Veja quais áreas da Grande São Paulo sofrerão mais com o aquecimento do planeta

Zona norte tem maior risco de sofrer com aumento de temperatura em SP

Beatriz Guimarães Sarah Azoubel
Campinas

Um mapeamento feito por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), da USP (Universidade de São Paulo) e da Unifei (Universidade Federal de Itajubá) indicou quais áreas da Grande São Paulo sofrerão mais com o fenômeno da ilha de calor, que deve se agravar com o aquecimento global. Sete dos dez locais mais ameaçados pelas altas temperaturas ficam na zona norte da capital.

Para identificar as regiões mais vulneráveis, os cientistas fizeram um cálculo usando dados climáticos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a distribuição espacial da população acima de 65 anos de idade, que forma o grupo mais sensível ao calor extremo.

O resultado, publicado nesta sexta (24) na revista científica Climatic Change, é um mapa em alta resolução que permite ver se o risco é maior ou menor em cada setor censitário da Grande São Paulo, conforme as divisões territoriais usadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

As zonas vermelhas indicam onde estão os habitantes mais propensos a sentir os efeitos da alta temperatura, que incluem desconforto, piora de problemas cardiovasculares e respiratórios e até mortes prematuras.

O Jardim Brasil, na zona norte, lidera a lista de risco. Segundo David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp e principal autor do estudo, o bairro combina temperaturas acima da média da cidade e um grande percentual de idosos. 

Vila Terezinha, Casa Verde Alta, Brasilândia e Parque Peruche são outros bairros da zona norte que aparecem no topo do ranking.

A pesquisa considera que uma população de alto risco é aquela que tem maior sensibilidade ao calor extremo (como idosos e crianças), vive em área com temperaturas maiores e tem maior dificuldade para se adaptar às mudanças do clima, seja por falta de acesso à informação ou pelas condições precárias de moradia e saúde.

O aposentado Claudio Antonio, 67, vive no Jardim Brasil desde a adolescência e diz que, durante os meses mais quentes do ano, a falta de arborização e o calor intenso dificultam os passeios com a neta, que é cadeirante. “Antes tinha mais mato do que casas. Agora tem mais construção e poucas árvores. Só tem asfalto”, conta. “Sou bem resistente, mas incomoda bastante.”

Além de circuladores e ventiladores, banhos frios e cortinas capazes de bloquear o sol são recomendações para aliviar o desconforto nos dias quentes. O uso de aparelhos de ar-condicionado também é uma medida eficaz, mas, segundo Lapola, está fora do alcance de boa parte da população vulnerável.
 

Claudio Antonio em uma rua com postes cheios de fios
Claudio Antonio, 67, vive no Jardim Brasil (zona norte), que lidera o ranking de risco na Grande SP, e reclama da falta de árvores - FolhapressKarime Xavier/Folhapress

Claudio Antonio mora com familiares, o que o coloca em situação melhor do que a de outros idosos que vivem em áreas de alto risco. O isolamento social é um dos fatores que aumentam o risco de estresse de calor na terceira idade. Muitos idosos moram sozinhos ou passam a maior parte do dia sem alguém que possa ajudar em casos de emergência, o que se soma aos problemas de saúde crônicos e à mobilidade restrita comuns nessa faixa etária.

Na outra ponta do ranking, Pinheiros e Itaim, na Zona Oeste de São Paulo, aparecem como áreas de risco baixo. “Embora a população idosa nesses dois bairros seja relativamente alta, o IDH é muito alto. Então essa população está melhor preparada para lidar com as mudanças do clima”, afirma Lapola. Ele ainda diz se tratar de uma região com temperaturas mais baixas do que a média da cidade, por ser mais arborizada.

A temperatura média da Grande São Paulo subiu 2°C nos últimos 50 anos e ainda deve aumentar de 2°C a 3°C até 2100, conforme publicado no relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) em 2014.

Para Lapola, apesar do aquecimento ser um fenômeno global, é importante encontrar soluções locais para reagir às mudanças climáticas. 

“Em São Paulo, existe Moema, que tem um IDH similar ao da Suécia, mas também tem Parelheiros, com IDH igual aos de países da África”, compara. “A relevância de trazer dados bairro a bairro é mostrar ao gestor público onde estão as pessoas mais vulneráveis”, completa.

Além da Grande São Paulo, o estudo mapeou as regiões metropolitanas de Vitória (ES), Natal (RN), Manaus (AM), Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS). A distribuição do risco ao calor é diferente em cada uma delas. 

Em Curitiba, Porto Alegre e Vitória, o risco é maior nas regiões com mais idosos, ainda que sejam áreas com IDH relativamente alto. Já em Natal e Manaus, a pobreza é o fator mais determinante, puxando para o topo da lista bairros frutos de antigas ocupações irregulares.

 

Os resultados da pesquisa serão oferecidos às prefeituras das seis capitais para auxiliar na formulação de políticas públicas. Segundo o estudo, para diminuir os danos do calor extremo em uma população é preciso reduzir as temperaturas da região (com ações de urbanização que ampliem a arborização e a circulação de ar, por exemplo) e/ou aumentar o IDH (a partir de melhorias na educação, renda e saúde). Ou seja, são medidas de médio e longo prazo.

A curto prazo, podem ser implementadas campanhas educativas para grupos mais vulneráveis e sistemas de alertas sobre ondas de calor

Em alguns estados, a Defesa Civil já dispara alertas via mensagens SMS para a população sobre tempestades e deslizamentos.

Gabriela Di Giulio, coautora do trabalho e professora do departamento de Saúde Ambiental da USP, coordena há quatro anos um grupo de cientistas de diferentes partes do Brasil para entender se as mudanças do clima têm sido uma preocupação na gestão das seis cidades pesquisadas.

Para Di Giulio, há poucas ações nesse sentido, e a falta de vontade política e de integração entre secretarias, as trocas de governos e as pressões do mercado imobiliário são fatores que atrasam ou impedem a implementação de medidas adaptativas. 

Em abril deste ano, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), anunciou o início dos trabalhos para a criação de um plano de ação climática para a capital paulista, fruto de um compromisso firmado pelo município no início do ano, de desenvolver até o final de 2020 um planejamento para contribuir com as metas do Acordo de Paris.

“O plano deve ficar pronto em julho do ano que vem”, declarou o prefeito durante o seminário Oportunidades no Mercado de Combustíveis do Brasil, realizado pela Folha com patrocínio da Plural (que representa as distribuidoras de combustíveis).

Os governos, porém, não são os únicos que precisam agir. “Há o setor privado, que ainda se envolve muito pouco e está pouco sensível ao problema”, afirma Di Giulio. Ela levanta ainda a importância de ações que partam dos próprios cidadãos.

“Quando olhamos as pesquisas de opinião pública, notamos que o brasileiro sempre se coloca como preocupado com a questão do clima, mas existe um sentimento de impotência”, diz. Para ela, é preciso que a população entenda que suas escolhas de consumo e de voto têm valor. “A gente precisa colocar o assunto do clima, que parece tão distante, no cotidiano das pessoas.”


Ranking do risco 

(por setor censitário)

Curitiba* 

  1. Boqueirão (parte leste) e Hauer (parte leste)
  2. Atuba, Bairro Alto e Bacacheri
  3. Cajuru: Vila Camargo, Trindade e Solitude
  4. Xaxim: Vila São Pedro, Urano e Esmeralda
  5. Capão Raso
  6. Cajuru: Vila Oficinas
  7. CIC: Bariguí
  8. Cajuru e Capão da Imbuia
  9. Sítio Cercado: Bairro Novo e Vila Rio Negro
  10. Pinheirinho: Gramados

Manaus* 

  1. São José Operário
  2. Japiim, Petrópolis, São Francisco, Raiz, Conjunto Vale do Amanhecer, Conjunto Jardim,  Petropolis II, Conjunto Japiinlândia, Conjunto Costa e Silva, Parque Residencial Emanuelle e Residencial Petrópolis
  3. Novo Aleixo (Comunidade Nossa Senhora de Fátima, Conjunto Amazonino Mendes, Conjunto Novo Canaã, Conjunto Mutirão - Amazonino Mendes, Loteamento Novo Aleixo)
  4. Tancredo Neves (Conjunto Nova Floresta, Conjunto São Lucas e Invasão Nova Conquista)
  5. Alvorada
  6. Betânia, Crespo, São Lázaro, Morro da Liberdade
  7. Zumbi dos Palmares (Conjunto Nova Luz, Residencial Barcelona)
  8. Da Paz e Redenção
  9. Compensa
  10. São Jorge, Vila da Prata (Conjunto Jardim dos Barés e Conjunto Vitória Régia)

Natal* 

  1. Cidade da Esperança, Nossa Senhora de Nazaré e Dix-Sept Rosado
  2. Lagoa Azul, Cidade Praia, Pajuçara, Nova Natal e Gramoré
  3. Alecrim, Barro Vermelho, Lagoa Seca
  4. Potengi: Soledade, Santarém, Panatis e Santa Catarina
  5. Igapó, Gancho, Av. das Fronteiras e Av. Boa Sorte
  6. Mãe Luiza
  7. Nossa Senhora da Apresentação: Loteamentos Populares
  8. Petrópolis, Praia do Meio e Rocas
  9. Felipe Camarão
  10. Monte Alegre

Porto Alegre* 

  1. Universitário e Schonwald
  2. Paraíso, Capão Cruz e Camboim
  3. Centro, Americana e Sumaré
  4. Bela Vista, Cocão, Piratini, Formosa e Maria Regina
  5. Canudos D
  6. Sarandi: Santa Rosa, Parque dos Mayas, Nova Gleba
  7. Niterói A
  8. Piratini, Formosa,  Maria Regina e Umbu
  9. Guajuviras B
  10. Vila Branca, Vera Cruz

Vitória* 

  1. Aribiri, Cavaliere, Ataíde e Garoto
  2. Itararé, da Penha e Bonfim
  3. Vista da Penha, Boa Vista I e II, Residencial Coqueiral e Soteco
  4. Divino Espírito Santo e Cristovão Colombo
  5. Novo México, Jardim Asteca, Jardim Colorado e Vila Nova
  6. Cobilândia, Jardim Marilândia e Rio Marinho
  7. Aparecida, Retiro Saudoso, Graúna e Vila Prudêncio
  8. Primeiro de Maio, Ilha da Conceição, Santa Rita
  9. Santos Dumont, Brisamar, Jardim Guadalajara, Ibes, Nossa Senhora da Penha e Ibes
  10. Oriente / Rio Branco, Itanguá: rua Belém

*inclui​ regiões metropolitanas

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