Pacientes esperam anos por cirurgia de catarata em SP; fila chega a 24 mil

Sem acesso à cirurgia, idosos perdem emprego e adquirem novas doenças

Thaiza Pauluze
São Paulo

​O ambulante Sadi Claudino, 64, costumava bater ponto de domingo a domingo, das 9h às 21h, em frente a uma estação de trem em Osasco, na Grande São Paulo. A venda dos doces e refrigerantes era a renda da família.

Até que foi ficando difícil ler as embalagens e contar o troco. A visão, opaca, já não era a mesma. O diagnóstico da catarata veio em 2015 no SUS (Sistema Único de Saúde), junto com a indicação para a cirurgia, que, passados três anos, ainda não foi realizada.

Sadi Claudino, 64, ambulante de Osasco, espera há três anos por uma cirurgia de catarata no SUS - Marlene Bergamo/Folhapress

Como ele, em São Paulo, outras 24 mil pessoas esperavam na fila por uma cirurgia de catarata na rede pública no ano passado, segundo levantamento do CFM (Conselho Federal de Medicina) —a correção da opacidade do cristalino é a cirurgia eletiva com maior demanda no estado.

Sadi perdeu toda a visão do olho direito e 30% da do esquerdo. No início deste ano, foi chamado para realizar os exames pré-operatórios. “Dizem: ‘em breve vão te chamar’. Você fica pensando ‘agora vai’ e nada, nunca chega o dia.”

A espera frustrada foi o gatilho para outros problemas de saúde. Em maio, ele não viu um desnível na rua quando estava a caminho do trabalho, caiu no chão e quebrou o braço. Os meses de gesso deram lugar ao pânico de sair de casa. Parou de trabalhar e entrou em depressão.

Agora, as frequentes visitas ao Parque Villa-Lobos e as partidas de dominó deram vez às consultas com um psiquiatra. “Quando vão fazer a cirurgia, quando eu ficar totalmente cego?”, pergunta-se.

Procuradas, as secretarias estadual e municipal de Saúde se negaram a dizer quantas pessoas estão hoje na fila por uma cirurgia de catarata nem quanto tempo, em média, elas esperam pelo diagnóstico e pela realização do procedimento.

Na cidade, segundo a pasta, 2.000 pessoas aguardam avaliação para saber se precisarão de cirurgia.

A catarata é responsável por 51% dos casos de cegueira no mundo. No país, esse contingente é formado, na maior parte, por idosos de baixa renda.

Segundo o CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia), a correção cirúrgica é a única opção para recuperação da capacidade visual do portador de catarata senil —que corresponde a cerca de 85% das cataratas, com maior incidência após os 50 anos. Nesses casos, ela não é considerada uma doença, mas um processo normal de envelhecimento.

Hoje, o país tem cerca de 28 milhões de pessoas com mais de 60 anos. A expectativa do IBGE é de que, em 2060, esse contingente mais que dobre de tamanho, atingindo 32% do total de brasileiros. O número de idosos será então maior que o de crianças.

Com o aumento da expectativa de vida, a procura tende a se agravar, diz Renato Pinheiro, chefe de oftalmologia na Santa Casa de Misericórdia, na capital paulista, e membro do CBO. “É um problema social. À medida que a população está vivendo mais, aumenta a demanda pela cirurgia da catarata no sistema público”, afirma.

E, quanto maior a demora, mais chance de complicações. “Com o passar do tempo, o cristalino endurece e cresce o risco de dano tecidual. O melhor é operar precocemente”, afirma o médico.

A curto prazo, o desafio é colocar os pacientes numa ordem estabelecida por prioridade médica, explica Pinheiro. Para ele, alguns deveriam ter prioridade, como os que têm cegueira bilateral ou doenças secundárias, como o glaucoma.

Nessa lista, estaria a aposentada Gecy Nascimento, 73, de Arthur Alvim (zona leste), que perdeu a visão dos dois olhos. Ela descobriu a catarata em 2010. Nos últimos oito anos, passou por cinco consultas com oftalmologistas no SUS, todas com encaminhamento cirúrgico.

“Quando eu ligo, ninguém dá uma previsão. Só mandam aguardar, que não tem vaga ainda”, conta a filha Luciana Nascimento. Primeiro, a cegueira tirou da ex-doméstica dois grandes prazeres: o de ler a bíblia e o de fritar torresmos. Hoje, ela já não consegue realizar nenhuma atividade cotidiana, nem mesmo ir ao banheiro ou se trocar.

A história se repete com Maria Dias Cardoso Santana, 77, na Cidade Patriarca, também zona leste. Ela entrou para a fila de espera no início de 2016. “A cada dois meses eu ligava e diziam que estava na lista, tinha que esperar”, conta a filha, Vanda Cardoso.

Na semana passada, diz a família, Maria foi informada que a lista não existe e que todo o caminho teria que ser refeito: ir a um clínico geral num posto de saúde pegar o pedido para a consulta com um médico especialista. Ele solicita os exames, constata a catarata e, aí sim, dá início à espera pela cirurgia.

“Ela já caiu no quarto e abriu o supercílio porque não enxerga, também tem diabetes e depressão. Deveria ser atendida logo, mas marcaram só para janeiro a consulta com o oftalmologista”, diz Vanda.

Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde afirma que não encontrou registros de consultas da paciente no Hospital do Servidor, onde ela diz já ter passado por especialista.

O Ministério da Saúde afirma que repassou R$ 250 milhões aos estados, em 2017, para diminuir a fila de espera por procedimentos cirúrgicos eletivos, incluindo as cirurgias de catarata.

Segundo a pasta, a regulação da lista de espera, assim como a realocação dos recursos, é de responsabilidade das gestões estaduais e municipais.

Em 2014, foram realizadas 557 mil cirurgias, e o repasse do governo federal para o procedimento foi de R$ 350 milhões. No ano passado, o número de cirurgias havia caído para 483 mil, embora o valor tenha sido aproximado: R$ 325 milhões.

A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo diz que investiu R$ 2 milhões extras esse ano para agilizar a fila de espera, e, no primeiro trimestre, um mutirão realizou cerca de 6.000 cirurgias de cataratas nos AMEs (Ambulatórios Médicos de Especialidades).

A família de Gioconda Pisani, 83, decidiu não esperar até que a idosa ficasse totalmente cega. Costureira, ela já não conseguia ver nem a linha nem a agulha. A previsão do SUS? Dois anos de espera.

A alternativa que acharam foi a Central da Catarata —negócio social que dá acesso às pessoas de baixa renda a cirurgia em clínicas particulares, mas com custo menor.

Num consultório convencional no Tatuapé, zona leste, onde Gioconda mora, pagariam cerca de R$ 30 mil pela operação nos dois olhos. Na Central, conseguiram por R$ 7.600 —pagos com as economias da filha, do genro e do neto.

Em março, Gioconda fez a cirurgia. Subiu no terraço da casa atrás do antigo hobby: observar o céu. “Olha, agora estou conseguindo ver as estrelas de novo”, disse, enquanto abria um sorriso.

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