, devido à proximidade (são 177 km), ocorre a partir de Las Vegas. O repórter, porém, partiu de Los Angeles, percorrendo de carro 328 km em três horas e meia.

Dentre as rodovias visitadas, a mais bonita para se entrar no parque é a NV-374, passando pela cidade de Beatty, a nordeste. Por ali, o viajante percorre uma reta de 14,6 km rodeada de areia, tufos de vegetação rasteira e montanhas pedregosas, com os montes que marcam o início do Death Valley ao fundo.

No meio do caminho, pode-se visitar a cidade fantasma de Rhyolite, construída em 1905 para acomodar o fluxo de mineradores em busca de ouro. Hoje, permanecem as ruínas de um banco, um cassino e uma escola. Há também uma casa construída com garrafas de bebida, erguida por um minerador da época, e o museu Goldwell, com obras de artistas contemporâneos expostas a céu aberto.

O ideal é planejar todo o trajeto da viagem com antecedência. Quem deseja conhecer muitos pontos em poucos dias deve, por exemplo, se hospedar em hotéis próximos do fim do trajeto diário, para evitar ter de percorrer grandes distâncias bem quando o cansaço começa a bater.

Hotel mais luxuoso do parque, o Inn at Death Valley se ergue em meio a um oásis artificial, cercado de palmeiras e de um verde tropical em plena aridez do deserto. Os preços dos quartos variam de US$ 301 (R$ 1.252) até US$ 550 (R$ 2.288) por noite. Uma outra opção de qualidade semelhante, já que faz parte do mesmo resort, é o hotel Ranch. Lá os preços dos quartos vão de US$ 309 (R$ 1.285) a US$ 380 (R$ 1.580).

O Stovepipe Wells, que fica perto das dunas de Mesquite Flat, oferece o melhor custo-benefício da região, com quartos entre US$ 144 (R$ 599) e US$ 226 (R$ 940), todos com ar-condicionado. No Panamint Springs, hotel mais distante das principais atrações, uma cabana minúscula e sem ar-condicionado custa US$ 114 (R$ 474), enquanto uma de tamanho família, com mais comodidades, custa US$ 184 (R$ 765) a noite.

Hospedar-se fora do parque pode ficar mais em conta, e o impacto no tempo de viagem é mínimo. A apenas 14 km da entrada, a pequena Beatty tem quartos a partir de US$ 70 (R$ 291) por noite.

Mais distante do parque (76 km), Pahrump é outra opção de estadia para quem visita o Vale da Morte, com hotéis a partir de US$ 69 (R$ 287). Por lá, há maior oferta de diversão. Além de bons restaurantes, a cidade é apinhada de cassinos. É possível perder moedas em caça-níqueis até dentro de supermercados.
Uma curiosidade é que, à noite, a cidade fica cheia de coelhos, que circulam por praças e matagais.

Os mais arrojados podem montar acampamento dentro do parque. Alguns locais são gratuitos, outros cobram US$ 16 (R$ 66) por barraca. A vantagem é poder observar em primeira mão o céu estrelado e o nascer do sol no deserto, que reforçam a sensação de infinitude da paisagem e da insignificância humana em meio a tudo aquilo.


Pacotes

R$ 1.019 
2 noites no Vale da Morte, na Top Brasil Turismo (topbrasiltur.com.br
Em acomodação dupla, sem regime de alimentação. Preço por pessoa. Sem aéreo

US$ 650 (R$ 2.710) 
6 noites na Califórnia, na Gold Trip (goldtrip.com.br
Locação de um motor home com pacote de 500 milhas (800 km) em Las Vegas. Sugestão de roteiro: Las Vegas- Vale da Morte - Los Angeles - Las Vegas. Inclui seguro do veículo. Preço por pessoa. Sem aéreo 

US$ 1.299 (R$ 5.416)
6 noites entre Los Angeles e San Francisco, na BWT (bwtoperadora.com.br)
Em quarto duplo, sem regime de alimentação. Inclui locação de carro durante o período. Preço por pessoa. Sem passagens aéreas

US$ 1.810 (R$ 7.547) 
8 noites entre Las Vegas, Coasergold, Mammoth Lakes, San Francisco e Los Angeles, na Flot (flot.com.br
Em acomodação dupla, com café da manhã. Inclui passeio noturno por Las Vegas, visita panorâmica em Yosemite, Los Angeles, Monterey, Carmel e San Francisco. Preço por pessoa. Sem aéreo

US$ 2.246 (R$ 9.365) 
10 noites entre Los Angeles, Las Vegas, San Francisco, Laughlin, Tusayan, Mammoth Lakes, Modesto e Kanabs, na New Age (newage.com.br)
Em apartamento duplo, com café da manhã. Inclui passeios a parques nacionais, ao Grand Canyon e ao Vale da Morte, além de visita panorâmica a San Francisco. Inclui traslados e seguro-viagem. Preço por pessoa. Sem passagem aérea. Pacote, com guia falando espanhol, válido para saídas entre junho e setembro de 2020. Mínimo de duas pessoas

US$ 2.261 (R$ 9.428) 
10 noites entre a Califórnia e Las Vegas, na schultz (schultz.com.br
Em apartamento duplo, com café da manhã. Roteiro, com guia em português, passa por Los Angeles, Las Vegas, Fresno, San Francisco, Monterey, Carmel, San Luis Obispo, Santa Barbara e Solvang. Inclui entradas para o Vale da Morte, para Yosemite e para o parque Gran Sequoya, além de traslados, passeios por San Francisco e Las Vegas e tour de compras. Preço por pessoa. Sem aéreo. Saídas às terças-feiras até março de 2020

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