Descrição de chapéu New York Times

Emissões de carbono aumentam nos EUA em 2018 mesmo com menos usinas a carvão

Governo Trump faz esforços para relaxar regras sobre emissões de gases-estufa

Brad Plumer
Washington

As emissões de CO2 nos Estados Unidos subiram em 3,4% em 2018, a maior alta em oito anos, de acordo com um estudo preliminar divulgado nesta terça-feira (8).

A alta forte nas emissões ocorreu, surpreendentemente, em um ano que viu um número recorde de fechamento de usinas de energia a carvão, o que ilustra o quanto pode ser difícil conseguir novos avanços quanto à mudança no clima nos próximos anos, especialmente diante dos esforços do governo Trump para relaxar a regulamentação federal que restringe emissões de gases causadores do efeito estufa.

Planta de energia a carvão nos EUA liberando fumaça
Planta de energia a carvão nos EUA - Chris Keane/Reuters

A estimativa, pelo Rhodium Group, uma organização de pesquisa, aponta para uma reversão preocupante. As emissões causadas pela queima de combustíveis fósseis nos EUA vinham caindo significativamente desde 2005, e registravam queda nos três anos anteriores a 2018, em parte por causa do crescimento do gás natural de baixo preço e da alta da energia renovável, que vinham substituindo rapidamente a energia gerada pela queima de carvão, muito mais poluente.

Mas nem mesmo a queda acentuada no uso de carvão, no ano passado, bastou para compensar a alta das emissões em outras áreas da economia. Parte do crescimento teve motivos climáticos. Um inverno relativamente frio gerou maior queima de óleo e gás para aquecimento em regiões como a Nova Inglaterra.

Mas, igualmente importante, a economia dos EUA cresceu em ritmo mais acelerado no ano passado, e com isso as emissões das fábricas, aviões e caminhões dispararam. E há poucas políticas em vigor para promover a despoluição nesses setores.

"A grande lição, para mim, é que ainda não desacoplamos as emissões de poluentes e o crescimento econômico", disse Trevor Houser, analista de clima e energia do Rhodium Group.

O crescimento na indústria dos Estados Unidos resultou, por exemplo, em alta de 5,7% nas emissões dos setores industriais —entre os quais aço, cimento, produtos químicos e refinarias.

As autoridades que estão trabalhando para minorar a mudança do clima, em nível federal e estadual, até o momento evitaram regulamentar a indústria pesada, que responde diretamente por até um sexto das emissões de carbono do país. Em lugar disso, o foco delas vem sendo reduzir as emissões do setor de eletricidade por meio de ações como a promoção da energia solar e da energia eólica.

Mas ainda que a geração de energia tenha se tornado menos poluente, as fábricas e outras instalações industriais, que não atraem muita atenção, se tornaram uma fonte mais grave de poluição causadora de mudança no clima.

O Rhodium Group estima que o setor industrial está a caminho de se tornar a segunda maior fonte de emissões na Califórnia, em 2020, atrás apenas dos transportes. No Texas ele poderá se tornar a maior fonte de emissão de poluentes em 2022.

Há uma história semelhante nos transportes. De 2011 para cá, o governo federal vinha apertando cada vez mais os padrões de consumo de combustível que os automóveis e veículos comerciais leves precisam respeitar, ainda que o governo Trump tenha proposto que esses padrões deixem de ser endurecidos depois de 2021.

Há sinais de que as medidas de promoção da economia de combustível tiveram efeito. Nos primeiros nove meses de 2018, os americanos dirigiram mais quilômetros em veículos de passageiros do que no mesmo período um ano antes, mas o uso de gasolina caiu em 0,1%, graças em parte a veículos mais eficientes e a veículos elétricos.

Mas com a expansão da economia dos EUA no ano passado, o transporte rodoviário e as viagens aéreas também registraram rápido crescimento, o que resultou em alta de 3% no uso do diesel e do combustível de aviação, gerando alta nas emissões gerais de poluentes pelo setor de transporte em 2018.

As viagens aéreas e o transporte rodoviário de carga também atraíram menos atenção das autoridades regulatórias, até agora, e reduzir as emissões associadas a essas formas de transporte, ou adotar sistemas de propulsão elétrica para eles, parece muito mais difícil.

A demanda por eletricidade também cresceu no ano passado, com o crescimento da economia, e a geração de energia de fontes renováveis não se expandiu em ritmo suficiente para suprir a demanda. O resultado foi que o gás natural ocupou o vácuo, e as emissões relacionadas à geração de eletricidade cresceram em 1,9%. (O gás natural produz emissões de dióxido de carbono menores que as do carvão, mas também é um combustível fóssil.)

Mesmo com a alta do ano passado, as emissões de dióxido de carbono dos EUA ainda são 11% mais baixas de 2005 para cá, em um período de considerável crescimento econômico. Representantes do governo Trump citam muitas vezes essa tendência histórica ampla como prova de que o país tem como reduzir suas emissões de poluentes causadores de mudança no clima sem regulamentação severa.

Mas se o mundo deseja evitar os efeitos maios duros do aquecimento global, os grandes países industrializados, entre os quais os EUA, terão de cortar as emissões associadas a combustíveis fósseis de forma muito mais drástica do que vêm fazendo.

No mês passado, cientistas reportaram que as emissões de gases causadores do efeito estufa subiram em ritmo acelerado em 2018, colocando o mundo a caminho de consequências severas do aquecimento global mais rápido do que se esperava.

Nos termos do Acordo de Paris sobre o clima, os EUA assumiram o compromisso de reduzir suas emissões de poluentes entre 26% e 28%, ante o nível de 2005, até 2025. O relatório do Rhodium Group alerta que essa meta agora parece praticamente inatingível, sem uma onda de medidas regulatórias ou avanços tecnológicos que reduzam as emissões em toda a economia.

"Os Estados Unidos lideraram o mundo na redução de emissões, pelos últimos 10 anos, em grande parte por conta de substituírem o carvão por gás natural barato", disse Jason Bordoff, diretor do Centro Global de Política de Energia na Universidade Columbia, que não participou da análise. "Mas isso tem limites, e os mercados sozinhos não produzirão redução de emissões nem próxima da necessária, sem esforços muito mais fortes de regulamentação, que infelizmente estão travados ou foram revertidos pelo governo Trump."

O Rhodium Group criou sua estimativa usando dados do governo para os três primeiros trimestres de 2018, somados a dados industriais mais recentes. O governo dos Estados Unidos publicará suas estimativas oficiais sobre emissões no ano de 2018 como um todo dentro de alguns meses.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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