Ciência da China busca liderança, mas pressa e autoritarismo levam a desconfiança

Pesquisas do país asiático são menos influentes que as de EUA e Holanda, mas superam as do Brasil

Reinaldo José Lopes
São Carlos

Nos últimos dois meses, pesquisadores chineses viraram notícia no mundo inteiro ao pousar pela primeira vez uma sonda no lado afastado da Lua e anunciar o nascimento de bebês cujo DNA tinha sido alterado por uma técnica de edição genômica. Tais feitos reforçam o que as estatísticas já indicavam: a China se tornou uma das principais potências científicas do planeta.

Segundo a Web of Science, que mapeia pesquisas publicadas em periódicos especializados com revisão por pares (ou seja, na qual cientistas de determinada área analisam o trabalho antes da publicação), os mais de 400 mil artigos científicos publicados por chineses colocam o país no segundo lugar do ranking mundial, atrás apenas dos EUA.

Dependendo da base de dados utilizada, pode-se considerar que a China até já ultrapassa ligeiramente os EUA. É o que diz um levantamento de 2018 da NSF (Fundação Nacional de Ciência americana), com base no sistema Scopus. 

Apenas a União Europeia, com sua produção de pesquisas somada, é que ainda ultrapassaria com folga os chineses. Nos últimos dez anos, o crescimento das publicações vindas do país foi de mais de 2,5 vezes —o Brasil, que também teve expansão de suas pesquisas, não chegou a dobrar o número de artigos. 

É verdade que, em muitos aspectos, tamanha produtividade não se reflete em qualidade. Em média, estudos feitos por chineses ainda são pouco citados por outros cientistas quando comparados aos de pesquisadores dos EUA, ou de países como Canadá, Suíça ou Holanda. As citações são uma medida tradicional de quão influente é um estudo —quanto mais citado, maior seu impacto sobre outros trabalhos.

Por outro lado, a pesquisa chinesa com frequência segue uma abordagem mais pragmática, concentrando-se em áreas tecnológicas, como engenharia, ciência dos materiais, química e energia, as quais, por vezes, não atraem tantas citações, embora tenham potencial considerável de impacto econômico. 

Apesar disso, a média de citações de cada pesquisa chinesa, que era inferior à de estudos assinados por brasileiros em meados da década passada, já é 30% maior que a média de pesquisas de hoje no país.

A escala e o planejamento dos investimentos do país em pesquisa nas últimas décadas ajudam a explicar parte da transformação. Desde 2010 os gastos na área passaram de US$ 200 bilhões para mais de US$ 400 bilhões (mais de 2% de seu do PIB).

Tais gastos vultosos foram acompanhados por um plano nacional para a área, com duração de 15 anos, lançado em 2006, conta o biólogo José Anderson Feijó da Silva, brasileiro especialista em mamíferos tropicais que hoje faz seu pós-doutorado na Academia Chinesa de Ciências, em Pequim.

O número de universidades duplicou nesse período, aumentando assim o corpo docente, o número de pesquisadores e também de universitários, que potencializam as pesquisas no país, diz ele.

Para o paleontólogo Xing Xu, também da academia chinesa, a intensificação do intercâmbio chinês com os países desenvolvidos, por meio do envio de estudantes para os EUA e a Europa, talvez tenha sido o fator mais importante. 

Em sua própria área de pesquisa, na qual fósseis chineses superpreservados de dinossauros com penas e mamíferos primitivos se tornaram celebridades paleontológicas, ele aponta o peso do mercado da construção civil —grandes obras tendem a expor novas jazidas de fósseis.
As metas de crescimento da produção científica estabelecidas pelo governo também criaram pressões para condutas questionáveis. 

Além da atenção aos recursos humanos, por meio de bolsas de mestrado e doutorado como temos aqui, impressiona o que eles investem em infraestrutura”, conta Taissa Rodrigues, paleontóloga da Universidade Federal do Espírito Santo que colaborou com cientistas da China junto com seu antigo mentor, Alexander Kellner, do Museu Nacional. Laboratórios dobram de tamanho ou passam a ocupar prédios inteiros após alguns anos, e pós-graduandos têm acesso a alojamentos dentro da própria instituição de pesquisa (no Brasil, isso só acontece com uma minoria dos alunos de graduação).

Um levantamento da Universidade da Califórnia em Santa Barbara (EUA) com mais de 700 cientistas da China revelou que muitos deles conhecem casos de fraudes e plágios como mecanismo para bater as metas anuais. E o país tem tentado combater publicações científicas consideradas predatórias, que cobram uma taxa por artigo publicado e fazem vista grossa a pesquisas de má qualidade.

A expansão científica chinesa e suas possíveis conexões com novas tecnologias militares provocou uma reação do governo Trump, que já tem um conflito comercial declarado com a potência asiática.

Em junho do ano passado, o Departamento de Estado dos EUA diminuiu de cinco anos para um ano o prazo de validade dos vistos de pós-graduandos chineses em território americano. A medida vale para os que fazem pesquisa em áreas como aviação, robótica e manufatura avançada.

Congressistas do Partido Republicano, ao qual pertence Trump, apoiaram a medida, argumentando que ela ajuda a proteger a propriedade intelectual de tecnologias desenvolvidas nos EUA em áreas sensíveis do ponto de vista da segurança nacional. 

Ao longo da última década, o número de chineses que fazem pós-graduação nos Estados Unidos mais do que dobrou (de 50 mil em 2007 para 130 mil em 2016). Eles são os estrangeiros mais numerosos nos programas de pesquisa americanos, seguidos pelos estudantes da Índia. 

Os temores do governo Trump nesse ponto podem até ser infundados, mas é inegável que ao menos parte da pesquisa realizada em território chinês ainda não segue os padrões de transparência normalmente esperados nos países desenvolvidos.

Isso se dá tanto em áreas com implicações geopolíticas e militares, como a pesquisa espacial, quanto em campos como a biotecnologia. 

O anúncio dos bebês chineses geneticamente modificados em novembro de 2018, por exemplo, pegou a comunidade científica internacional de surpresa e produziu uma saraivada de críticas contra o pesquisador responsável pelo feito, He Jiankui —entre elas, um manifesto assinado por mais de uma centena de seus colegas chineses.

Boa parte da falta de transparência parece estar ligada à centralização das decisões, típica do sistema político chinês, hierárquico e autoritário. Em uma análise recente do avanço científico do país, a revista britânica Economist afirma que ainda há um grande abismo entre o país e seus concorrentes ocidentais. 

"A ideia de que é possível obter uma ciência realmente confiável, ou realmente excepcional, num sistema político que depende de uma cultura de autoridade inquestionável é algo que ainda não foi demonstrado", diz a publicação. 

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