Mulher que desapareceu com gêmeos disse ao ex que dormiria no prédio

Horas antes do incêndio ela disse ao ex-marido que estava cansada e dormiria

Ex-marido de mulher desaparecida após desabamento de prédio, Antônio Ribeiro Francisco, percorre o largo do Paissandu durante buscas
Ex-marido de mulher desaparecida após desabamento de prédio, Antônio Ribeiro Francisco, percorre o largo do Paissandu durante buscas - Robson Ventura / Folhapress
Gustavo Fioratti
São Paulo

O vendedor Antônio Ribeiro Francisco, 42, passou a terça-feira (2) e parte da madrugada de terça para quarta no largo do Paissandu à espera de informações sobre Selma Almeida da Silva, 38, e os dois filhos dela, Wendel e Werner, de 9 anos, que ainda são considerados desaparecidos no caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu, em São Paulo.

Também conhecido pelo apelido Índio, ele conta que conhece Selma há 15 anos e que tem com ela uma filha de 14 anos. Tanto Antônio como moradores do edifício dizem que é provável que Selma estivesse no prédio durante o desabamento. “Pouco antes do incêndio, falamos por telefone. Ela me disse: 'Índio, vou plantar umas plantinhas e vou dormir porque estou muito cansada”.

A filha do vendedor com Selma não estava com a mãe no momento do acidente. Segundo o pai, ela mora com a avó na Bahia. Ele também diz que não está esperando mais pela confirmação da morte com os bombeiros para informar familiares de que Selma está morta. “Para mim é certeza já”, diz.

Selma Almeida da Silva, desaparecida após prédio cair no centro de São Paulo
Selma Almeida da Silva, desaparecida após prédio cair no centro de São Paulo - Reprodução/ Folhapress

Antônio mostra à reportagem mensagens trocadas por um aplicativo de celular às 18h da segunda-feira (30), com Selma. “Que Deus abençoe sua vida. Boa noite”, ela escreveu. Ele também diz que identificou que Selma usou o aplicativo pela última vez a 1h38 na madrugada de terça. Quando soube do incêndio, ainda na madrugada de terça, Antônio tentou contato telefônico mas a chamada não completou. Ele passou a terça falando com moradores e com bombeiros para encontrar informação sobre a amiga, que ele chama de “meu braço direito para tudo”.

Os filhos de Selma estudam na Escola Estadual Marechal Deodoro, no Bom Retiro, região central, mas não foram à escola nesta quarta-feira. Professores disseram que os meninos eram assíduos e sempre chegavam antes à sala de aula. Por isso todos estranharam a ausência deles. Porém ainda esperam por notícias.

Nesta quarta, Antônio continuava esperando notícias junto ao grupo de desabrigados por causa da tragédia. Seu telefone não parava de tocar. Eram familiares de Selma tentando obter informações com ele. “Pode dizer que ela está morta”, ele falou durante uma das chamadas.

Segundo o vendedor, Selma estava desempregada e morava no oitavo andar do Wilton Paes de Almeida, com os dois filhos, que são gêmeos. Moradores relataram um barulho de explosão no quinto andar como provável foco inicial do incêndio.

A busca de Antônio por informação não era a única. Em cerca de duas horas na tarde de quarta, a reportagem identificou outras seis pessoas buscando informações de desaparecidos no largo do Paissandu. Uma mulher que não quis se identificar chorava enquanto perguntava a homens e mulheres desabrigados sobre sua sobrinha. Ela diz que procurou informação com a Polícia Militar, a Defesa Civil e com assistentes sociais da prefeitura mas ninguém informou nada.

Filhos de Selma Almeida da Silva, também desaparecidos após desabamento de prédio
Filhos de Selma Almeida da Silva, também desaparecidos após desabamento de prédio - Reprodução/ Folhapress

A mulher também relata que utilizou um aplicativo de troca de mensagens para falar a sobrinha. Diz que, na terça, pela manhã, enviou uma mensagem dizendo que estava sabendo da tragédia e perguntava se estava tudo bem com ela. A mensagem não foi respondida, mas a mulher ainda tinha a esperança de localizar a sobrinha porque acreditava que ela poderia ter escapado do incêndio e do desabamento após abandonar suas coisas dentro do prédio, incluindo o próprio celular.

Oficialmente, no entanto, há quatro pessoas desaparecidas em decorrência do desabamento. Além de Selma e seus filhos gêmeos, também está sendo buscado Ricardo (conhecido como Tatuagem pelos desenhos que carregava no corpo), que desapareceu durante tentativa de resgate. A corda que serviria para içá-lo foi encontrada sob os escombros.

Desesperado com o desaparecimento de uma mulher chamada Fernanda e dos dois filhos dela, um senhor de óculos e chapéu não quis falar à reportagem. Quando pedia informações aos desabrigados, ele só recebia resposta negativa. Ninguém havia localizado Fernanda ainda.

Com o telefone na mão, o vendedor Jonas dos Santos Lima também percorria na tarde desta quarta-feira o largo do Paissandu em busca de sua mãe. Ele mostrava foto digital dela para todos que passavam e disse que tentou diversas vezes contato por telefone, mas sem êxito.

A reportagem voltou a falar com ele às 18h, por telefone, e foi informada que Jonas conseguiu encontrar a mãe depois de horas de procura. O celular dela estava com defeito.

BUSCAS

A prefeitura possui uma lista de 49 pessoas que viviam ali mas que ainda têm o paradeiro incerto. O número foi definido no cruzamento de um cadastro antigo do prédio com nomes que familiares e amigos apontam.

Como a rotatividade no local é alta, no entanto, é possível que essas pessoas nem estivessem mais dormindo lá —assim como outras podem ter entrado desde então.

No local da tragédia, um detector de vibrações a laser fica 24 horas apontado para um prédio de 12 andares em frente ao que desabou. É um dos pontos mais sensíveis do trabalho dos bombeiros, já que o prédio é estreito e chegou a ter também focos de incêndio.

As estruturas da igreja e do prédio vizinhos ao edifício que desabou também correm algum risco, mas estão estáveis, segundo os bombeiros.

Nesta quarta (2), uma escavadeira retirava os escombros espalhados pela avenida Rio Branco. Enquanto isso, bombeiros lançavam água sobre o prédio, levantando uma ininterrupta fumaça branca.

A água era retirada de hidrantes espalhados pelo centro. Em um dos mais potentes, na alameda Barão de Limeira, funcionários da Sabesp gastavam cerca de 20 minutos para encher um caminhão-tanque com 6.000 litros d’água.​

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