Descrição de chapéu indios

Liderança indígena do Pará ganha Prêmio Robert F. Kennedy de direitos humanos

Láurea foi entregue a Alessandra Korap por sua luta contra as propostas do governo de legalizar mineração em terras indígenas

Curitiba

Alvo constante de ameaças, a líder mundurucu Alessandra Korap, 36, é a ganhadora deste ano do Prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos (EUA). Trata-se de um reconhecimento à sua luta em defesa dos direitos indígenas e contra propostas do governo federal de legalizar mineração e outras atividades com impactos socioambientais em terras indígenas.

“Como liderança, Alessandra defende os direitos indígenas, principalmente na luta pela demarcação dos territórios indígenas e contra grande projetos que afetam terras indígenas e territórios tradicionais na região do Tapajós [Pará e Mato Grosso]”, diz o comunicado do prêmio.

Por telefone, Korap disse que o prêmio ajudará a fortalecer o território mundurucu. “A Funai e o próprio presidente [Jair Bolsonaro] negam nosso direito à terra. Os caciques ficaram muito felizes com o prêmio, apesar de tudo o que está acontecendo, das ameaças. É um prêmio coletivo em defesa do território.”

É a segunda vez que um brasileiro ganha o prêmio, criado há 37 anos. Em 2001, o advogado Darci Frigo foi homenageado por seu trabalho em favor da reforma agrária.

A líder mundurucu Alessandra Korap, que ganhou prêmio americano de direitos humanos - Alberto César Araújo/Amazônia Real

Outros homenageados incluem o ativista de direitos humanos venezuelano Alfredo Romero (2017), crítico da ditadura encabeçada por Nicolás Maduro, e a militante sul-africana Winnie Mandela (1985), ex-mulher de Nelson Mandela.

O prêmio leva o nome do irmão do presidente democrata John Kennedy, morto em 1963. Procurador-geral e senador por Nova York, Robert também foi assassinado, em 1968.

O vencedor recebe US$ 30 mil (R$ 166 mil). Todo o dinheiro será usado para fortalecer a luta dos mundurucus, diz Korap.

A cerimônia virtual, em 22 de outubro, contará com a participação de John Kerry, ex-secretário de Estado dos EUA e candidato derrotado à Presidência do Partido Democrata.

Garimpo e demarcação

Com o território dentro da maior reserva aurífera no país e na área de influência da BR-163 (Cuiabá-Santarém) e da BR-230 (Transamazônica), os mundurucus enfrentam invasões de mineradores, de madeireiros e de grileiros, além do atraso na homologação da Terra Indígena (TI) Sawré Muybu, localizada no médio rio Tapajós.

Na Terra Indígena Munduruku (alto Tapajós), já homologada, a “febre do ouro” vem destruindo vários igarapés e rios e provoca crescentes divisões internas entre indígenas contrários e favoráveis à exploração do ouro, atividade ilegal que Bolsonaro promete regularizar.

Na semana passada, garimpeiros mundurucus e não indígenas fecharam as duas rodovias exigindo a legalização. Uma equipe de TV norte-americana teve seus equipamentos destruídos.

No ano passado, Korap ganhou projeção ao participar de diversos protestos e outras iniciativas contrárias aos planos de Bolsonaro. Em uma reunião com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), bateu várias vezes na mesa ao falar dos problemas do seu povo e criticar as políticas do governo federal.

A atuação de Korap e de outras lideranças mundurucus contrárias à exploração de ouro tem provocado uma série de ameaças. Em novembro, ela denunciou à polícia que invasores levaram documentos, tablet, celular e o cartão de memória de dentro de sua casa, em Santarém (PA), onde estuda direito.

“Quem defender o rio e o território, é ameaçado. Quando o presidente fala, é venenoso. Então esses ataques vêm do próprio presidente. Ele fala, e as pessoas já fazem aqui embaixo. A gente tem de se cuidar, lutar de uma forma que, muitas vezes, tem de dar passos pra trás. E, quando a gente faz isso, eles se fortalecem com as pessoas a favor da destruição do território. Onde vamos parar?”, disse à Folha.

Sobre as preocupações mais urgentes, a líder mundurucu mencionou o Projeto de Lei (PL) 191, proposta por Bolsonaro, que regulariza mineração e projetos hidrelétricos em terras indígenas.

“Se for aprovado, vai servir para todas as TIs. O Ibama já não dá conta, imagina com o PL. Será a morte dos rios, dos peixes. Todo o povo da Amazônia vai sofrer. Não vai ter floresta em pé. É o PL da morte.”

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