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Livro detalha a descoberta da estrutura do DNA

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RESUMO A estrutura do DNA é hoje figura tão banal que não se pensa quanto descobri-la, em 1953, custou aos pesquisadores. James Watson, um deles, conta em "A Dupla Hélice" (1968), que só agora chega ao Brasil, bastidores do feito que mudou a genética, e reconhece a contribuição, então menosprezada, da cientista Rosalind Franklin.

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Foi um momento histórico: em 2003, no simpósio organizado pela Human Genome Organization em Cancún, no México, Francis Collins anunciava o fim do sequenciamento do Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990. Na mesma ocasião, celebravam-se os 50 anos da descoberta da dupla hélice do DNA por James Watson e Francis Crick. Havia no duplo festejo mais do que coincidência: sem o conhecimento da estrutura do DNA, o Projeto Genoma Humano, que hoje revoluciona a medicina, teria sido impossível.

Aqueles que, como eu, conheceram, desde a primeira aula de biologia, o DNA já representado sob a forma de dupla hélice talvez não imaginem o esforço dos pesquisadores para concluir que somente essa estrutura poderia explicar como as informações contidas no DNA eram transmitidas, tão perfeitamente, de geração para geração. Não à toa, quando o grupo chegou ao modelo, após várias tentativas frustradas, Francis Crick (1916-2004) irrompeu no Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge onde os cientistas trabalhavam, dizendo: "Descobrimos o segredo da vida".

Omikron/Science Photo Library
Francis Crick (à esq.) e James Watson, dupla que descobriu a estrutura do DNA
Francis Crick (à esq.) e James Watson, dupla que descobriu a estrutura do DNA

Não houve exagero na frase com que o biólogo, biofísico e neurocientista britânico interrompeu o almoço dos professores que estavam no bar naquele 28 de fevereiro de 1953, fato registrado por James Watson em "A Dupla Hélice" [trad. Rachel Botelho, Zahar, R$ 39,90, 216 págs.]. No livro de 1968, que em fevereiro ganha sua primeira edição no Brasil, o biólogo molecular detalha as peripécias, as fofocas e o envolvimento do grupo que esteve à procura do segredo que revolucionou a genética.

"A Dupla Hélice" é narrado do ponto de vista de alguém que hoje é visto como uma figura muito controvertida. Nascido em 1928, o norte-americano James Watson mudou-se para a Inglaterra aos 22 anos e, pouco depois, integrava a equipe de Crick em Cambridge -trabalhou com o britânico entre 1951 e 1953 e, com ele e com o fisiologista neozelandês Maurice Wilkins (1916-2004), levaria o Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1962, pelo conjunto das descobertas relacionadas aos ácidos nucleicos e à transmissão de material genético.

Foi só aos 40 anos, porém, que Watson resolveu escrever "A Dupla Hélice". No seu relato, Crick é descrito como muito falante e ruidoso, o que devia fugir aos padrões britânicos. Além disso, conta as brigas entre Maurice Wilkins e a biofísica Rosalind Franklin (1920-58). Wilkins teimava em considerá-la como sua assistente -algo que Franklin, uma cientista que pensava de modo independente, não aceitava. E com razão: é hoje um consenso que, não tivesse morrido precocemente de câncer, em 1958, ela dividiria o Nobel com o trio.

XAMPU

A importância fundamental do trabalho de Rosalind Franklin é hoje inconteste: as imagens de cristalografia desenvolvidas por ela -as quais, diz-se, foram utilizadas por Wilkins sem autorização da pesquisadora- foram de fato essenciais para chegar a essa figura geométrica tão assimilada a ponto de ilustrar até anúncios de xampu, como lembra muito bem o biólogo Fernando Reinach na apresentação à edição brasileira de "A Dupla Hélice".

(A banalização da forma não significa, porém, a do entendimento: recordo-me de uma senhora, que escolhia esse produto no supermercado, ter me dito que "só comprava xampu com DNA". Fazia questão de ver a dupla hélice estampada no invólucro. Na ocasião, perguntei, curiosa, por quê. Ela explicou que aquela hélice é que se enrolava nos fios, deixando os cabelos brilhantes e sedosos.)

Acervo pessoal-2008
A cientista Mayana Zatz na porta do Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge (Inglaterra) em que James Watson e Francis Crick trabalhavam
A cientista Mayana Zatz na porta do Eagle Pub, bar próximo ao laboratório de Cambridge (Inglaterra) em que James Watson e Francis Crick trabalhavam

Mais incrível do que o ficcional poder de embelezar as madeixas, porém, é saber que o DNA presente em uma única célula -resultante da união do óvulo e do espermatozoide, no caso de organismos de reprodução sexuada- carrega todas as informações para o desenvolvimento de um organismo, seja ele uma bactéria, uma planta, um animal ou um ser humano.

Ele está compactado dentro do núcleo da célula de maneira tão extraordinária que, se pudéssemos desenrolá-lo, veríamos que pode alcançar cerca de 2 metros de comprimento. Se "esticássemos"o DNA de todas as células de uma única pessoa, a fita teria um comprimento de 140 vezes a distância da Terra ao Sol.

Só muito recentemente, em 2012, foi possível enxergá-lo com microscopia eletrônica, com um aumento de pelo menos 300 mil vezes. Imagine-se a dificuldade dos cientistas em entender como ele se organizava, numa época que desconhecia essa tecnologia.

Além de permitir entender como herdamos de nossos pais os genes responsáveis por nossas características, a descoberta da dupla hélice nos deu a possibilidade de estudar as doenças genéticas e, além disso, compreender como alterações ou erros na cópia do DNA -os quais denominamos mutações- podem explicar a evolução das espécies, selecionando os mais adaptados e com maior capacidade reprodutiva.

HEREDITÁRIO

O desafio seguinte era determinar o número de genes de um humano e quais são as sequências de DNA que codificam proteínas e que são responsáveis por nossas características hereditárias. Essas foram as questões que motivaram o lançamento do Projeto Genoma Humano.

A missão, gigantesca, envolveu vários laboratórios no mundo todo, inicialmente sob a direção de James Watson -ele, porém, se desentendeu com outros cientistas, e o comando da pesquisa passou a ser dividido entre dois americanos, o geneticista Francis Collins e o bioquímico Craig Venter, que concluíram o trabalho em 13 anos, dois a menos do que o previsto, o que levou à coincidência com o cinquentenário da dupla hélice.

No começo da pesquisa, apostava-se que deveríamos ter entre 100 mil e 150 mil genes. Em 2003, quando o sequenciamento foi terminado (na verdade, praticamente terminado: 99% dele se concluiu, pois novos genes continuam sendo identificados até hoje), que decepção: com pouco mais de 20 mil genes, perdemos até do tomate, que tem 31 mil.

Como explicar, então, a nossa imensa complexidade? A busca por essa resposta levaria à era da epigenética, a ciência que estuda as variações e os fatores responsáveis por regular a expressão dos nossos genes -ligando-os e desligando-os, mas sem alterá-los.

De acordo com os resultados de outro projeto gigantesco, o Encode, publicados em 2012, teríamos no nosso DNA cerca de 4 milhões de sequências capazes de modificar a expressão dos genes. Embora ainda a confirmar, os dados ao menos resgatam a nossa dignidade diante do fruto do tomateiro.

O primeiro genoma humano a ser sequenciado, numa operação que custou cerca de US$ 3 bilhões em 2003, foi o de Craig Venter. O seguinte foi o de James Watson, cinco anos depois, a um custo de US$ 1 milhão -descobriu-se que Jim -hoje com 85 anos- tem várias mutações que podem aumentar seu risco de desenvolver certas doenças de início tardio. Mas, na realidade, ninguém sabe ao certo qual é a probabilidade de que isso ainda venha a ocorrer.

Por poucos milhares de dólares hoje podemos sequenciar o genoma de um indivíduo. A queda no valor vem aumentando o interesse das pessoas pelo sequenciamento, mas sabemos que, cada vez mais, encontraremos alterações inesperadas ou de difícil interpretação em pessoas mais jovens.

Essa incerteza foi um dos motivos que nos levaram a iniciar, na Universidade de São Paulo, o projeto 80mais, no qual estamos sequenciando os genomas de pessoas saudáveis com mais de 80 anos (interessados em participar como voluntários podem se candidatar pelo e-mail 80mais@gmail.com). Elas poderão nos ajudar a interpretar se mutações/alterações ainda não descritas encontradas no DNA de pessoas mais jovens aumentam realmente o seu risco de desenvolver doenças no futuro.

O caminho aberto por Crick e Watson há mais de 60 anos possibilitou todos esses avanços. É pena, porém, que o comportamento recente do autor de "A Dupla Hélice" tenha se mostrado desastroso, indo de comentários racistas em 2007 (que geraram enormes críticas e o cancelamento de palestras em retaliação) até uma inacreditável proposta de eugenia-segundo Watson, a burrice seria genética, e os embriões deveriam ser selecionados de forma a favorecer a inteligência. Se ele fosse ouvido e uma ideia dessas fosse levada a cabo, poderíamos nos perguntar se alguém como Albert Einstein teria sido selecionado.

Melhor lembrar de quando, ainda que tardiamente, Watson foi capaz de reconhecer, no fim de "A Dupla Hélice", a importância das pesquisas de Rosalind Franklin (ou Rosy, como a chama) para a descoberta da estrutura do DNA.

Segundo o autor, somente com anos de atraso em relação às pesquisas, ele e seus colegas puderam se dar conta das "batalhas que uma mulher inteligente enfrenta para ser aceita por um mundo científico que com frequência enxerga as mulheres como meras distrações do pensamento sério".

MAYANA ZATZ, 66, é professora titular de genética e diretora do Centro do Genoma Humano e Células-tronco da USP. É autora do livro "GenÉtica: Escolhas que Nossos Avós Não Faziam" (Globo Livros).

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