Bruno Covas lava as mãos sobre previdência e diz que urnas julgarão Doria 

Novo prefeito de SP diz assumir as 118 promessas eleitorais de seu antecessor

Reunião de secretariado e transmissão do cargo de prefeito para Bruno Covas
Reunião de secretariado e transmissão do cargo de prefeito para Bruno Covas - Leon Rodrigues/SECOM Prefeitura de S.Paulo
Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

Novo prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB) diz que a decisão de João Doria de abandonar o cargo para disputar o governo estadual será julgada pelas urnas.

Aos 38 anos, completados neste sábado (7), ele se refere à sua gestão como um voo que apenas troca de piloto, mas segue o mesmo rumo.

Sobre a reforma da previdência municipal, Covas diz que o Executivo já fez o seu papel e joga a responsabilidade no colo dos vereadores.

Após pressão dos servidores sobre o Legislativo, incluindo manifestações com dezenas de milhares de presentes e greve de professores por semanas, o projeto foi congelado pela Câmara por quatro meses, até o final de julho, quando poderá voltar à pauta.

Em caso de fracasso na aprovação, por ora, Covas descarta aumento de impostos para compensar o rombo, que foi de R$ 4,7 bilhões em 2017. O tucano diz que a prefeitura deve contornar a situação aprofundando ainda mais os cortes nos gastos.

Covas falou à Folha nesta sexta-feira (6), diante de cerca de dez assessores, horas antes de assumir o cargo.


Bruno Covas, 38

> Graduado em direito pela USP e economia pela PUC-SP

> Deputado estadual, secretário de Meio Ambiente (2011-2014), deputado federal (2015-2016) e secretário das Prefeituras Regionais e da Casa Civil de Doria


 

Folha - Doria acerta ou comete um erro político ao deixar a prefeitura mil dias antes?
Bruno Covas - Ele escolheu ser candidato a prefeito, enfrentou prévias, a campanha e foi eleito em primeiro turno. Agora, diferentemente de escolher virar candidato, ele foi escolhido [para disputar o governo]. A bancada estadual esteve aqui, a bancada federal, vereadores, prefeitos. Foi escolhido por 80% dos filiados. Não é erro ou acerto dele. A população vai julgar nas urnas em outubro.

A população entende esse movimento político de quem se vendeu na campanha como um gestor do setor privado?
Vamos ver a resposta nas urnas.

A saída dele dessa forma pressiona seu início de gestão?
A gente já tem metas que foram combinadas com a população durante a campanha, que foram depois reafirmadas no plano de metas. A gente tem um voo com rumo certo, um caminho a ser percorrido. Tem uma mudança agora de piloto, mas os programas já estão estabelecidos.

O sr. pretende comprar briga pela [aprovação da] reforma da previdência municipal?
O desgaste é grande, mas precisa ser enfrentado. Essa briga comprei já como vice-prefeito, já como secretário da Casa Civil. Agora, a gente respeita a decisão da Câmara de criar uma comissão, estudar o assunto [por 120 dias] e verificar se vai ser a posição aprovada ou não. Então, estamos agora aguardando o próximo passo, que quem vai dar é a Câmara, não o Executivo.

A ideia é manter a atual previdência ou continuar a briga para mudá-la?
A prefeitura já apresentou a sua proposta. Agora, a Câmara está debatendo e vamos ver de que jeito eles vão aprovar. Ou não.

O sr. chegou a dizer que, sem a reforma da previdência, poderia haver aumento de imposto. Como seria feito isso?
A não aprovação da reforma da previdência nos coloca com três opções: ampliação de tributos, maior contenção de gastos para conter o rombo ou não pagamento de aposentadoria. Não tem milagre, é uma das três opções que resta. Hoje a opção que a prefeitura trabalha é uma maior contenção de despesas para cobrir o rombo previsto para este ano de 2018, de R$ 5,8 bilhões.

O ex-prefeito Doria o afastou da coordenação da zeladoria. Como encara a avaliação que foi feita do seu trabalho?
Não estava como não continua estando no nível de excelência que nós desejamos. Mas já estava melhor do que em 1º de janeiro de 2017. Não é verdade que o prefeito reprovou, o que nós tivemos foi um entendimento de que eu poderia continuar ajudando na articulação política.

A zeladoria foi um ponto que o prefeito fez um mea culpa. Na opinião do senhor qual foi a principal falha até agora?
A principal dificuldade é ter hoje menos recurso que administrações anteriores tiveram. No ano passado, o recurso previsto para zeladoria era 
R$ 350 milhões. No último ano da gestão Kassab, o valor atualizado de recursos era de R$ 1,3 bilhão. Então, a gente tinha menos recurso, menos equipes. O que nós fizemos ao longo do tempo foi ampliar a produtividade, cobrar cada vez mais a atuação das equipes, mas é claro que se a gente tivesse mais recursos a gente estaria fazendo ainda mais.

Qual foi a principal falha e o que merece ser ajustado?
Muito difícil avaliar a principal falha de um governo que está em andamento, que terá agora continuidade e que tem todas as suas metas para serem aferidas ao final de quatro anos. Não dá para avaliar 15 meses de gestão com as metas de 48 meses. O que eu tenho certeza é que as secretarias têm feito um bom trabalho e que nós vamos atingir essas metas nesses quatro anos.

O senhor se define como um social-democrata, e Doria se define como liberal. Na prática da administração, isso vai mudar alguma coisa?
Não. Temos um programa e um compromisso que foi estabelecido pela população na campanha e que foi reafirmado no programa de metas. Não há nenhuma mudança na política, seja na educação, na saúde, na assistência, no esporte, no meio ambiente.

A base na Câmara está enfraquecida por causa da disputa pelo governo estadual e também pelo desgaste de Doria devido à reforma da previdência. O que o sr. vai fazer para recuperar a base? Vai aceitar indicações para cargos?
Não há nenhuma fragilidade, dificuldade na relação com a Câmara. É uma relação que requer permanente diálogo, discussão, aperfeiçoamento, mudança dos projetos, execução das emendas pela prefeitura.

Os prefeitos têm relação tensa com o TCM, que tem paralisado licitações importantes. Há até um movimento para extinguir o órgão. O que o sr. pensa disso?
Sou contrário. Acho que o TCM faz bom trabalho. Do ponto de vista institucional, respeito as decisões do TCM. Vamos buscar ter o maior número possível de ações conjuntas, uma boa relação e um bom entendimento.

Qual será sua principal marca como prefeito, a prioridade zero de sua gestão?
Minha prioridade pessoal é relacionada à área social: educação, assistência, saúde. Agora as metas já estão estabelecidas. O que vai ter é uma cobrança ainda maior sobre os secretários dessas áreas.

A Folha compilou 118 promessas que Doria fez na campanha eleitoral e antes de assumir o cargo.
[Comprometo-me com] as 118 que ele fez, o plano de metas discutido com a Câmara e todos os compromissos que ele assumiu, inclusive depois da eleição.

A gente vê no sr. uma postura de menos confronto.
É o meu estilo. Não tenho nenhuma dificuldade em conversar com quem pensa diferente de mim. Até porque a população espera que a gente deixe os embates políticos para os momentos de eleição.

O senhor anda de bicicleta?
Ando mais de metrô.

Os paulistanos vão ver o senhor no metrô?
Quem me conhece já me viu andando de metrô. Moro na Barra Funda e venho de metrô até o Anhangabaú [onde fica a prefeitura].

Mas agora vai ficar difícil andar tranquilamente, como prefeito.
Paciência, né? Só faltava eu ter medo de povo.

O senhor será candidato à reeleição?
Não tenho essa preocupação no momento. Vamos deixar 2020 para 2020.

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