Três anos após tragédia, vítimas de Mariana enfim projetam suas novas casas

Famílias de comunidade destruída pela lama ajudam a definir a cara de novo vilarejo

Gabriela Longman Lalo de Almeida
Mariana (MG)

Eles perderam as casas que tinham, e a pergunta que ressoa é: como recuperar o irrecuperável? Passados três anos do maior desastre ambiental do Brasil, moradores do distrito de Bento Rodrigues, principal comunidade de Mariana (MG) destruída pela lama da mineradora Samarco, vivem o momento de projetar um novo distrito e suas futuras casas dentro do processo de compensação.

Numa negociação intrincada entre a Comissão de Atingidos, o Ministério Público e a Fundação Renova (estabelecida em agosto de 2016 pela Samarco), cada ponto do processo é discutido e disputado até a conclusão. Foi assim com a escolha do terreno e com o tamanho e as características dos futuros lotes do reassentamento.

Agora, o momento é o de preparar a licitação para definir a empresa que vai construir as primeiras casas.

Folha teve acesso a alguns dos projetos desenhados em conjunto pelas famílias atingidas e pelo time de arquitetos contratado pela Renova.

Elas foram planejadas a partir das lembranças e vontades de cada morador --desde a disposição dos cômodos até a escolha dos revestimentos.

"Nada do que a empresa e a Fundação Renova estão fazendo é de espontânea vontade, mas fruto de pressão e de uma série de acordos e decisões judiciais exigindo atuação participativa", afirma o promotor Guilherme de Sá Meneghin, que atua no caso desde os primeiros instantes da tragédia, em novembro de 2015 --a Samarco é uma sociedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton.

"Não podíamos aceitar um reassento ao estilo Minha Casa Minha Vida, porque não era a realidade deles", completa.

O plano é que esse modelo de reassentamento participativo sirva de exemplo para outros afetados por desastres.

Morador da antiga rua São Bento, Antonio Alves, 73, e família eram conhecidos pelas festas no quintal. Pneus pintados e antigos bancos de ônibus coloriam o espaço, que recebia os aniversários e churrascos de fim de ano. Depois do desastre, a família morou em três casas alugadas, mas sente falta da área livre, do pomar e do fogão à lenha.

"Só quero uma casa minha para onde possa voltar, pregar um prego e pendurar um quadro. Não vou furar parede na casa dos outros", diz o aposentado, que ao longo da vida trabalhou em empresas ligadas a carvão e alumínio.

Inspirada na morada original, o projeto para a nova casa ganhou janelas-balcão, lavabo e uma planta em H que melhora a ventilação e a circulação. "É uma releitura da casa anterior", explica o arquiteto Paulo Carneiro, 33. "Ele [Antonio] sempre falou: 'Eu quero simplicidade'. Ficou uma casa bem mineira."

Os encontros entre arquitetos e atingidos acontecem desde 30 de maio. De lá para cá, cerca de 90 dos 240 projetos do novo Bento foram desenvolvidos, além do desenho de equipamentos públicos como escola e posto de saúde.

Nas próximas semanas, os moradores começam a visitar os lotes. Enquanto alguns querem a nova casa mais parecida o possível com a que perderam, outros preferem esquecer e começar tudo do zero.

Fruto da autoconstrução, muitas das casas originais não tinham laje, a caixa-d'agua era exposta e a ocupação do terreno nem sempre obedecia aos critérios da legislação.

"Tem muita gente que fala: 'Eu mesmo posso fazer'. A gente tenta explicar que está aqui com uma visão técnica para ajudar", conta a arquiteta Ana Maria Martins da Costa.

"Tem morador que diz: 'Quero tal coisa porque minha casa infiltrava'. Quando a gente explica que não vai infiltrar, os parâmetros e as opções vão mudando."

Uma das primeiras casas projetadas por ela foi a do casal Lilian Cristina Soares e Cleisson Calixto, conhecido como Foguinho, que começava a construção da casa quando o desastre aconteceu.

"A gente tinha o lote num dos primeiros lugares que a lama passou", conta Lilian. "No projeto só ia dar dois quartos. Eu tenho três meninos e uma menina e falei: 'Não, eu quero com três'. Ela [arquiteta] levou, refez tudo. Pelo projeto ficou melhor do que a que nós íamos fazer. Agora a gente está esperando."

O processo de espera inclui pelo menos uma reunião semanal --enquanto alguns atingidos são participantes assíduos, outros vão apenas quando há uma decisão importante a tomar.

Um dos desafios urbanísticos é reconstruir o distrito o mais perto possível do que havia anteriormente e ao mesmo tempo trabalhar dentro dos parâmetros legais.

Com 375 hectares, o terreno adquirido para o novo Bento (uma antiga fazenda de eucaliptos no meio do caminho entre Bento original e o centro de Mariana) está em fase de terraplanagem.

Embora o traçado urbano, o nome das ruas e as relações de vizinhança repitam o desenho original, a topografia é outra: a área antiga era mais plana, de várzea, e o novo terreno tem declividade maior. O projeto urbano foi aprovado pela comunidade em fevereiro, pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em junho, e ganhou alvará em 1º de agosto.

"Bento atingido tinha por volta de 50 hectares, com casas dentro de áreas de preservação permanente, formas irregulares de ocupação. Se você pegar o desenho urbano de Bento na origem você vai ver que ele é mais orgânico, que os lotes têm poligonais meio malucas. Os novos lotes têm áreas mínimas maiores do que as áreas que eles tinham lá, cresceu consideravelmente", explica Álvaro Braga, coordenador dos cerca de 25 arquitetos que trabalham no projeto, em um escritório no centro de Mariana.

Assim, famílias que tinham lotes de 75 m² ou 100 m² receberão um de 250 m². Em áreas de declividade acentuada, o lote mínimo é 600 m² para compensar o relevo.

No processo de cálculos, um dos pontos de conflito é definir o que entra como restituição (via direito à moradia) e o que entra como compensação (ou seja, é contabilizado no valor de indenização, outro capítulo do processo).

Um morador tinha um galinheiro, mas não quer mais criar galinhas. Ao mesmo tempo, quer uma piscina. Quanto vale um galinheiro e quanto vale uma piscina? A equação não é fácil.

O processo inclui ainda burburinhos sobre as casas dos outros. Quem escolheu o quê, quem mudou de ideia depois que viu um projeto mais bonito ou uma solução melhor encontrada por outro morador.

Comandando uma equipe de 550 funcionários que deve crescer para 2.000 nos próximos meses, a engenheira civil e gerente de reassentamento Patrícia Lois, 48, discute agora com a comunidade como será o processo de licitação e a escolha da empreiteira para a construção do novo distrito, que tem custo estimado de R$ 132,5 milhões.

Até o momento, o projeto urbanístico e de casas foi desenvolvido por uma associação entre a Julião Arquitetos, empresa com sede em Alphaville (SP), e a Tecservice Engenharia, de Belo Horizonte.

"Eu falo: a obra é a parte mais fácil. A questão social é transversal, envolvendo pertencimento e retomada do modo de vida. Nesse sentido, a gente precisa ter calma e ter pressa. Quanto mais eles ficarem longe, as famílias mudam, os idosos envelhecem."

Segundo ela, a entrega das casas deve acontecer em 2020, cinco anos após a tragédia. O novo distrito de Bento fica a 9 km do antigo Bento e a 8 km da sede urbana de Mariana.

Morador da antiga rua Cônego Veloso, Edel Santana, 61, trabalhava como motorista de van, no transporte de meninos e professores da Apae. No dia do desastre, esperava em casa a hora certa para sair.

"Começou a gritaria na rua. Subi as escadas até o terraço, a lama vinha, aquele barulhão. Aí que eu deduzi: 'A barragem estourou'. Minha garagem tinha dois portões eletrônicos que já não abriam com a falta de luz. Saí correndo quase um quilômetro, pulei muro, passei por baixo de cerca, nem olhei para trás. A lama levou toda a casa, arrancou até o piso. Tinha uma van 2014 que achei 5 km depois e uma Kombi 2012 que não achei até hoje."

Depois da tragédia, Edel passou nove meses desempregado tomando remédios para dormir. "Ele perdeu a rota. Como dizem os mineiros, acabou o milho, acabou a pipoca", afirma sua mulher, Cleinice Rezende de Sá, mencionando ainda certa discriminação com os atingidos.

"No princípio é aquela comoção. Mas aí a Samarco fechou, desemprego geral. De quem é a culpa? Da comunidade de Bento. As pessoas que olham feio dizendo: 'Vocês tão no hotel, vão receber dinheiro, vocês estão muito bem'."

Na nova casa, Edel fez questão de manter visão panorâmica do terraço alto, aquele que salvou sua vida.

O antigo distrito de Bento Rodrigues é hoje uma terra arrasada, em que ruínas das antigas casas, igreja e escolas dormem cobertas pela lama. Para acessar o local é preciso autorização da Defesa Civil e, na maioria dos casos, acompanhamento de algum antigo morador do povoado.

Enquanto alguns querem apagar a história e nunca mais pisar no local, outros voltam sistematicamente nos dias de folga e até acampam nos finais de semana nas casas vazias que sobraram na parte alta.

Operador de máquina na Vale, um dos que retornam semanalmente é Antônio Quintão. Levando um facão na garupa da moto, ele visita a antiga casa, faz orações e pesca. Das duas residências da família restou só uma porteira, que colocará na nova casa com os dizeres "porteira da saudade, porteira da esperança".

"Cada um tinha seu modo de vida, seu ganha pão. Nada de viver em casa alugada, com esmola de empresa", diz com ar soturno.

Para Antonio Pereira Gonçalves, membro da comissão de atingidos e conhecido como Da Lua, um dos desafios é conter a ansiedade e manter a comunidade unida diante de todo tipo de oportunistas.

"Todo mundo ficou desorientado, mas a gente não gosta nem de lembrar do que já passou. Uma comunidade do tempo dos bandeirantes foi destruída em dez minutos. É um processo cansativo, mas a gente é incansável. O trabalho da comissão é ter calma, frieza, não ceder às pressões."

Segundo ele, ainda não está definido o que acontecerá com o velho Bento.

"É um lugar muito visado, com a barragem, o dique. A empresa quer apagar a cena do crime, a gente não quer. Já está assinado, a comunidade lá permanece do jeito que está. A Igreja de Nossa Senhora dos Mercês, na parte alta, foi tombada. Queremos poder contar a história."

 
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