Bombeiros buscam 4 desaparecidos após queda de prédio no centro de SP

Além de um morador chamado Ricardo, mulher e filhos gêmeos são procurados

Bombeiros caminham sobre escombros em busca de desaparecidos após desabamento de prédio no centro de São Paulo
Bombeiros caminham sobre escombros em busca de desaparecidos após desabamento de prédio no centro de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress
Marina Estarque
São Paulo

​O Corpo de Bombeiros informou, na tarde desta quarta-feira (2), que quatro pessoas são consideradas desaparecidas após o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu, região central de São Paulo. As buscas continuam. 

Segundo o capitão Marcos Palumbo, além de Ricardo, que estava prestes a ser içado pelos bombeiros quando o prédio desabou, parentes relataram o desaparecimento também de uma mãe e e seus dois filhos gêmeos, de nove anos, que estariam no prédio e não foram localizados desde o incêndio que levou ao desabamento. 

Palumbo diz que o marido procurou os bombeiros para informar o desaparecimento. “Eles moravam no oitavo andar. Eles deveriam estar no abrigo e não estão. Ela não está atendendo o celular, então isso é um grande indício de que algo tenha acontecido com ela”, afirmou. 

O nome da mulher e das duas crianças não foi informado pelos bombeiros, mas na terça (1º), vizinhos perguntavam repetidamente por Selma, conhecida por ser mãe de dois meninos idênticos. Sobrenome, idade ou tempo de ocupação também eram desconhecidos pelos outros moradores no dia do desabamento. 

“A nossa preocupação é de que a Selma tinha um sono muito pesado. Ela pode ter morrido sem conseguir fugir ou escapou e não quis mais voltar”, chegou a dizer Jéssica Matos, 20, no início das buscas. 

 


Apesar do número de desaparecidos contabilizado pelos bombeiros, a prefeitura afirma desconhecer o paradeiro de 49 pessoas, que estavam entre os cadastrados em março do ano passado. Mas, como a rotatividade no local é alta, é possível que elas nem estivessem mais dormindo lá —assim como outras podem ter entrado no local desde então.

O Corpo de Bombeiros trabalha com cães farejadores e estão munidos com drones e câmeras sensíveis ao calor para tentar localizar possíveis sobreviventes. Neste segundo dia de buscas, a corporação tem 75 homens que estão alocados em três frentes: busca e salvamento, continuidade do rescaldo e liberação de vias no entorno, para que a Eletropaulo possa desligar a rede elétrica do edifício.

Na madrugada de quarta para quinta-feira (3), as equipes deverão mudar de estratégia de busca. As máquinas, que têm sido usadas apenas nas ruas ao redor para facilitar o acesso ao local, vão entrar para retirar os escombros. “Vamos fazer uma escolha seletiva de escombros, no cenário principal”, disse Palumbo.

A estimativa dos bombeiros é de que as buscas possam durar ao menos uma semana. 

VIZINHOS

Moradores de prédios vizinhos ao edifício Wilton Paes de Almeida ainda sofrem o impacto da tragédia nesta quarta-feira. Enquanto alguns ainda aguardam para saber se poderão retornar para suas casas, outros sofrem com a fumaça que provoca tosse e dificuldade para respirar. 

A aposentada Edna Marta Nobre, 57, que mora no largo do Paissandu, viu o prédio desabar da janela de casa, de madrugada. Os vidros do seu apartamento ficaram pelando, e ela precisou colocar um ventilador voltado para a janela para tentar amenizar o calor. 

A casa foi invadida por fumaça desde o início do incêndio. Nesta quarta, Edna mantinha as janelas fechadas. Sua filha, Maria Izabel, 10, segurava um paninho no rosto para respirar e tossia. A família chegou a arrumar documentos e roupas para evacuar o prédio, mas não foi necessário. 

Já em outro prédio vizinho, os moradores precisaram deixar suas casas e passaram a madrugada na rua. 

Um deles, o comerciante Fernando Cruz Costa, 55, disse que desceu correndo o prédio, junto com a esposa, para ver o que estava acontecendo. Além da fumaça em casa, Fernando também é dono de uma perfumaria, de frente para o local do incêndio, que foi fechada pelos bombeiros. 

“Nem entrei lá, porque não me deixaram chegar perto. Não sei o estado do estoque, se está tudo destruído ou se as coisas se salvaram”, disse.

Alguns moradores de prédios interditados também reclamam que não foram atendidos pela assistência social. Segundo um dos moradores, são cerca de 135 famílias. “Desde o incêndio estou dormindo com a minha esposa e três crianças no carro. Tem gente dormindo na rua”, afirma o engenheiro Guilhermo Salazar, 40. 

Ele diz que os moradores querem um hotel para que possam passar as noites. “Não vamos para abrigo, não tem condições. A assistência social disse que nem sabia sobre nós. Só interditaram os prédios, mas não fizeram um cadastro dos moradores”, afirmou.

INCÊNDIO

Moradores do prédio afirmam que o incêndio começou por volta da 1h30 de terça após uma explosão no quinto andar. Eles desconfiam que se trate de um botijão de gás após uma discussão entre um casal. Após a explosão, houve fogo e fumaça pelo prédio.

Segundo o secretário da Segurança Pública, Magino Alves, a principal hipótese da Polícia Civil, que apura as causas do incêndio, é de que o fogo tenha começado por um acidente doméstico —ainda não se sabe se vazamento de gás ou explosão de panela de pressão. Um inquérito foi aberto no 2°DP (Bom Retiro).

Na avaliação de Marcelo Bruni, gerente metropolitano do ​Crea-SP, o prédio estava “numa situação fora de controle, infelizmente”. “Uma estrutura metálica, num incêndio, é muito suscetível à mudança de temperatura. Se podemos dizer que houve uma circunstância feliz é que o prédio desabou sobre ele mesmo, não sobre vizinhos. Danificou a igreja, mas, considerando o que podia ter havido, foi menos grave”.

Durante a madrugada, o incêndio atingiu outros prédios no entorno da antiga sede da PF. Entre eles, a Igreja Martin Luther teve sua estrutura danificada. O templo é a primeira paróquia evangélica luterana da capital, inaugurada em 1908.

Ao todo, 366 bombeiros já atuaram na ocorrência desde o início do incêndio, com 57 caminhões. Os agentes da linha de frente têm no currículo um curso de busca e resgate em estruturas colapsadas. 

Os agentes estimam que o trabalho de resfriamento pode durar até uma semana. A câmera térmica aponta temperaturas acima dos ​150°C.

 
 
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