Alemã de 19 anos é aclamada pelos céticos do clima como a 'anti-Greta'

Em evento organizado pela direita americana, jovem disse que alarmismo climático é desprezível

Washington

"O alarmismo das mudanças climáticas é, em sua essência, uma ideologia desprezível e anti-humana. Somos orientados a menosprezar nossas realizações com culpa, vergonha e nojo, sem nem mesmo levar em conta os vários benefícios que tivemos com o uso de combustíveis fósseis como principal fonte de energia."

Aclamada pelos céticos do clima como a resposta conservadora à ativista Greta Thunberg, Naomi Seibt deu seu recado na sexta-feira (28) durante a CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), evento organizado pela direita americana perto de Washington.

A alemã Naomi Seibt, 19, em evento da direita americana nos EUA
A alemã Naomi Seibt, 19, em evento da direita americana nos EUA - AFP

Aos 19 anos, a jovem alemã falou em um painel patrocinado pelo Heartland Institute, centro de estudos que defende o capitalismo e o livre mercado e é financiado por empresas de carvão e combustíveis fósseis. 

Diante de uma plateia de 50 pessoas, Seibt seguiu à risca o roteiro dos que refutam o consenso científico de que as mudanças no clima vão transformar o mundo em que vivemos hoje. Disse que é preciso acabar com o que chamou de "alarmismo climático" e, apesar de discordar da ideia de que seja uma negacionista do clima, avaliou como "ridículo" associar emissões de gases como o CO2 pelos seres humanos ao impacto no clima do planeta. 

Para a jovem, o objetivo dos cientistas que estudam as mudanças climáticas é "envergonhar a humanidade."

"Fui doutrinada na escola para ser uma alarmista climática, mas fui inspirada por pessoas que encontrei online e cientistas a pensar mais. A propaganda sobre mudança climática é associada a políticas que querem nos impor. Eles nos levarão à pobreza energética, que é uma maneira de nos controlarem", afirmou.

Seibt foi contratada pelo Heartland no fim do ano passado e, segundo o instituto, seu trabalho é "comunicar o realismo climático para sua geração, envolta em absurdos apocalípticos a vida inteira, na Europa e nos EUA."

"Ao contrário da jovem comunicadora climática favorita da mídia global, Greta Thunberg, Naomi Seibt não quer que você entre em pânico. Ela quer que você pense, como ela também o fez para se libertar da doutrina alarmista climática", diz o Heartland em comunicado. 

A jovem ainda aparece em um dos vídeos de divulgação do instituto dizendo que o mundo "não está acabando por causa da mudança climática."

"Na verdade, daqui a 12 anos, estaremos por aqui tirando fotos no nosso iPhone 18S."

Analistas discutem até que ponto a equivalência entre Seibt e Greta é autêntica e não uma campanha para distrair as atenções do debate sobre mudanças climáticas.

A figura de Greta viralizou no ano passado após a adolescente sueca promover protestos de jovens pelo mundo reivindicando cortes mais profundos nas emissões de carbono.

A direita conservadora, por sua vez, começou a atacar a ativista e agora inaugura um novo capítulo da disputa com liberais na seara do clima trazendo a jovem alemã a público.

Na visão dos críticos, porém, Seibt aparece como promoção paga por uma empresa que tem interesses específicos sobre o assunto e não de forma orgânica como teria despontado Greta. 

Nascida em Munster, Seibt tem 68,6 mil inscritos no canal de YouTube que inaugurou em maio de 2019. 
Ali posta vídeos que, além de mudanças climáticas, falam contra o feminismo, políticas de imigração e "a mídia tradicional" —retórica ecoada pelos conservadores americanos e pelo presidente Donald Trump. —

Não por acaso o palco para a estreia da alemã nos EUA foi o tradicional evento conservador que, neste ano, contou com os holofotes para a participação de Trump, no sábado (29), quando também falou o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Após sua exposição na sexta, Seibt foi questionada sobre posições antissemitas e de apoio à supremacia branca.

Jornalistas perguntaram se ela ainda considerava o youtuber canadense Stefan Molyneux "uma inspiração" —o jovem é descrito como "suposto líder de culto que amplia o racismo científico, a eugenia e a supremacia branca" pelo Southern Poverty Law Center, que monitora o extremismo e a supremacia branca no mundo. A alemã respondeu que sim.

Segundo Molyneux, a Polônia era "pacífica, livre, fácil, civilizada e segura" porque era "essencialmente um país totalmente branco." Para Seibt, as declarações do canadense foram "tiradas de contexto."

Ela também foi questionada a respeito de comentários que fez após um ataque a uma sinagoga na cidade de Halle, na Alemanha, que deixou dois mortos. Na ocasião, disse que os judeus estavam "no topo" do grupo dos que se sentem oprimidos e que "alemães comuns" estavam no final da fila.

A jovem negou que seja antissemita e disse: "É ridículo como a mídia escolhe as coisas que eu falo."

Em novembro do ano passado, Seibt participou de um evento em Munique em um centro de estudos ligado ao AfD, partido de extrema direita alemão que milita contra a imigração, o Islã e a União Europeia.

Foi quando conheceu um dos diretores do Heartland. Fundado em 1984, o instituto com sede em Chicago diz ter 5.500 doadores anônimos que financiam suas atividades.

Um deles é a família de Rebekah Mercer, que contribuiu com a campanha de Trump em 2016. Ela foi afastada do conselho do Museu de História Natural de Nova York depois que veio à tona a informação de que havia doado US$ 7,5 milhões ao instituto que nega a ciência e é acusado de lançar uma campanha para combater os esforços da Alemanha de regular as emissões de CO2.

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