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A Unasul e a soberania

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Embora alguns dos protestos do ano passado no Brasil tenham sido violentos, não levaram instituições regionais ou internacionais nem grupos de chanceleres a exortar Brasília a fazer essa ou outra reforma política. Sim, os mercados fizeram as perguntas de praxe, e a incerteza em torno da Copa do Mundo se aguçou.

Diferentemente da Venezuela, porém, as credenciais democráticas essenciais do Brasil não chegaram a ser questionadas, embora a responsabilidade do governo para com os brasileiros continue a estar no centro das atenções neste ano eleitoral.

Os protestos na Venezuela e a resposta do governo são vulneráveis a chamados por fiscalização internacional precisamente porque a polarização há anos faz parte da estratégia chavista e da oposição. Sob essas circunstâncias, a participação de atores externos na resolução de conflitos não pode ser equacionada com intervenção pura e simples.

A reunião da Unasul que acontece hoje no Chile, país onde protestos e democracia parecem conviver de modo produtivo, nos dirá muito sobre até onde os sul-americanos estão ou não dispostos a conversar entre eles sobre questões tradicionalmente vistas como sendo soberanas.

Já vimos na semana passada, na OEA, um virtual consenso de que o governo de Nicolás Maduro merece o benefício da dúvida. Logo, é possível que Santiago não produza nenhuma surpresa.

Mas esperamos que a Unasul também tenha algo a dizer sobre o uso legítimo e ilegítimo da força por governos contra suas populações.

Joe Biden já terá deixado o Chile no momento em que os chanceleres da região se reunirem. Sua ausência, assim como a ausência de Washington da maior parte da diplomacia regional sul-americana, deve assinalar que há espaço para uma discussão que não seja anuviada pela sugestão de que os enfrentamentos na Venezuela sejam complô americano. A morte de uma chilena em Caracas pode ajudar a afastar tais distrações.

É claro que a história faz com que seja muito fácil fazer esse tipo de suposição na América Latina.

O contexto global também pesa: um olhar rápido pelas páginas de opinião editorial da imprensa latino-americana sugere que seja tentador (embora cause confusão e não seja útil) procurar na estratégia de Putin na Crimeia e na atuação americana e europeia em Kiev referências narrativas de hegemonia e resistência (ou das duas coisas, dependendo da perspectiva do leitor).

As diferenças entre a Venezuela e a Ucrânia são muitas, mas a mais notável é precisamente quão pouca influência os atores internacionais parecem ter em Caracas.

Saúdo a ascensão de instituições regionais não mais dominadas por Washington, especialmente se suas cúpulas oferecerem mais que o blá-blá-blá de sempre. Ser vistos como a causa ou a cura de todos os males da região não beneficia os EUA.

Entendo que nem o Brasil nem qualquer outro país da região tenha interesse em assumir esses ônus. Mas detesto imaginar mais um editorial do "Washington Post" lamentando o fracasso da liderança que emana de qualquer capital, quer seja Washington ou Brasília.

@JuliaSweig

Tradução de CLARA ALLAIN

julia sweig

Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas.

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