Amazônia, Sibéria, Indonésia: um mundo em chamas

A intensidade dos incêndios florestais e sua disseminação para novas áreas suscitam temores de que as mudanças climáticas estejam exacerbando os riscos

Kendra Pierre-Louis
Nova York | The New York Times

Na América do Sul, a Bacia Amazônica está em chamas. Do outro lado do mundo, na África Central, vastas extensões de savana estão incendiadas. As regiões árticas na Sibéria estão queimando em um ritmo histórico.

Embora os incêndios florestais no Brasil tenham se transformado em uma grande crise internacional, representam apenas uma das muitas áreas importantes onde a vegetação está queimando hoje em todo o mundo. O aumento de sua severidade e disseminação em lugares onde raramente se viam incêndios agrava os temores de que as mudanças climáticas estejam exacerbando o perigo.

Temperaturas mais altas e mais secas "continuarão promovendo o potencial de incêndio", disse John Abatzoglou, professor associado do departamento de geografia da Universidade de Idaho (EUA), descrevendo o risco de "grandes incêndios incontroláveis, em escala global" se as tendências de aquecimento continuarem.

Os incêndios florestais contribuem para a mudança climática porque não só liberam na atmosfera dióxido de carbono, um importante gás causador do efeito estufa, como também podem matar árvores e vegetação que removem do ar as emissões que aquecem o clima.

Neste ano, até agora, houve um aumento drástico de incêndios florestais em certas regiões árticas que raramente queimavam.

Oficiais da força-tarefa de incêndios florestais e terrestres tentam apagar um incêndio com canos de água em uma plantação de óleo de palma em Pekanbaru, na província de Riau,
Oficiais da força-tarefa de incêndios florestais e terrestres tentam apagar um incêndio com canos de água em uma plantação de óleo de palma em Pekanbaru, na província de Riau, - AFP

Desde julho, o fogo carbonizou cerca de 2,4 milhões de hectares de floresta siberiana, área aproximadamente do tamanho do Estado americano de Vermont. No Alasca, os incêndios consumiram mais de 1 milhão de hectares de tundra e floresta nevada, levando pesquisadores a sugerir que a combinação de mudança climática e incêndios poderá alterar permanentemente as florestas da região.

O Ártico está se aquecendo duas vezes mais rápido que o resto do planeta, e alguns estudos observaram que, à medida que se aquece, "também se espera que haja mais raios", disse o doutor Abatzoglou. E em áreas remotas os raios são uma importante causa de incêndios.

Alguns pesquisadores alertam que, quando os incêndios atingem lugares onde eram raros anteriormente, ameaçam contribuir para um ciclo em que os incêndios potencialmente aceleram a mudança climática, ao adicionar à atmosfera quantidades significativas de dióxido de carbono, um poderoso gás do efeito estufa.

Embora a Amazônia seja amplamente descrita como os "pulmões do mundo", numa referência à capacidade da floresta de produzir oxigênio e armazenar dióxido de carbono, florestas como as da Sibéria são tão importantes para o sistema climático global quanto as tropicais.

Uma razão pela qual os incêndios no Ártico são particularmente preocupantes é que, além de atingir árvores e pastagens, também queimam a turfa, material semelhante a folhas em decomposição no solo que libera muito mais dióxido de carbono quando queima do que uma área igual de árvores. No passado, os incêndios de turfa nos climas do norte eram raros por causa da umidade, que agora está desaparecendo à medida que a região se torna mais quente e seca.

Por razões de geografia, economia, política e clima, não há uma maneira simples de classificar os incêndios florestais --cada um é diferente e pode representar uma combinação de causas.

"Temos os incêndios intencionais, para a limpeza da terra. Temos os incêndios que estão ocorrendo em áreas remotas, que provavelmente não estariam acontecendo, pelo menos nessa gravidade, na ausência das mudanças climáticas", disse Abatzoglou.

Em todo o mundo, essas forças às vezes interagem de maneiras surpreendentemente diferentes.

Amazônia e Indonésia: incêndios propositais

A crise na Amazônia é um exemplo de queimadas deliberadas, feitas para limpar a terra da vegetação florestal, visando a agricultura ou pastagens para o gado. No caso do Brasil, isso é estimulado pela demanda global por soja e gado, particularmente conforme a China enriqueceu e sua população tem mais condições de comprar carne.

Entre 2004 e 2012, o desmatamento na região estava em declínio, mas isso mudou em 2013. Jair Bolsonaro, que no ano passado foi eleito presidente do Brasil, defendeu a expansão da indústria agrícola e rejeitou a ideia de ampliar as proteções aos povos indígenas que vivem na floresta. Isso causou preocupações de que as taxas de desmatamento ainda possam aumentar.

Os primeiros relatórios sugerem que as queimadas deste ano, que coincidem com a estação seca na Amazônia, deverão piorar em parte porque a guerra comercial dos Estados Unidos com a China --um dos maiores compradores de soja do mundo-- levou Pequim a encontrar novos fornecedores para substituir os agricultores americanos. Mesmo assim, "ainda não sabemos quanta área foi realmente queimada", alertou Laura C. Schneider, professora-associada no departamento de geografia da Universidade Rutgers.

As comunidades indígenas da Amazônia usam o fogo nas florestas tropicais há gerações, mas elas tendem a cultivar áreas muito menores, plantar um número relativamente diversificado de culturas e mudar-se para um novo terreno depois de alguns anos, permitindo que a floresta se recupere.

Astronauta italiano Luca Parmitano registrou a fumaça das queimadas na Amazônia nesta semana
Astronauta italiano Luca Parmitano registrou a fumaça das queimadas na Amazônia nesta semana - Luca Parmitano

"É importante mencionar que os indígenas conseguem controlar esses incêndios. E também incomum agora é que o fogo está um pouco fora de controle", disse o doutor Schneider.

Isso é diferente do que está acontecendo atualmente na Amazônia, onde a agricultura mais industrializada significa que as terras desmatadas tendem a permanecer constantemente limpas. Essa terra ainda queima às vezes, no entanto: os agricultores com frequência limpam um campo para uma nova colheita queimando a palha da colheita anterior, o que explica muitos dos incêndios atuais.

Um padrão semelhante está ocorrendo no Sudeste Asiático, onde 71% das florestas de turfa foram perdidas em Sumatra, Bornéu e na Península da Malásia entre 1990 e 2015. Em muitos casos, as florestas foram substituídas por fazendas que produzem óleo de palma, que é usado em tudo, de biscoitos a perfumes, e é uma das culturas mais importantes da região.

Em 2015, a fumaça e a neblina dos incêndios nas turfeiras foram tão graves que podem ter causado a morte prematura de 100 mil pessoas, de acordo com um estudo divulgado no ano seguinte. Depois da névoa daquele ano, o governo adotou várias medidas para reduzir o número de incêndios, mas neste ano a fumaça está de volta.

Ártico: um novo braseiro

Embora ambos envolvam a queima de turfa, os incêndios na Indonésia são bem diferentes do que está acontecendo nas regiões do norte do globo, incluindo o Ártico. Neste verão, incêndios florestais ocorreram em toda a região --incluindo Alasca, Groenlândia e Sibéria, em locais que normalmente não queimaram no passado.

Os incêndios são causados pelo aumento da temperatura, o que resseca as plantas e as torna mais propensas a queimar. Muitos pesquisadores descrevem o calor como um sinal da mudança climática em uma região do mundo que se aqueceu mais rapidamente do que o resto do planeta. Neste verão, por exemplo, partes do Alasca bateram recordes: Anchorage atingiu um pico de 32 graus em 4 de julho, quando a temperatura média nessa época é de 24 graus.

À medida que esses incêndios se espalham, o mesmo ocorre com as emissões de dióxido de carbono, que atingiram seus níveis mais altos desde que começou o registro por satélites, em 2003.

Somente nos primeiros 18 dias de agosto, os incêndios florestais do Ártico emitiram 42 megatons de dióxido de carbono. Isso elevou o total de junho, julho e primeira quinzena de agosto a mais de 180 megatons, cerca de três vezes e meia mais do que a Suécia emite em um ano.

Os incêndios não apenas são amplamente considerados um sinal da mudança climática, como também podem exacerbar o aquecimento global por causa da fuligem produzida pela queima de turfa, rica em carbono. Quando a fuligem se instala nas geleiras próximas, o gelo absorve a energia do sol, em vez de refleti-lo, acelerando o derretimento da geleira.

Califórnia e África: o ciclo sazonal do fogo

Embora os incêndios que atingiram o Ártico neste verão sejam incomuns, nem todos os incêndios florestais são tão imprevistos. Em alguns lugares há um ciclo sazonal de queima que desempenha um papel importante.

O oeste dos Estados Unidos é um exemplo.

É verdade que seres humanos provocam a maioria dos incêndios florestais, seja acidentalmente, com um cigarro ou uma fogueira, ou intencionalmente, para limpar a terra. No entanto, uma razão para que lugares como a Califórnia tenham incêndios florestais quase anualmente é que o Estado, junto com grande parte do oeste e sudeste dos Estados Unidos, é o que os pesquisadores chamam de ecossistemas adaptados ao fogo.

Em outras palavras, algumas paisagens evoluíram ao longo do tempo para não só tolerar o fogo, como realmente precisam dele. Por exemplo, os pinheiros das montanhas Rochosas usados em construção, comuns no oeste dos Estados Unidos, precisam do calor dos incêndios para liberar suas sementes.

Um padrão semelhante pode ser visto em alguns dos fogos na região subsaariana da África, que recentemente chamaram a atenção do mundo. Segundo o doutor Abatzoglou, os ecossistemas da savana ao norte e ao sul da floresta tropical africana queimam de maneira previsível a cada dois ou três anos.

"Este é realmente o ecossistema mais propenso a incêndios do mundo", disse ele. "É a combinação certa de ser úmido o bastante para ter combustível e seco o suficiente para queimar, e há muitos raios."

Ainda assim, a mudança climática pode ter um efeito drástico sobre os incêndios florestais, mesmo nessas partes do mundo. Por exemplo, pesquisas publicadas neste ano sugerem que os incêndios florestais na Califórnia são 500% maiores do que seriam sem as mudanças climáticas induzidas pelo homem.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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