Descrição de chapéu Coronavírus

Livro-reportagem 'Contágio' expõe como a bola da Covid-19 já estava cantada há muito tempo

David Quammen mostra fatores que produziram a proverbial tempestade perfeita pandêmica

São Carlos (SP)

O mantra que deveria estar na cabeça de todas as pessoas que sobreviveram aos nove meses da presente pandemia é simples: essa bola já estava cantada há muito tempo. Os fatores biológicos, sociais e econômicos que transformaram a Covid-19 numa ameaça global foram arquitetados faz décadas, conforme mostra o livro-reportagem “Contágio”, do americano David Quammen.

Qualquer pessoa que se sinta tentada a acreditar em teorias da conspiração sobre vírus criados por comunistas malvados em laboratório deveria receber um exemplar de presente, aliás, porque a narrativa de Quammen, com personagens e cenários em quatro continentes, mostra com clareza como o script seguido pelo vírus Sars-CoV-2 é um plágio descarado do que aconteceu com diversos outros patógenos (causadores de doenças) no passado recente.

Trata-se de um roteiro que combina a lógica impessoal do darwinismo com as forças mais caóticas (e frequentemente mais burras) das sociedades humanas. Sabe-se há muito que a maioria das doenças infecciosas emergentes são zoonoses, ou seja, surgem quando vírus, bactérias ou outros parasitas microscópicos, antes adaptados a se aproveitar do organismo de animais, aprendem a invadir o corpo do Homo sapiens. E o mais comum hoje é que essas zoonoses venham de espécies silvestres, que podem funcionar como reservatórios naturais dos patógenos, às vezes sem apresentar sintoma algum.

O que acontece é que essa equação tem sido brutalmente facilitada – do ponto de vista dos causadores de doenças, pelo menos – por uma série de fatores, que se conjugam para produzir a proverbial tempestade perfeita pandêmica. Populações humanas em expansão com densidades crescentes, voracidade da demanda por recursos naturais e proximidade com áreas ricas em biodiversidade juntam a fome com a vontade de comer, digamos.

Isso porque o desmatamento, a caça e o tráfico de animais silvestres fazem crescer as oportunidades de contato entre os seres humanos e os bichos que carregam patógenos letais – primatas e morcegos no caso do Ebola; aves migratórias no das novas cepas de gripe; morcegos, pangolins e talvez outros bichos no dos coronavírus. E a densidade populacional humana permite que, uma vez que um patógeno “aprenda” a dar o salto, ele se espalhe feito fogo em mato seco, saltando de continente para continente nos assentos dos aviões.

Quammen é soberbo ao expor as peças desse quebra-cabeças. Com fôlego de aventureiro, visitou as selvas da África equatorial onde nasceu o Ebola e os restaurantes clandestinos da China onde, ao menos na década passada, era possível comer praticamente qualquer tipo de vertebrado selvagem, inclusive os que abrigam vírus inauditos. O livro está repleto dessa cor local e da sensação de acompanhar os personagens humanos e animais em seu ambiente, da égua australiana que morreu espumando sangue (o culpado era o Hendra, um vírus emergente que também matou pessoas) aos mineiros congoleses que acharam que seria uma boa ideia comer aquele gorila que tinham achado morto no meio da mata.

David Quammen, autor do livro 'Contágio', em Nova York - Robert Caplin - 17.out.2012/The New York Times

Mais importante ainda, as viagens do autor documentam com precisão como a lógica necessária para compreender a natureza das doenças infecciosas emergentes foi sendo construída, e o tamanho do esforço dos pesquisadores que tentam mapear esse tipo de ameaça antes que os cadáveres comecem a ser empilhados.

Tais esforços, embora tenham produzido muitos avanços ainda estão longe de receber financiamento adequado e um nível de cooperação internacional suficiente para minimizar o perigo, como ficou claro nos últimos meses. É desesperador imaginar que nem assim o alerta do livro terá garantia de ser ouvido, afinal.

Contágio: Infecções de Origem Animal e a Evolução das Pandemias
David Quammen; tradução de Fernanda Abreu, Isa Mara Lando, Laura Teixeira Motta e Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; R$ 39,90 (ebook); 730 págs

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