Alvo de Bolsonaro, Inpe tem ciência de impacto acima da média e parceria com a Nasa

Pesquisa do instituto cresceu apesar de queda nos recursos repassados nos últimos anos

Sabine Righetti Estêvão Gamba
Campo Grande e São Paulo

Criticado recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos (SP), tem produção científica crescente e de impacto acima da média nacional —metade dela produzida com parceiros internacionais importantes, como a Nasa (agência espacial americana).

O instituto publica, em média, um resultado científico por dia em áreas como astrofísica, engenharia espacial e sensoriamento remoto, o que inclui trabalhos sobre desmatamentos na Amazônia, alvo das críticas de Bolsonaro. Metade desses novos estudos é feita em parceria com instituições importantes mundo afora.

Mais do que isso, os estudos do instituto servem como referência para novos trabalhos científicos brasileiros e estrangeiros. A cada dez novas menções a pesquisas publicadas por cientistas do Inpe, quatro aparecem em trabalhos de pesquisadores de fora do Brasil. O CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica, na sigla em francês), o Max Planck (da Alemanha) e, novamente, a Nasa estão entre as instituições que mais citam o instituto.

 

Isso faz com que, em média, cada trabalho do Inpe seja mencionado 5,9 vezes em trabalhos científicos subsequentes. O número está bem acima da média de impacto dos trabalhos acadêmicos feitos no Brasil: 0,9, de acordo com o relatório de impacto do Nature Index de 2019.

Citações são consideradas indicativo de qualidade dos trabalhos científicos. Entende-se que estudos muito mencionados em novas pesquisas são uma referência para sua área do conhecimento.

Os dados do Inpe contrariam uma declaração recente de Bolsonaro. Em café da manhã com jornalistas estrangeiros no último dia 19, o presidente afirmou que os dados de desmatamento do Inpe são incorretos, exagerados e que prejudicam a imagem do país

Esses dados são baseados em imagens de satélite obtidas diariamente pelo Inpe. As informações são utilizadas pelo governo, por ONGs e por cientistas que estudam desmatamento em todo o mundo. 

Instituto publica, em média, um resultado científico por dia
Instituto publica, em média, um resultado científico por dia - Inpe - Divulgação
 

Bolsonaro também criticou o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, que reagiu em entrevista à imprensa. Galvão foi convocado oficialmente pelo ministro Marcos Pontes (Ciência) para uma conversa, que ainda não aconteceu. 

O embate tem sido pauta da reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), evento científico mais importante do país que, neste ano, acontece na UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso). A SBPC lançou um documento com críticas às falas de Bolsonaro.

Os dados tabulados pela Folha mostram ainda que a ciência produzida pelo Inpe cresceu 24% nos cinco anos analisados (de 2013 a 2017). Foram mais de dois mil estudos novos nesse período.

Apesar disso, a quantidade de recursos repassados ao Inpe pela agência federal CNPq, por meio de bolsas de pesquisa, caiu 47% nos mesmos anos. Foram R$21 milhões em bolsas em 2013, valor que caiu para R$11,2 milhões em 2017. Bolsas de pesquisa são uma espécie de "salário" pagos a pós-graduandos que se dedicam exclusivamente a seus trabalhos acadêmicos.

Os dados de produção científica e de impacto dos estudos do Inpe foram levantados na base de periódicos Web of Science seguindo a mesma metodologia do RUF (Ranking Universitário Folha). Foram considerados os estudos científicos publicados em cinco anos (2013-2017) e as menções a esses estudos feitas em 2018. Já os recursos para pesquisa foram levantados no CNPq.

Essa não é a primeira vez que o governo critica instituições públicas de pesquisa. Em abril, Bolsonaro afirmou, em entrevista, que poucas universidades no Brasil fazem pesquisa e, das que fazem, a maioria está na iniciativa privada. A informação está incorreta: 90% da ciência brasileira é produzida nas universidades públicas.

Também em abril, o ministro da Educação ​Abraham Weintraub disse que três universidades federais (UnB, UFBA e UFF) estariam fazendo “balbúrdia” no lugar de melhorar seu desempenho acadêmico. A afirmação também está equivocada. Desde 2012, as três federais estão entre as 20 melhores universidades brasileiras no RUF (de um total de 196 instituições).

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