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O aniversário infinito de São Paulo

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RESUMO A capital paulistana, que faz aniversário no próximo sábado, 25, teve sua mais longa festa há 60 anos. A celebração do quarto centenário da cidade, entre dezembro de 1953 e fevereiro de 1955, incluiu a estelar 2ª edição da Bienal, a inauguração do parque Ibirapuera, uma chuva de papel de prata e índios em parada militar.

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Impaciente para dar início às comemorações do quarto centenário de São Paulo, o industrial Ciccillo Matarazzo antecipou a festa em 48 dias. Na noite de 8 de dezembro de 1953, abriu as portas da segunda edição de um evento que criara dois anos antes, a Bienal.

Ciccillo a incluiu no calendário de comemorações na condição de presidente da Comissão do Quarto Centenário, instituída em junho de 1951 pelo governo estadual e pela prefeitura para orquestrar as celebrações, previstas para todo o ano de 1954. A Bienal ocupou pela primeira vez dois dos edifícios do então inóspito parque Ibirapuera, o maior legado dos festejos, que seria aberto ao público meses mais tarde. Tratavam-se do Palácio das Nações, hoje Museu Afro Brasil, e do Palácio dos Estados, atual Pavilhão das Culturas Brasileiras.

"O Parque do Ibirapuera, dentro da noite, era um eclipse com apenas duas faixas acesas: o Palácio das Nações e o Palácio dos Estados. O resto permanecia nas trevas, como blocos de folhinha a serem desvendados em datas próprias." O relato, do romancista e crítico de artes plásticas José Geraldo Vieira, foi publicado em 13 de dezembro na "Folha da Manhã".

Apesar do aspecto ainda vago e inacabado do conjunto, no meio do qual "a grande marquise dormia como um trabalhador na plataforma de uma estação antes do horário", o romancista registra que "para as duas estrias de luz no eclipse escuro do Parque do Ibirapuera rumavam carros e transeuntes, atraídos como besouros e mariposas para aqueles dois focos retangulares de luz".

Divulgação / Imprensa Oficial do Estado/ Casa da Imagem
Orlando Villas Bôas (ao centro, com um curumim) e indígenas convidados para as comemorações
Orlando Villas Bôas (ao centro, com um curumim) e indígenas convidados para as comemorações

Na ocasião, apenas besouros e mariposas que fossem jornalistas, fotógrafos, críticos de arte ou artistas, como os pintores Alfredo Volpi e Tarsila do Amaral, puderam conferir aquela que até hoje é tida por muitos a melhor edição da Bienal -uma cerimônia para as autoridades teria lugar no sábado seguinte, véspera da abertura para o público geral.

Para os brasileiros, era a primeira oportunidade de contemplar num mesmo endereço obras de tantos representantes da arte moderna -3.374 nomes no total, contra 729 da Bienal de 1951. A lista incluía o americano Alexander Calder, o holandês Piet Mondrian, o suíço Paul Klee e o espanhol Pablo Picasso, que expôs sua monumental "Guernica".

Houve outros marcos culturais notáveis, no âmbito das comemorações. No concurso literário, a comissão julgadora -que contava com os escritores Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes de Almeida e o crítico literário Antonio Candido- deu o prêmio de poesia ao pernambucano João Cabral de Melo Neto, pelo seu poema "O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente à Cidade do Recife".

Na cerimônia de premiação, em 23 de janeiro de 1954, presidida pela mulher de Ciccillo, Yolanda Penteado (tão ativa no cenário artístico quanto ele), foram contemplados ainda o também pernambucano Gastão de Holanda (melhor romance, com "Os Escorpiões"), o paulistano Walter George Durst (melhor roteiro cinematográfico, com "Quase uma Guerra de Troia") e Edgar da Rocha Miranda (em teatro, com a peça "E o Noroeste Soprou").

Parecia não haver outro assunto. No Rio de Janeiro, promoveu-se na Academia Brasileira de Letras uma sessão em homenagem à efeméride paulistana. Terminou em debate. Os acadêmicos se perguntavam: quem deveria ser considerado o fundador da cidade, o missionário português Manoel da Nóbrega, que havia tido a ideia de criar um colégio naquelas lonjuras em 1554? Ou o jesuíta espanhol José de Anchieta, presente à missão de inauguração do colégio e que continuara a obra do português?

Convencida pelo poeta paulista Menotti del Picchia, a maioria saiu em defesa do catequista espanhol. Entusiasmado, o ensaísta paraense Osvaldo Orico sugeriu que se comunicasse o placar ao governador de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez.

ZERO HORA

No dia 25 de janeiro de 1954, a festa do aniversário começou à zero hora. Quem não havia se posto em vigília para saudar a data foi acordado pelo badalar conjunto dos sinos da cidade, acompanhado pelo buzinaço dos motoristas e o espocar de rojões.

Às 8h30, houve uma cerimônia no Pátio do Colégio. Diante do monumento da fundação de São Paulo, Getúlio Vargas depositou uma palma de louros. O presidente assistiu depois à missa inaugural da nova catedral da Sé, ainda com as torres inacabadas.

A programação seguiu com parada militar no vale do Anhangabaú. Sob o viaduto do Chá, índios de torso nu e calça e sapatos brancos perfilavam-se diante de um palanque, de dentro do qual o indigenista Orlando Villas Bôas assistiu ao desfile abraçado a um curumim e ladeado por indígenas do Brasil Central, conforme registrou o fotógrafo German Lorca. Um dos que mais retrataram os eventos da data, Lorca, 91, relembra: "Fazia um calor danado e mesmo assim a população não arredava o pé".

O mesmo vale ainda veria, no dia 9 de julho, data da Revolução Constitucionalista de 1932, São Paulo ser banhada por uma chuva de prata. Ela caiu no final da tarde, espessa e luminosa: 9 milhões de pequenos triângulos de papel prateado, despejados por aviões da Força Aérea Brasileira e iluminados por holofotes do Exército. Mais uma produção da Comissão do Quarto
Centenário, a essa altura já não comandada por Ciccillo, que se demitira do cargo em março, após se desentender com o prefeito Jânio Quadros. Havia sido substituído pelo Príncipe dos Poetas Brasileiros, Guilherme de Almeida.

Coube a ele liderar, na manhã fria do dia 21 de agosto, a inauguração mais esperada do ano, a do parque Ibirapuera, que começara a sair da prancheta do arquiteto Oscar Niemeyer em 1951. Seus pavilhões abrigavam a Exposição do Quarto Centenário, uma exaltação da "pujante indústria paulista", em meio a exemplos culturais de outros Estados e países.

"Para isto São Paulo viveu seus bem vividos 400 anos", perorou Almeida às 11h, diante de autoridades. "Aqui se concentra, e ao mundo todo se mostra, todo um mundo de crenças, de ideais, de esperanças, de vontades, de esforços, de lutas, de obstáculos, de complacência, de incertezas, de sacrifícios, de dores, de reações, de alegrias e de vitórias. Amigos, entrai e testemunhai."

No estande da Holanda, fez grande sucesso um canteiro de flores, protegido por uma legião de escoteiros. No Palácio das Indústrias (atual pavilhão da Bienal), o que mais causou frisson perdura até hoje: a primeira escada rolante da cidade. "Uma fila imensa de pessoas que fazem questão de experimentar o novo aparelho estende-se por ali", anotou um jornalista da "Folha da Manhã".

Do meio-dia à meia-noite, os visitantes puderam circular dentro do parque em trenzinhos disponibilizados pela prefeitura. Rotas extras de ônibus foram traçadas. Temendo um congestionamento recorde ao redor do Ibirapuera, a diretoria do Serviço de Trânsito, a CET da época, alterou o sentido de algumas vias, fechou acessos e avisou: "O trânsito nas ruas que circundam o parque será feito em 'circulez'". Em outras palavras, se um motorista estacionasse para tirar uma foto, correria sérios riscos de ouvir de um guarda: "Cavalheiro, faça o favor de circular!".

AMANHÃ

Inaugurado o parque, a missão da Comissão do Quarto Centenário foi dada por cumprida. Àquela altura talvez já não houvesse quem ignorasse a efeméride. O comércio vendia toda sorte de produtos com a estampa do quarto centenário. Muitos eram apresentados como revolucionários, como se pertencessem ao amanhã. O chuveiro da marca Sintéx lançado para os festejos, por exemplo, era apresentado como "de duração praticamente infinita".

Circulavam slogans como "São Paulo não pode parar" e "São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo". "Acreditava-se que a cidade estava de posse de passaporte garantido para o futuro", diz o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, autor de livro sobre os primeiros 370 anos da cidade ("A Capital da Solidão", Objetiva, 2003).

Parte desse futuro, porém, chegou com atraso. O Theatro Municipal -cuja reabertura estava prevista inicialmente para o feriado de 9 de Julho, após uma reforma iniciada mais de um ano antes-, só voltou a abrigar espetáculos em outubro de 1955. As obras ficaram paralisadas por quatro meses, depois que Jânio Quadros cortou boa parte das verbas necessárias.

O palco mecânico, grande novidade do projeto, escapou da tesoura por pouco -julgando-o dispensável, o prefeito só aceitou custeá-lo depois de Guilherme de Almeida argumentar que se tratava de item crucial para a realização de montagens líricas.

Escalado para reabrir a casa, o Balé do Quarto Centenário pôs-se em condição de atuar no prazo estipulado. Sob a direção artística do coreógrafo Aurel Milloss, um húngaro radicado na Itália, com passagens pelo Scala de Milão e pela Ópera de Roma, o grupo deu início à profissionalização da dança no Brasil. No final do ano seguinte, Jânio decidiu desfazer o balé. Não via sentido em custear um grupo formado para uma celebração que já havia acabado.

E quando tinha acabado? A julgar pelo calendário do Campeonato Paulista do Quarto Centenário só em 1955. A partida decisiva se deu no dia 6 de fevereiro, no estádio do Pacaembu. Com três pontos de vantagem e jogando pelo empate, o Corinthians enfrentou o Palmeiras sob o olhar de 55 mil torcedores. O jogo terminou em 1 a 1, gols do alvinegro Luizinho e do alviverde Nei. Protocolar, a última rodada ocorreu no sábado seguinte, dia 13, pondo fim a um ano que havia durado 433 dias.

DANIEL SALLES, 29, é jornalista.

GERMAN LORCA, 91, fotógrafo, reuniu em "A São Paulo de German Lorca" (Imprensa Oficial do Estado/Casa da Imagem) registros do quarto centenário, entre outras cenas da cidade.

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