Descrição de chapéu Homem na Lua, 50

Era tudo paranoia

Se os tripulantes da Apollo 11 fossem brasileiros, seria difícil não imaginar a cena como uma espécie de conquista do penta

Otavio Frias Filho

O texto abaixo foi publicado originalmente em 16/7/1999, no aniversário de 30 anos da chegada do homem à Lua.

“Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes / que o nosso Trio, mas tiveram melhor sorte: Heitor / foi poupado ao vexame de a sua bravura / ser coberta pelas câmeras de televisão.”
W.H. Auden, “Descida na Lua”, 1969

Quando os americanos chegaram à Lua, eu estava, aos 12 anos, atravessando os Estados Unidos de uma costa à outra numa viagem com meus pais e irmãos. Era uma oportunidade desperdiçada em introspecções de adolescente, enfurnado no fundo do carro. O que me deprimia, penso hoje e não seria capaz de formular então, era a superioridade da civilização americana.

Naquela época, os Estados Unidos ainda preservavam as aparências assépticas com que se retrataram nos anos 50, e pairava, sobre sua ofuscante exuberância material, a sensação de que tudo funcionava bem. Eles eram mais avançados, mais democráticos, mais puritanos, mais eficientes, sua “grama era mais bacana”, como no verso de Paulo Leminski. Essa percepção, que se estabeleceu em mim naquela viagem, foi por muito tempo uma fonte de inconformismo, despeito, admiração e hostilidade. Como tantas outras gerações de brasileiros, também fantasiava ajudar a fazer do Brasil, quando crescesse, um Estados Unidos à nossa maneira.

Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, no Mar da Tranquilidade - Nasa

A expedição à Lua foi plasticamente memorável por ajustar os dois lados do mito americano, o tecnológico e o romântico. O astronauta solitário nos espaços infinitos é o herói emersoniano, popularizado pelo western, por Charles Lindbergh, por Humphrey Bogart, indivíduo comum elevado ao estatuto de nação soberana em guerra aberta contra a natureza e contra seus semelhantes. Seu perfil intratável, no entanto, é amenizado pela tecnologia e pelo trabalho em equipe que ela impõe. O astronauta não deveria resumir-se a um cowboy, nem mesmo a um engenheiro: segundo a propaganda da Nasa, Neil Armstrong, por exemplo, lia grego.

Eu acompanhava a corrida espacial com empolgação, sabia os nomes dos astronautas e dos seus colegas e rivais, os cosmonautas, não me parecia haver assunto mais digno de interesse para a humanidade. Não torcia pelos americanos, ficava num nacionalismo embrionário e imparcial, admirando os lances dos dois times como um torcedor interiorano. Mas o dia que eu esperava fazia tanto tempo revelou-se previsivelmente anticlimático.

Estávamos no meio do deserto, sol e calor, acho que era em Nevada. Paramos para almoçar à beira da estrada, num daqueles motéis sinistros, de Nabokov e Hitchcock, que surgem do nada nos descampados do Meio-Oeste americano. Não havia festa, nem bandeira. Chegamos em cima da hora, a televisão da sala de estar já estava cercada de gente, algumas em pé; não se via nada. Se os tripulantes da Apollo 11 fossem brasileiros, seria difícil não imaginar essa cena como uma espécie de conquista do penta.

Mas o clima ali era o de um coquetel afável, e logo que Armstrong disse, sua voz aguda e ofegante, com um intervalo longo entre as orações, a frase decorada (“é um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a humanidade”, frase inaudível naquele momento), quando todos se certificaram de que ele tinha chegado bem, começaram a se dispersar, de volta às mesas e aos carros. Não posso ter ficado ali sozinho, vitrificado diante da televisão, como me sugere a memória, mas fiquei bastante tempo, saboreando o desprezo que sentia por aquela quase-indiferença.

Fixada na base do módulo lunar, a câmera mostrava uma imagem turva da escada e da silhueta de Armstrong, num claro-escuro violento, como num filme de Murnau. Era fantasmagórico. Era a primeira vez que se via um ser humano como se fosse um extraterrestre (e em certo sentido ele era). A nave levava uma placa onde estava gravado, a quem interessar possa, que os visitantes vinham “em missão de paz em nome de toda a humanidade”. Não levaram a bandeira da ONU, porém, mas a do seu país, que deixaram desfraldada ao vento solar.

A corrida espacial é um dos melhores exemplos do comando incrível que a ideologia pode ter sobre os homens. Não estava em jogo nenhum objetivo estratégico, econômico, nem sequer científico. Era tudo propaganda e paranoia. E talvez os soviéticos tenham começado a perder a Guerra Fria naquele 20 de julho em que, ao ceder a Lua, cediam também Marte, concentrando-se nos seus esforços tradicionalmente infrutíferos em direção a Vênus.

 

Otavio Frias Filho (1957-2018) foi diretor de Redação da Folha por 34 anos. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.