Descrição de chapéu Dias Melhores

Bailarinas lutadoras inspiram grafites em escadaria de São Paulo

Espaço em Pinheiros foi restaurado por uma iniciativa do artista Eduardo Kobra

SÃO PAULO, SP BRASIL- 13-08-2018 : Turistas franceses visitam grafites feitos pelo grafiteiro Kobra. Grafiteiro Kobra restaurou escadaria de Pinheiros (SP) com pintura de bailarinas. ( Foto: Joel Silva/Folhapress ) ***ILUSTRADA *** ( ***EXCLUSIVO FOLHA***) Folhapress

Ricardo Hiar
São Paulo

Melina Reis, 33, faz balé clássico desde os 13. Depois de um acidente de moto e da necessidade de amputar parte da perna esquerda, continuou na dança com o uso de uma prótese.

As irmãs Yasmin, 15 e Isabela de Souza da Silva, 13, moram em Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo. Naturais do Maranhão, seguiram para a capital paulista em 2014 e começaram a fazer aulas de balé num projeto social.

Apesar da diferença de idade e de rotina, as três têm mais do que o balé em comum: serviram de inspiração e modelo para a recente obra do artista Eduardo Kobra —a escadaria das Bailarinas, em Pinheiros, na zona oeste, no primeiro trabalho do grafiteiro numa escada.

Além de Mel, Yasmin e Isabela, a obra retrata a russa Maya Plisetskaya, considerada uma das maiores bailarinas do século 20, e uma reprodução da "Pequena Bailarina de 14 Anos", de Edgar Degas.

Kobra diz que o projeto começou quando resolveu pintar uma escadaria. Ele percorreu a cidade em busca de um local e, quando passou pela escadaria da rua Alves Guimarães, não teve dúvidas de que encontrara o ponto ideal.

Com a ajuda da empresa Bonafont, o espaço foi todo restaurado. Foram instalados bancos e nova iluminação, consertado o piso e feito o serviço de jardinagem.

Sobre a escolha das personagens, o artista disse que foi intencional mesclar identidades tão diferentes, mas que são unidas pelo amor à dança. 

Maya se tornou uma referência mundial na modalidade, Mel demonstra a persistência ao dançar mesmo após perder a perna e ser pioneira no uso de uma prótese de ponta. As irmãs Yasmin e Isabela são exemplos de determinação, com atuação em destaque e convites para atuar em companhias fora do país.

A produção demorou cerca de 50 dias. As brasileiras passaram por uma sessão de fotos num estúdio, para que o artista depois escolhesse qual imagem seria retratada em cada espaço. Segundo ele, foi um trabalho complexo por causa das combinações de cores e da pintura nos degraus.

Melina, conhecida como Mel Reis, Yasmin e Isabela viram a escadaria por foto, mas ainda não estiveram no local. "Quando vi a foto até chorei. Nunca imaginei que viveria uma experiência como esta, ser pintada por um artista que sempre admirei", disse Melina. 

"Fiquei muito feliz em ser escolhida e poder representar esse projeto. Eu olho aquela imagem e me vejo lá. Amei isso", afirmou Yasmin.

Mel Reis sempre gostou de balé. Desde que iniciou na dança, ainda na adolescência, nunca pensou em parar.

Apesar da vontade, foi obrigada a interromper a atividade após um acidente em 2002. Foram três anos sem poder andar. Teve uma fratura exposta e desenvolveu osteomielite (infeção no osso) que foi agravada com o tempo. 

Como não tem cura, precisou realizar cirurgias para amenizar o problema. Em 2014, sob risco de uma infecção generalizada com o agravamento da doença, optou pela amputação da perna logo abaixo do joelho. No ano seguinte, ela já estava dançando novamente.

Para Mel, o fato de fazer dança e conhecer bem seu corpo contribuíram para a rápida adaptação com uma prótese. 

Apesar de dançar diversos ritmos, o balé sempre foi sua paixão. Então mesmo de volta à dança, Mel ainda não se sentia realizada por completo por não poder estender o calcanhar —movimento necessário para as bailarinas. 

Em 2016 uma inovação mudou o quadro: graças a uma prótese inédita, que imita a sapatilha de ponta, Mel recuperou os movimentos e o ritmo da dança que imaginou que nunca mais iria praticar.

Hoje, integra companhia de balé e participa de aulas e apresentações. Divide o tempo com o trabalho como designer e produtora de vídeos.

Já a mãe de Yasmin e Isabela deixou o estado do Maranhão para tentar uma vida melhor em São Paulo em 2010.

Como não era possível levar as filhas, as meninas ficaram com a avó. Durante quatro anos elas puderam matar a saudade apenas nas férias em que a mãe conseguiu retornar para visitá-las. Esse quadro mudou em 2014, quando a avó viajou com as irmãs até a capital paulista para que voltassem a viver com a mãe, que morava em Paraisópolis.

Foi nesse mesmo ano que Yasmin, que tinha feito aulas de balé aos três anos, soube do Ballet Paraisópolis, grupo que oferece aulas gratuitas na comunidade. Ela se inscreveu e logo conseguiu uma vaga. Isabela também se interessou pela atividade e entrou para o grupo no ano seguinte.

O gosto pelo balé é tão grande que elas treinam com disciplina mesmo em meio a uma rotina intensa. As irmãs acordam diariamente às 5h30 para irem à escola, um trajeto de 30 minutos a pé. Yasmin cursa a primeira série do ensino médio, e Isabela faz o oitavo ano do fundamental.

À tarde, participam das aulas de balé, que vão das 13h30 às 18h. Em alguns dias esse horário é estendido porque fazem aulas de inglês.

Como a mãe trabalha o dia inteiro como balconista num mercado de Paraisópolis, elas ainda precisam ajudar na arrumação de casa e em outras tarefas. Para Yasmin, todo esforço vale a pena. "Desde o começo o balé tem me ajudado muito e tem sido importante na minha vida. Estou num lugar que me apoia para ser alguém no futuro. Quero entrar numa companhia grande, como a Royal em Londres."

Segundo a jovem, apesar de alguns colegas não considerarem o balé como uma profissão, sua mãe, os professores e a maioria dos amigos demonstram apoio à atividade que ela quer seguir por toda a vida.

Para a bailarina e coreógrafa Monica Tarragó, fundadora do grupo, as duas irmãs têm potencial e muitas chances de se tornarem grandes no balé. "Elas são muito focadas e possuem um talento absurdo. A Yasmin já deve entrar em uma companhia internacional no ano que vem", disse.

O Ballet Paraisópolis atende 200 alunos com idades de 8 a 17 anos e tem outras 2.000 pessoas numa fila de espera. O projeto oferece formação de balé e dança contemporânea.

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